Regionalização
Um em cada três ministros nasceu em Lisboa: o retrato do centralismo em 50 anos
17 mar, 2026 - 17:00 • Diogo Camilo
A capital domina a origem dos governos desde 1976. Entre 325 ministros diferentes, mais de 100 nasceram em Lisboa, enquanto a Madeira nunca teve um único nascido no arquipélago. Sá Carneiro teve o executivo menos centralista, já Santana Lopes foi o mais indiferente à regionalização no seu Governo.
Em 50 anos de democracia da 3ª República, num país onde Lisboa representa menos de 10% da riqueza produzida, metade dos chefes de Governo e dos chefes de Estado nasceram na capital.
No dia em que se realiza a primeira conferência anual da Associação Círculo de Estudos do Centralismo, a Renascença fez uma análise aos 25 Governos Constitucionais e concluiu que os primeiros-ministros naturais de Lisboa chefiaram durante mais de nove mil dias (9.087), mais do que aqueles que nasceram fora da capital, mas Luís Montenegro pode ultrapassar este registo dentro de um mês e meio.
Em número total, as contas ficaram iguais com a eleição de Luís Montenegro em 2025, com oito para cada lado: entre os que são de Lisboa estão Mário Soares (com três governos), Alfredo Nobre da Costa, Francisco Pinto Balsemão, António Guterres (com dois governos), Durão Barroso, Pedro Santana Lopes e António Costa (com três governos); entre os de fora estão Mota Pinto, Maria de Lourdes Pintasilgo, Francisco Sá Carneiro, Diogo Freitas do Amaral, Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, José Sócrates e agora Montenegro.
Em número de governos, há vantagem para os que nasceram em Lisboa (13 executivos, contra 12 dos restantes).
Desde o primeiro Governo, de Mário Soares, constituído a 23 de julho de 1976, Portugal conheceu 325 ministros diferentes. Destes, 104 nasceram na capital, fazendo de Lisboa o concelho mais representado de todos os governos (32%), com cinco vezes mais ministros que a segunda cidade (Coimbra, com 21) e a terceira (Porto, com 20 ministros).
Entre os municípios populosos sem qualquer representação estão cidades como Odivelas, Santa Maria da Feira, Funchal e Valongo — todas com mais de 100 mil habitantes, mas sem nunca terem tido um ministro nascido no seu concelho.
A Madeira é mesmo um caso particular. É que, entre mais de 300 ministros, nunca nenhum nasceu no arquipélago.
Mesmo quando os Governos tinham um ministro para a Região Autónoma da Madeira, ambos eram naturais do continente: Lino Miguel, de Castro Marim, é o governante com mais anos em funções governativas (entre 1976 e 1991, mais de quinze anos); e Artur Rodrigues Consolado, entre 1991 e 1997, nasceu em Lisboa.
Entre os distritos menos representados estão Portalegre, Bragança e Viana do Castelo, todos com cinco, Beja e Évora com seis, Vila Real, Faro e Açores com oito representantes nos governos.
Entre os ministros de Beja está Maria da Graça Carvalho, a atual ministra do Ambiente e Energia, que esteve em quatro governos diferentes.
Esta preferência por ministros de Lisboa não conhece cor partidária nem é exclusiva dos primeiros governos.
O Governo menos centralista foi o de Francisco Sá Carneiro, o VI, onde apenas dois dos 14 ministros tinham nascido em Lisboa — Francisco Pinto Balsemão e Álvaro Barreto.
A seguir a este é preciso avançar até ao segundo governo de José Sócrates, onde apenas três dos 17 ministros eram naturais de Lisboa — Isabel Alçada, José Mariano Gago e Pedro Silva Pereira. Só há mais um exemplo de governo com menos de 20% nascido na capital, o segundo governo de Cavaco Silva, com muitas remodelações e cinco ministros nascidos em Lisboa entre 27 governantes.
Entre Presidentes da República, e com a tomada de posse de António José Seguro, volta a haver equilíbrio: o natural de Penamacor é o terceiro chefe de Estado que não nasceu em Lisboa, tal como Ramalho Eanes e Cavaco Silva, enquanto do outro lado estão Mário Soares, Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa, naturais da capital.
Ainda assim, em termos totais de tempo, 60% dos dias passados em democracia foram com um presidente lisboeta — uma maioria que não mudará, mesmo que Seguro cumpra dois mandatos completos de cinco anos em Belém.








