REPORTAGEM
"Isto aqui não conta". Seguro inicia mandato em Mourísia, terra de fogo com 10 habitantes
10 mar, 2026 - 06:30 • João Maldonado
A aldeia de Mourísia, no concelho de Arganil, é a escolha para primeira deslocação oficial do novo Presidente da República. Presidente da União de Freguesias diz ter sido surpreendido pelas notícias. “Prometeu e cá está”, relembra um dos “cerca de dez moradores” (permanentes, a que se juntam outros nos fim-de-semana e nas férias) – recordando a visita do último verão.
Será um feito alcançar pauzinhos de rede no interior da aldeia que se descobre num vale do distrito de Coimbra, bem interior, a meio caminho entre a capital de distrito e território espanhol. Desde a passagem do comboio de tempestades que – mais do que assolou – atropelou a região, a televisão é por aqui uma raridade faz mais de um mês. A rádio é companhia para os “cerca de 10 moradores” perante as falhas que afetam também os telemóveis.
A beleza de Mourísia contrasta em absoluto com o isolamento de que é vítima. O caminho para lá chegar é sinuoso de grau elevado. As estradas são ladeadas por montanhas cobertas de neve. Neve essa que aqui e ali perde timidez e salta para o alcatrão, cobrindo-o parcialmente para aumentar ainda mais a dificuldade de conduzir entre tantas curvas e contracurvas.
O vento, a chuva e o nevoeiro também querem comparecer nesta demanda. Pelo menos assim é no dia em que vamos até ao local eleito pelo novo Presidente da República para primeira visita oficial. Estamos em vésperas de António José Seguro voltar a pisar a terra a que “prometeu” voltar, quando por aqui passou ainda em pré-campanha para chefe de Estado. Nesse tempo por causa dos fogos que ameaçavam a localidade, recorda Arménio Costa.
“É um grande orgulho para a população. Prometeu e cá está”, sublinha quem vive em Mourísia há 68 anos – ou seja, desde sempre. Arménio, que nunca quis deixar este lugar, garante que nunca viu ao vivo um Presidente. Nenhum, pelo que se lembra, passou por aqui. Esta terça-feira terá certamente a oportunidade de cumprimentar o Presidente Seguro.
Na altura em que o viu – em agosto, época de incêndios – ainda como pretendente a Belém, recusou deixar a própria casa. Contra as recomendações, porque “tinha os animais, tenho ainda uma cabrita e umas ovelhas para me entreter, mais a minha mulher”, disse "não" a ser levado para um local seguro. longe das chamas.
“Já estamos habituados, desde 1978, 1987, 2005, 2017 e agora 2025”. Olhando em frente para um casa com dois andares construída numa escarpa, acrescenta orgulhoso que há nove anos “fui eu que combati o fogo aqui por cima”.
Entre o inferno do verão e a copiosa chuva deste inverno, temas de conversa não faltarão para quando, pelas 11h00 da manhã, o eleito das Caldas da Rainha fizer duas horas e meia de carro, se sair de sua casa, para chegar ao lugar que escolheu para iniciar as deslocações do mandato.
“Como ainda era um mero candidato e ser recebido da maneira que foi. Acho que não se esqueceu disso”, reflete Virgílio Lopes, mais abaixo, interrompendo o trabalho como carpinteiro, que já só “pode menos” e vai fazendo “umas coisinhas”, claramente satisfeito com a visita que está aí à porta. Sem memória de políticos de renome terem por aqui passado, sublinha, rodeado de tábuas e madeira trabalhada, que “isto aqui não conta”.
Mourísia, concelho de Arganil, pertence à União de Freguesias de Cerdeira e Moura da Serra. O presidente, eleito pelo PSD em outubro passado, explica que até foi primeiramente informado desta visita pelo que leu na comunicação social. “Inicialmente recebemos a notícia pela Lusa, a nota que foi dada pela Presidência da República, mais tarde fomos contactados, naturalmente, pela Casa Civil”, relata Bernardo Figueiredo recordando a visita do último verão.
“Tínhamos essa esperança que ele viesse cá. Não esperávamos que fosse a primeira visita, mas estamos muito honrados que assim seja.” António José Seguro chegará a meio da manhã e “ficará até querer”.
Nesta entrevista à Renascença, em fase de preparativos para a receção oficial, o líder da União de Freguesias descreve uma população “envelhecida”, mas “uma boa aldeia a visitar”, que foi a primeira a ser atingida pelas chamas há cerca de seis meses.
“Depois acabaram por ser todas. Temos talvez 10% de área que não ardeu na Freguesia”, sublinha perante uma paisagem visivelmente marcada pelo fogo – com árvores queimadas espalhadas pelo terreno onde não se vislumbra praticamente vivalma.















