Política

Críticas de Passos mostram o que está a correr mal no Governo e podem "fragilizar" liderança de Montenegro

30 mai, 2026 - 08:00 • Manuela Pires

Os militantes do PSD vão reeleger este sábado Luis Montenegro para um terceiro mandato, numa altura em que Passos Coelho volta a criticar a falta de ritmo nas reformas e e os políticos “postiços” que são como “prostitutos sem carácter”. Cientista política analisa o atual momento do PSD e da governação.

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Luís Montenegro marcou as eleições diretas no PSD, no início de março, quando o partido escutava, a par e passo, o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho criticar a falta de reformas estruturais e avisar que o Governo não podia perder a oportunidade histórica de fazer mudanças.

O líder do partido nunca falou no nome de Passos Coelho, mas desafiou o antigo líder a ir a jogo. “Se houver um caminho alternativo e diferente que seja apresentado e que seja objeto da apreciação do Partido, dos seus órgãos e dos militantes”, disse Montenegro.

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Em declarações à Renascença, Paula Espírito Santo, professora de Ciência Política do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, entende que as críticas de Passos Coelho apontam para o que está a correr pior na área da governação e isso pode fragilizar o reforço da liderança de Montenegro.

“Não se pode dizer que estas intervenções não tenham qualquer tipo de influência interna, quanto mais não seja desencadear uma atenção sobre aspetos que são críticos do ponto de vista das políticas públicas, da governação, da capacidade de ação governativa, e estes são aspetos que podem fragilizar o reforço da liderança", defende a politóloga.

Paula Espírito Santo entende que Passos Coelho mantém, apesar destas intervenções, uma postura “de equidistância relativamente à política”, e está apenas a usar o direito a exprimir a sua liberdade de pensamento.

“Não me parece que neste momento possa haver algum tipo de aspiração de política ativa, de governação, que esteja num horizonte a breve trecho, mas a política também é bastante imprevisível”, diz a politóloga à Renascença.

Não se pode dizer que estas intervenções não tenham qualquer tipo de influência interna, quanto mais não seja desencadear uma atenção sobre aspetos que são críticos do ponto de vista das políticas públicas, da governação

Ainda esta semana, o antigo primeiro-ministro participou no lançamento de um livro sobre a Constituição e desta vez a sessão foi aberta aos jornalistas. Na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Passos Coelho apareceu ao lado de André Ventura e disse ao líder do Chega que “isto precisava de ganhar mais um bocadinho de ritmo porque as pessoas estão a ficar impacientes”.

Paula Espírito Santos diz que Passos Coelho já percebeu que tem apoios à direita e até na extrema-direita, mas garante que não é esse o caminho que ele quer percorrer.

Não me parece que [Passos Coelho] queira fazer algum uso desses possíveis apoios. O que ele faz neste momento é continuar uma vida e uma atividade de reflexão, sobretudo ligada à academia, aos livros, à literatura”, refere.

Quatro anos depois de ter ganho as eleições no PSD a Jorge Moreira da Silva, Luís Montenegro é agora o primeiro-ministro, “atingiu o grande objetivo que é governar” e por isso, acrescenta a professora de ciência política “pode dizer-se que é um líder forte, porque é primeiro-ministro”.

Paula Espírito Santo refere que Montenegro está a marcar a sua liderança com várias referências ao passado vitorioso do PSD, como a sigla da coligação, AD, ou o slogan de Cavaco Silva, “Deixa o Luis trabalhar” ou ainda “ Portugal maior”.

“Ele tem seguido aqui um figurino do passado, até pela própria designação da coligação que leva às eleições, a AD , ou por exemplo a identificação com a própria figura de Cavaco Silva, não só com o slogan Portugal Maior, ou por exemplo Deixem-me Trabalhar ou Deixem Luís Trabalhar, que são frases que Cavaco Silva utilizava”, diz.

Montenegro enfrenta a oposição precisamente que vem do seu próprio partido e de figuras que continuam a marcar a agenda política como é o caso de Passos Coelho

A professora de Ciência Política do ISCSP entende esta aproximação do líder do PSD a Cavaco Silva também como uma forma de Luís Montenegro dizer que tem um projeto maior para o país apesar de todas as dificuldades que são normais na governação.

“Montenegro quer transmitir a mensagem de que vai continuando a fazer o seu trabalho, mesmo com críticas, quer internas quer as críticas normais da oposição, e que nada o vai desviar desse caminho, ou desencadear aqui qualquer outro tipo de projeto alternativo”.

“Luís Montenegro está a procurar clarificar o caminho, quer do ponto de vista interno, quer do ponto de vista também daquilo que são as opções que a oposição tem para apresentar, e trazendo também sempre a público que se está a fazer um caminho que não é fácil”, refere a politóloga, lembrando que, para além dos partidos da oposição, o líder do PSD tem agora que enfrentar “a oposição precisamente que vem do seu próprio partido e de figuras que continuam a marcar a agenda política como é o caso de Passos Coelho”.

Na apresentação da candidatura, Luís Montenegro pediu à oposição, ao Chega e PS para serem responsáveis e estarem disponíveis para aprovar as reformas do governo, avisando que os dois partidos prometeram, durante a campanha eleitoral, promover a estabilidade política.

Na opinião de Paula Espírito Santo, o primeiro-ministro sabe que a relação de forças no Parlamento não é fácil, mas sabe também que quem for o responsável pela instabilidade vai ser penalizado nas eleições.

“Creio que é talvez essa a grande mensagem, é o deixar trabalhar, porque sabe que a oposição também está, de alguma forma, comprometida com a viabilização de uma legislatura até ao final, precisamente por isso, porque a história tem demonstrado que sempre que se interrompe uma legislatura, ou quase sempre, o que vai significar é um reforço de quem está a governar”, conclui Paula Espírito Santo.

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