Os gelados nas crises políticas, os cafés que serviu e o multibanco. Em Belém, o vizinho Marcelo deixa saudades
09 mar, 2026 - 08:00 • Alexandre Abrantes Neves
Só o conheciam da televisão, mas quem vive em Belém demorou pouco até confirmar que Marcelo era "bom vizinho". Destes dez anos, ficam marcas de alguém que cumprimentava todos, que surpreendia em dias difíceis para o país e que até tinha uma forma específica de comer laranjas. Os locais e as pessoas do quotidiano do "Presidente dos afetos".
De gravata azul muitas vezes, de boina quando calhava e pronto a tirar uma selfie. E sempre imprevisível. “Houve várias vezes em que serviu os clientes no balcão. Entrava e, do balcão, servia os clientes, sim. Tivemos algumas situações mais caricatas, sim [risos]”.
Sandra Gouveia é gerente da pastelaria Versailles, na esquina oposta ao antigo Museu Nacional dos Coches, em Belém. Atualmente, naquele espaço saem cafés e bolos às dezenas por hora, mas no final de 2015 foi ali que se ergueu a sede da campanha presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa. E, talvez por isso, o Presidente se tenha sentido tantas vezes em casa.
“Foi muito bom vizinho”, recorda, apontando em especial os tempos da pandemia. “Foram tempos complicados, como todos nós que passámos pela restauração e nas outras indústrias. Ele passava e era sempre bom ver alguém que nos trazia alguma tranquilidade”.
Nos últimos dez anos, tornou-se o cliente mais famoso da pastelaria, mas nunca foi de hábitos: tanto chegava a aparecer dias seguidos, como ficava temporadas sem dar o ar da sua graça. Mas sempre que voltava, conhecia os empregados pelo nome e ficava ou para beber café ou para almoçar. E com gostos específicos.
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“Quando o Presidente almoçava ou pedia uma laranja para comer, gostava de ser ele a descascá-la e não que fôssemos nós a levá-la já descascada”, conta Sandra, com um sorriso envergonhado, como quem comete uma inconfidência.
Não raras vezes – principalmente, antes da pandemia –, Marcelo passava pela Versailles para tomar café depois de almoçar num dos restaurantes das redondezas, na Rua da Junqueira. “Ao início, gostava de vir comer uma sandes, mas gostava muito era de bacalhau à Brás”, lembra Manuel Mourão, proprietário do restaurante Belém Palácio, que ganhou a simpatia de Marcelo – e não foi apenas pelo nome que escolheu para o estabelecimento.
“Ia dar um passeio ao fim do dia, lá para as oito horas da noite. E, muitas vezes, cheguei a estar distraído e ele bater-me [nas costas]. ‘Como está? Passou bem?’. Ele é uma pessoa muito atenta, muito atenta”.
Dos dez anos anteriores, entre 2006 e 2016, Manuel lembra-se de Cavaco Silva ali passar na rua apenas uma ou duas vezes e sem nunca entrar para comer. “Este é tudo, é liberdade. Veio revolucionar muito. Acho que não vai haver nenhum Presidente como ele. Não vejo o António [José] Seguro vir aqui, fazer como o Presidente Marcelo. Vai ser muito recatado”, prevê.
Manuel é, por isso, perentório a dizer que vai ter “muitas saudades” do vizinho Marcelo e até dos episódios mais “caricatos”, como aquele em que o Presidente saiu para ir até a uma caixa multibanco, poucas horas depois do chumbo no Parlamento da primeira proposta de Orçamento do Estado para 2022.
“Gostávamos de o continuar a ver aqui em Belém. Dar o seu passeio e cumprimentar toda a gente, como é costume”, desafia.
Gelados e caso Galamba. “Era só gulosice”
Em 2023, com o caso Galamba a abalar o então governo de maioria absoluta do PS e já depois de António Costa rejeitar o pedido de demissão do ministro, Marcelo saiu do Palácio de Belém, almoçou num dos restaurantes ali perto e acabou o final de tarde a comer um gelado.
Enquanto o Presidente se deliciava com a sua combinação preferida (limão, framboesa e chocolate), o país político temia uma demissão do governo ou uma dissolução da Assembleia da República. Mas o presidente, de cone na mão, deixava o sinal: “Eu a comer um gelado do Santini e as pessoas estão preocupadas?”, respondia ironicamente aos jornalistas.
No dia seguinte, Marcelo Rebelo de Sousa fazia uma declaração ao país para manter o governo, mas deixar-lhe um ultimato e garantir uma postura hipervigilante. Mas, para Eduardo Santini, proprietário da cadeia de gelatarias, a decisão não foi tomada naquele momento. “Não, não. É só gulosice. Nada mais do que isso”, assinala à Renascença.
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Ainda antes de chegar a Belém, já o professor Marcelo era amigo da família Santini, há pelo menos três gerações. Por essa razão, haver uma loja mesmo ao lado do palácio presidencial foi uma “feliz coincidência”. Dos últimos dez anos, há dezenas de histórias, mas Eduardo Santini destaca uma que aconteceu em Cascais, num fim-de-semana que Marcelo passou em casa.
“Um dia, ele estava a passear no paredão e encontrou uma equipa de andebol. Meteu conversa e, de repente, aparece-me uma equipa de 35 pessoas dentro da loja tudo para comer gelado com ele. Foi assim, uma daquelas coisas... Mesmo à Marcelo”, recorda, entre risos, do amigo “afável” e “muito humilde”.
O regresso a Cascais. "Ele e Seguro podem almoçar cá"
De Lisboa a Cascais são apenas 23 minutos de carro, mas a distância foi-se tornando cada vez maior para Marcelo Rebelo de Sousa nos últimos anos. Da pandemia a esta parte, o Presidente da República cessante mudou-se quase exclusivamente para Belém, onde a zona residencial teve de ser adaptada para Marcelo que gosta de “quartos mais pequenos”.
Em Cascais, numa rua apertada e de sentido único no centro da vila, a casa onde Marcelo vive como inquilino há décadas já apresenta sinais de regresso há várias semanas – da janela, as arrumações são visíveis e a segurança pela PSP foi reforçada.
Na vizinhança, os últimos dias têm sido de expectativa: todos querem o regresso do “amigo” Marcelo.
“Acho que os vizinhos aqui estão todos contentes de ele voltar – não como Presidente, mas como vizinho. Já há bastante tempo que ele não está por aqui e as pessoas gostam muito dele”.


Tânia é filha de “Belinha”, a proprietária do restaurante na rua de trás da casa de Marcelo e onde o Presidente é especialmente fã dos pratos de carne, sempre a acompanhar com um copo de vinho, que “paga do dinheirinho dele, à parte”.
“Os seguranças é que comem peixe. Eles é que são mais saudáveis. E eles tiram imensas fotografias com ele. Não publicam, mas tiram. Devem ter imensas histórias com ele”.
A expectativa agora passa por ver se, uma década depois e já sem tanto aparato mediático, se o Marcelo descontraído mudou muito ou não. Independentemente disso, a porta do restaurante vai continuar aberta. E até para receber convidados.
“Nunca se sabe. Podem vir aqui os dois. Se quiserem, estão sempre à vontade. O professor Marcelo e António José Seguro”, sugere Tânia. Afinal, onde sempre coube um Presidente, cabem dois.















