Amor, guerra e eutanásia. A aparição de Marcelo pós-Belém trouxe recados nas entrelinhas
19 mar, 2026 - 00:45 • Alexandre Abrantes Neves
Na apresentação de um livro na Universidade Católica em Lisboa, Marcelo criticou as "armas de todo o tipo" que decidem guerras e armistícios e pediu mais "amor", principalmente aos católicos. Sobre a eutanásia, vincou várias vezes que os tempos atuais exigem a "defesa da dignidade humana". Já D. Manuel Clemente deixou um aviso, sem especificar o destinatário: "Uma pessoa atacada tem o direito de se defender, mas não é destruir quem o ataca."
Marcelo Rebelo de Sousa até começou por dizer “escrevi [a intervenção] para me defender”, mas rapidamente trocou as voltas a si próprio e bastaram pouco mais de cinco minutos para se virar para a atualidade internacional.
“Não estaremos perante um somatório tornado mais intrincado por questões mais difíceis, mais instantâneas, mais emocionais, mais irracionais, mais imorais? E já não digo relativistas ou amorais, mas imorais”, questionou a plateia na livraria da Universidade Católica em Lisboa, num tom semelhante ao que vestiu durante mais de 40 anos como docente na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
E, apesar de nunca falar diretamente no Médio Oriente e na postura iraniana ou norte-americana, o professor Marcelo não resistiu a deixar uma lição para os dias de hoje e para as várias guerras que se propagam pelo mundo fora, incluindo no meio digital.
“Imoral é permitir que armas de toda a ordem, tal como algoritmos que as suportam, possam disparar e matar para decidir guerras e pazes militares, culturais, sociais, comportamentais, sem controle humano. Eis porque esta obra [da Associação de Juristas Católicos] era tão necessária. Para exorcizar passados que ficaram passados ou não souberam intuir futuros”, sentenciou.
Durante mais de 15 minutos, Marcelo puxou das posições católicas que não explicou em profundidade durante os dez anos da presidência (mas que também nunca negou publicamente) e discorreu sobre a fundação e as mudanças da Doutrina Social da Igreja ao longo dos últimos dois séculos.
O raciocínio estava bem ensaiado e deu a oportunidade ao antigo inquilino do palácio de Belém para cumprir mais uma vez o objetivo e contornar os temas políticos. Mas, nas entrelinhas, Marcelo acabou a tocar no tema da eutanásia, precisamente numa altura em que o governo se recusa a avançar com a regulamentação da lei, aprovada ainda durante a maioria absoluta do PS.
“[Somos] novos no tempo e no espaço, na ciência, na técnica, na era do digital e da sua regulação jurídica. E das novas gerações de direitos e deveres, em cascata, e dos neoestatismos, e dos neoliberalismos, da urgência da defesa da vida, da pessoa, da saúde, da comunicação, da participação, de um personalismo que o possa ser, crente ou não crente, mas verdadeiramente personalismo”, defendeu, relembrando ainda a declaração de voto que fez para a Constituição de 1976, por não haver “referência expressa à dignidade da pessoa humana e à liberdade de ensino”.
De gravata castanha (diferente da clássica azul que usava enquanto Presidente da República), Marcelo partia da doutrina social da igreja para responder à Renascença, ainda antes da intervenção, sobre a meta não alcançada de dar um teto a todas as pessoas em situação de sem-abrigo até ao final do seu mandato.
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Evitando sempre a palavra “política”, o antigo Presidente da República mostrou-se preocupado com “as várias formas de pobreza, a antiga, a nova, a novíssima, as crises económicas, as crises financeiras, os efeitos em termos de migrações” e assumiu que o falhanço no objetivo dos sem abrigo pode ter sido resultado de uma má leitura do problema.
“O que eu posso dizer é que, perante novos desafios, e surgiram novos desafios, ao longo destes dez anos, e vão surgir, e estão a surgir, e vão surgir para os próximos dez, 15, 20 anos, as respostas têm de ser, em muitos casos, diferentes”, sublinhou, identificando, no púlpito, uma solução que, acredita Marcelo, deve servir, pelo menos, aos católicos: o amor.
“Parece ser não só o desafio de Leão XIV, como de todos nós, viandantes neste mundo do terreno”, vincou.
D. Manuel Clemente. “Pessoa atacada pode defender-se, mas não é destruir o outro”
Também a participar na sessão de apresentação do livro "Pensar a Constituição à Luz da Doutrina Social da Igreja", o cardeal e patriarca emérito de Lisboa, D. Manuel Clemente, começou por dar as boas-vindas ao colega de painel. “Agora também já pertence ao clube dos eméritos, professor Marcelo”, cumprimentou, entre risos.
Numa declaração mais teórica e com pendor para a história teológica e da Igreja, D. Manuel Clemente passou em revista conceitos como a “dignidade humana” e o “bem comum”. Mais tarde, e já em declarações aos jornalistas, aproveitou para se colocar ao lado das reflexões do antigo chefe do Estado.
“[Uma pessoa] é atacada tem o direito de se defender, mas não é destruir quem o ataca. Agora, em relação às sociedades, igualmente: tem de se ver se há realmente um perigo, se é um perigo que não se pode afastar de outra maneira e que a resposta seja proporcional”, apelou. “Se isso não é tido em conta, depois entramos num beco sem saída e da guerra só sai guerra”.
Colocando os conflitos no Médio Oriente e da Ucrânia no mesmo saco, o patriarca emérito de Lisboa diz que o importante não é distribuir culpas ou vitórias, mas compreender que as consequências da guerra propagam-se cada vez mais rapidamente e com efeitos em Portugal.
“Tudo é universal, tudo é global, tudo se espalha imediatamente, de consequências em consequências, como estamos a ver. Os problemas agora da energia, o aumento dos preços, a dificuldade das vidas, tudo isto é catastrófico. Acabe lá como acabe, depois ficam nas suas consequências e muitas vezes são coisas ainda mais graves no futuro”, considera.













