10 DE JUNHO
Seguro e o desafio de preparar o país para um futuro de escolhas. Dos Açores para a América ou Europa?
09 jun, 2026 - 06:30 • Susana Madureira Martins
Arrancam, esta terça-feira, na ilha Terceira, as comemorações do 10 de Junho com a presença do Presidente da República e do primeiro-ministro. O presidente da comissão organizadora, Miguel Monjardino, vem alertando que as mais altas autoridades do país têm de posicionar-se sobre o “futuro coletivo”, admitindo que “vamos ter de fazer uma escolha difícil” entre o que é prioritário: a América ou a Europa?
“Quais são as nossas prioridades estratégicas?”. A pergunta foi feita por Miguel Monjardino numa entrevista de fundo à Renascença dias antes de o analista e professor da Universidade Católica ser indicado pelo Presidente da República para liderar a comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal.
Nessa entrevista, Monjardino desafiava mesmo as mais altas figuras do Estado a prepararem um discurso sobre o posicionamento de Portugal perante a "nova época histórica" ou a “grande ruptura”, como lhe chama o analista no seu mais recente livro.
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Monjardino pede intervenções do Presidente da República e do primeiro-ministro sobre uma nova ordem mundial como as do chanceler alemão Friederich Merz, em Munique, ou do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, em Davos.
O mesmo Monjardino voltou a dizê-lo este domingo, já como presidente da comissão organizadora do 10 de Junho, numa intervenção no Luxemburgo, perante António José Seguro e Luís Montenegro.
“Esta não é a altura para alimentarmos ilusões sobre o nosso futuro coletivo. Por isso, é tempo de nos prepararmos devidamente e com confiança para este facto e para o futuro que mais nos interessa”, disse o analista que vive nos Açores, precisamente a região escolhida por Seguro para as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Entrevista a Miguel Monjardino
"Precisamos de um discurso do próximo Presidente sobre o que Portugal deve fazer nesta nova época da História"
A poucos dias da tomada de posse do novo President(...)
Reconhecidamente cauteloso nas palavras e atos, estará o atual Presidente da República em condições de levantar a questão sobre a primeira prioridade do país? A América? A Europa? O facto de ter escolhido Miguel Monjardino, e sabendo o que este defende e basicamente aconselhou a cúpula política do país a fazer, pode ser um indicador do que poderá ser a intervenção de fundo de Seguro na ilha Terceira no 10 de Junho.
Em janeiro, na reta final do debate da rádio, ainda como candidato a Belém, António José Seguro foi especialmente cauteloso sobre a relação de Portugal com os Estados Unidos da América. “Acredito ser necessário distinguir entre a nossa colaboração com os Estados Unidos e o nosso relacionamento atual com o presidente americano, Donald Trump. São coisas diferentes”, começou por dizer Seguro.
Questionado sobre a necessidade ou não de rever o acordo sobre a base das Lajes, à luz do que foi a sua utilização na guerra da América com o Irão, Seguro assumiu que o texto “precisa de ser revisto, não porque haja algum problema, mas porque precisa de ser atualizado”, insistindo que essa a atualização “deve ser vista à luz da nova geopolítica global e das relações transatlânticas que mantemos e devemos manter com os Estados Unidos”.
Ou seja, Seguro defende que a relação com a América deve manter-se, apesar de uma “nova geopolítica global”. A questão, levantada por Monjardino, é em que prioridade entra essa relação transatlântica, assumindo, ainda na entrevista já citada, que o país vai ter de “fazer uma escolha difícil”.
A centralidade a partir dos Açores…e das Lajes
Na nota da Presidência da República em que Seguro anunciou que a Terceira seria o palco das comemorações do 10 de Junho, o aniversário dos 50 anos das autonomias surgiu como a justificação para a escolha dos Açores. Uma opção cimentada pela deslocação do Presidente à Madeira no dia 12 deste mês.
Ainda nessa nota, o chefe de Estado salientou a “importância histórica, política e cultural das regiões autónomas na construção de um Portugal mais coeso, plural e solidário, reforçando simultaneamente os valores da unidade nacional e da coesão territorial”.
O facto de esse reforço dos “valores da unidade nacional e da coesão territorial" ser celebrado na ilha Terceira, onde está sediada a base das Lajes não surge inocente, pelo menos à luz do que também diz Monjardino na já citada entrevista à Renascença.
O analista assume que Portugal terá de ponderar uma “participação ativa em missões militares de vigilância” nas Lajes, numa altura em que os Estados Unidos começam a reduzir o dispositivo militar na Europa, não se sabendo, para já, que intenções tem a administração norte-americana em relação ao contingente da base militar nos Açores.
“Os Açores são um enorme ativo para o país, e convinha que não fossem uma enorme vulnerabilidade. Ou seja, o país tem de investir, o Estado tem de estar presente nos Açores”, defende o presidente da Comissão das Comemorações do 10 de Junho.
É dessa necessária centralidade que fala também o antigo presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César. Em declarações à Renascença, o ex-líder açoriano reconhece que Seguro “desejou, no atual contexto global, realçar a importância do País e dos Açores na relação e no espaço transatlântico e da gestão oceânica”.
César não tem dúvidas que o Presidente da República deu um “sinal às autoridades internacionais, aos Estados Unidos da América por um lado e à UE por outro”, numa altura em que, acrescenta, a Europa “ameaça abrandar o apoio que tem dado às regiões ultraperiféricas”.
Notando que não é a primeira vez que o dia de Portugal é celebrado nos Açores, referindo-se às celebrações de 2018 na ilha de São Miguel, César considera que “esta é, sem dúvida, uma boa altura para voltar a fazê-lo”.
No mesmo sentido vai o atual presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, que, em declarações à Renascença, defende a escolha de Seguro pela ilha Terceira como “oportuna”, sobretudo numa fase em que “uma parte do investimento público deve ser desenvolvido por razões de desenvolvimento e crescimento económicos, mas também por razões de Segurança e Defesa”.
Bolieiro segue, assim, na senda de Monjardino sobre a necessidade de o Estado central não perder de vista a importância dos Açores no atual contexto internacional. Mas mesmo com uma velha ordem que acabou e que, aparentemente “não volta”, como defende o primeiro-ministro canadiano, o líder regional é especialmente sensível ao amigo americano.
A escolha de Seguro é, para Bolieiro, “uma referência do universalismo dos Açores e de Portugal e da ligação dos compromissos que Portugal tem historicamente com os seus aliados pela paz e, sobretudo, por uma referência de um relacionamento também bilateral com os Estados Unidos”.
A “fase de transição”, segundo Rangel
Por razões óbvias, o Governo gere com pinças a relação de Portugal com os Estados Unidos da América, precisamente por uma falta de definição sobre o que é a nova ordem internacional, dando como certo que “já não temos a ordem anterior”, admite o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.
“Estamos numa fase de transição em que nós já não temos a ordem anterior, mas ainda não temos uma nova ordem. Nem sabemos até se não estaremos numa espécie de momento caleidoscópico em que tudo muda a todo o tempo. Talvez tenhamos de ter muito mais uma estratégia de adaptação permanente do que uma estratégia completamente fixa ou rígida. É cedo para dar uma linha absolutamente definitiva sobre qual deve ser o nosso rumo geopolítico no futuro, porque esta equação está em formação”, disse Rangel, em março, no programa Escala Global, da Renascença.
O ministro dos Negócios Estrangeiros concorda que a relação com os EUA é uma “constante da nossa política” e uma “âncora fora da Europa”. Ainda assim, não ignora que o panorama mudou com Donald Trump – e, embora não esteja “preocupado” com eventuais ambições norte-americanas em anexar os Açores como aconteceu com a Gronelândia, Paulo Rangel admite que o cenário habitual exige mudanças de posição.
Como Miguel Monjardino já disse em entrevista à Renascença, a adaptação à “nova época” tem de ser feita “negociando um contrato político com os Estados Unidos, a nível euro-atlântico, que nos dê de 5 a 10 anos, para fazermos o ajustamento a nível europeu”. O problema é que a América está a “acelerar o calendário” e a administração Trump “está a dizer-nos que temos um a dois anos” para o ajustamento.
Se já é simplista perguntar a uma criança se gosta mais do papá ou da mamã ou um adulto jogar ao “Preferias”, conclui-se como altamente arriscado fazer uma escolha instantânea sobre os aliados prioritários, independentemente da administração americana ou dos líderes europeus com que Portugal for obrigado a lidar. “Portanto, vamos ter de fazer uma escolha difícil”, como admite, mais uma vez, Miguel Monjardino.






