CONGRESSO DO LIVRE

Rui Tavares desvaloriza críticos: "Contaram zero" para mudanças na direção do Livre

08 jul, 2026 - 22:26 • Susana Madureira Martins

A dois dias do Congresso de Sintra, o ainda co-porta-voz do Livre deixa o cargo, mas garante, em entrevista à Renascença, que não conta “deixar de ser uma voz”. Rui Tavares renova o apelo que fez há um ano ao primeiro-ministro para que encete rapidamente negociações com todos os partidos sobre o Orçamento do Estado e não se limite a aproximações com o Chega.

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Rui Tavares desvaloriza críticos: “Contaram zero” para mudanças na direção do Livre

Rui Tavares não será recandidato a co-porta-voz do Livre, mas reconhece que, se a sua lista ganhar o congresso de Sintra, se mantém na equipa da direção com o pelouro da estratégia, comunicação e formação. "Continuarei a fazer parte dessa liderança", justifica o fundador do partido.

Questionado se as mudanças, com trocas de porta-vozes, foram feitas à boleia das críticas internas sobre o centralismo em Tavares, o fundador do Livre garante que “contaram zero” para a estratégia que a atual direção leva a votos no congresso que arranca esta sexta-feira.

Em entrevista à Renascença, Tavares defende que a atual direção tem uma estratégia e que “não é por acaso que o Livre é o único partido de esquerda que cresceu quando todos os outros entraram numa profundíssima crise”.

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Não será recandidato a porta-voz do Livre, mas há críticos internos, como Patrícia Robalo, que é vereadora em Lisboa, que dizem que esta substituição por Jorge Pinto não lhe tira liderança no partido, e que é, estou a citar, uma dança de cadeiras fictícia. Como é que responde a estas críticas?

Aquilo em que pensamos quando decidimos estrategicamente no Livre é, em primeiro lugar, no país e na resposta que é preciso dar ao país a partir do Livre. Creio que já toda a gente terá reparado que a política portuguesa se encontra no seu pior momento desde o período democrático, uma política que é agressiva, muitas vezes egoísta, muitas vezes malcriada, a gente encontra pessoas na rua que nos vêm dizer que o que se passa no Parlamento é uma vergonha e, infelizmente, muitas vezes temos que lhes dar razão e dizer que lá dentro, visto de perto, é pior ainda. Portugal está, neste momento, num período de limbo constitucional.

Há um projeto de revisão constitucional entregue pelo Chega, que no prazo de um mês, como manda a Constituição, deveria ter tido prazo para os outros partidos também enviarem os seus projetos de revisão constitucional e dar início a um processo de revisão ou então acabar com ele. O que é extraordinário é que o Chega e o PSD se entenderam para nos deixar completamente no limbo e, infelizmente, aqui com a cumplicidade ativa do Presidente da Assembleia da República, temos a revisão da Constituição como moeda de troca para passagem de orçamentos, código laboral, leis da nacionalidade, leis das bandeirinhas que o CDS inventa e que depois passam ou não passam pelo Presidente da República, no fundo a ser usado como chantagem. Isto, por exemplo, é uma coisa relativamente discreta, não está sob os holofotes, mas é um sintoma de uma doença que a política portuguesa está a passar.

Rejeita então que estas mudanças na direção do Livre sejam uma resposta aos críticos internos?

As críticas são sempre de respeitar e, portanto, não quero desrespeitar crítica nenhuma dizendo que contaram zero para este tipo de leitura estratégica, mas a verdade é que contaram zero para este tipo de leitura estratégica, não é com base em críticas internas, que ainda por cima nós poderíamos estar aqui a gastar algum do nosso tempo a ir uma por uma, mas que não fazem sentido absolutamente nenhum, quando temos o país na situação em que está. O que é preciso é ter uma estratégia para responder a isto e isso o Livre tem, nós temos. Não é por acaso que o Livre é o único partido de esquerda que cresceu quando todos os outros entraram numa profundíssima crise.

Crescer eleitoralmente é a melhor resposta às críticas internas?

Não, as críticas internas são lidadas no plano interno, sempre com respeito, com cordialidade, com diálogo, conquanto elas também tenham alguma honestidade intelectual e façam um sentido, porque nós não podemos dizer ao mesmo tempo que nada muda e que muda demasiado e que foram surpreendidos pela mudança. Quando se tem uma visão estratégica para o país e o Livre tem e é essa que comanda depois as decisões que tomamos, nós sabemos que não vamos conseguir derrotar a extrema-direita, ajudar a salvar a política portuguesa do buraco em que ela se encontra e dar aos portugueses uma alternativa sem ter um alargamento e uma multiplicação de protagonismos e de lideranças. É por isso que as críticas ao mesmo tempo não fazem sentido e o sentido de liderança é diferente do sentido de líder. Líder é um título, é um cargo, se calhar há pessoas muito obcecadas com os títulos e com os cargos. Liderança é outra coisa, é uma qualidade de conseguir marcar agenda através das ideias, através da voz, através da sensatez daquilo que se diz. E aí, desse ponto de vista, talvez até seja verdade, eu não conto deixar de ser uma voz no debate público em Portugal e creio que, para lá até do campo partidário, o próprio campo progressista, precisa de lideranças políticas morais, uma vez que houve uma mudança de gerações e há um espaço vazio que está por ocupar. E isso não é incompatível, antes pelo contrário, é reforçado pelo facto de gente como a Isabel Mendes Lopes, que, infelizmente, críticas como essas deixam fora da equação, no que até considero que é, de certa forma, bastante indelicado para com alguém que é líder parlamentar e é, provavelmente, a pessoa programaticamente mais importante no Livre. A liderança do Livre tem essa estabilidade, a Isabel era e continua a ser co-porta-voz e eu mudo de funções dentro da equipa, porque, na verdade, sempre foi uma questão de equipa a liderança do Livre.

Mantém uma espécie de liderança moral?

A liderança tem a ver com a capacidade de participar no debate e dizer coisas que as pessoas compreendam e de que as pessoas gostem e que mobilizem as pessoas. O Jorge Pinto surge como número dois na lista, é candidato a co-porta-voz, já tendo dado mais do que provas, que para aquela função específica ele tem todas as qualidades, porque é alguém que tem uma capacidade comunicacional que é muito boa, é alguém que tem também provas dadas do ponto de vista técnico, do ponto de vista da sua história de vida e da dedicação ao partido. A Isabel e o Jorge estavam na direção do partido, eu não estava na direção do partido na altura, em que foi preciso salvar e viabilizar o Livre. Nós não estaríamos onde estamos se não tivéssemos tido o contributo da Isabel Mendes Lopes, do Jorge Pinto e de muitos outros camaradas numa altura em que eu nem sequer estava na direção. É assim que temos que conviver, com naturalidade. Nós não vamos, certamente, competir com o Chega pelos maiores financiadores do país, porque esses estão todos a dar imenso dinheiro ao Chega. Não vamos competir pela atenção dos diretores de informação das televisões, que essa aí tem André Ventura. Então o que é que nós podemos fazer? Nós podemos, em primeiro lugar, preparar-nos bem para governar o país. Isso é algo que um partido pode decidir fazer por si mesmo. Estudar, trabalhar, ouvir pessoas, alargar o âmbito da sua ação. Esse é o primeiro plano. Segundo plano, podemos dar ao país uma nova geração de lideranças, que são aquelas que vão entusiasmar e mobilizar as pessoas e que as pessoas se vão habituar a respeitar porque trazem uma voz que não é nem da agressividade, nem da má educação, nem da exclusão, mas antes uma voz que é da união das pessoas e que há de fazer comunidade no país.

E é plausível a ideia de manter-se na sombra da liderança para depois surgir como o protagonista do Livre numas futuras eleições legislativas?

Nós estamos a escolher órgãos. É importante que as pessoas entendam que são dois planos muito diferentes. Nós estamos a escolher os órgãos do partido e o órgão do partido a que me candidato, de cuja composição faço parte. Estou na liderança do Livre, no mesmo sentido em que outras 15 pessoas, incluindo de listas minoritárias, também estão. O Grupo de Contacto, no caso do Livre, é eleito proporcionalmente, com um sistema de Hondt e até listas minoritárias fazem parte dele. Portanto, essa é a liderança executiva do Livre. Eu faço parte dela e, caso os membros e apoiantes do Livre assim o decidam, e espero que sim, continuarei a fazer parte dessa liderança, isso não muda, estarei noutras funções. O Jorge Pinto, que também não era co-porta-voz até hoje, fazia parte dessa liderança. A Patrícia Robalo até hoje, embora esteja a falar em nome da sua lista, fazia parte dessa liderança e ainda tinha mais um mandato se quisesse continuar. Portanto, todos fazemos parte dessa liderança. Isso é distinto no Livre das escolhas de candidatos a eleições, que são feitas por eleições primárias. Nós não sabemos que eleições virão primeiro. Se tudo correr normalmente, as eleições legislativas serão apenas em 2029, num ano, aliás, muito intenso do ponto de vista eleitoral. Se houver eleições antecipadas podem ser noutra altura e o que é importante do ponto de vista da nossa candidatura é ter o Livre preparado para aproveitar bem a capacidade de crescer durante estes anos em que, em princípio, não vai haver eleições. O Livre está preparado para a eventualidade de haver umas eleições antecipadas e aí , que eu posso dizer em relação a candidaturas,é que, certamente, não teremos falta de opções, a começar precisamente pela Isabel Mendes Lopes, o Jorge Pinto e todas as pessoas que participarem nas primárias. Eu conto cumprir, a não ser que haja algum problema familiar ou de saúde ou uma coisa assim do género, com o meu mandato até ao fim como sempre o fiz e conto dar o meu contributo para o país e o partido. Já me perguntaram sobre uma candidatura às europeias, legislativas, aqui há uns meses perguntavam presidenciais, nunca me perguntaram a Câmara Municipal de Lisboa, que era certamente uma coisa que eu gostaria muito de fazer, e já fui vereador, embora na oposição. Essa questão não se coloca agora, ela é extemporânea, até é um pouco disparatada tendo em conta aquilo que estamos a discutir, porque não temos falta de opções de qualidade.

Há menos de um ano, pediu ao primeiro-ministro que falasse com todos os partidos sobre o Orçamento do Estado e que não se limitasse a falar com o Chega. O Rui Tavares faz o mesmo pedido, agora que entramos naquela fase do ano em que se começa a falar do Orçamento ou não faz sentido?

Continuo a fazer, o que disse quando o Luís Montenegro foi primeiro-ministro pela primeira vez, é que estávamos em face de um Parlamento com três blocos. Há o campo progressista, o campo da esquerda, há a direita tradicional, que eu chamo a direita democrática e depois há a extrema-direita. Na altura isto não caiu muito bem, mas hoje quem é que está o tempo todo a falar dos três blocos? Luís Montenegro. O

primeiro-ministro designa-os de outra maneira, apresenta-se como sendo o centro e depois diz o lado da esquerda, o lado da direita, mas é ele que fala disso. Mas não tirou as conclusões. As conclusões que haveria a tirar é que ele tem de escolher um campo. Não pode estar o tempo todo a governar com a extrema-direita e depois vir apresentar a fatura, nomeadamente ao PS e dizer ‘agora aprovem o Orçamento para eu governar mais um ano’. E não pode fazê-lo, nomeadamente, quando se prepara para fazer uma revisão constitucional com o Chega. Eu pergunto, então Luís Montenegro vai dizer ao PS ‘aprovem o orçamento para eu a seguir dar cabo da Constituição de 76 com o Chega e a iniciativa liberal? E o PS vai aprovar o Orçamento para deixar que Luís Montenegro depois faça isso? Ou vamos ter um Luís Montenegro que, finalmente, depois de ter entendido que existem esses três campos destinos no Parlamento, tirar as devidas consequências? E aí entra de facto o desafio que eu fiz. Tudo isto são coisas que se pensam com tempo, que se pensam com visão, que se pensam com estratégia.

E já deviam estar a decorrer?

Já deviam estar a decorrer e é impossível pensá-las quando a negociação preferencial é com um André Ventura, que é um tipo absolutamente viciado em atenção de curto prazo, que não tem nenhuma visão para o país a médio e longo prazo, que não seja chegar ao poder e dar cabo de tudo pelo caminho e ser esse o parceiro a negocial de preferência de Luís Montenegro. Ora, nós temos enormes diferenças com Luís Montenegro, mas gostaríamos de chamar Luís Montenegro à razão.

A Constituição que nós temos é para preservar e reforçar, não é para deturpar e esvaziar com os inimigos, com aqueles que dizem que precisamos de três Salazares ou que os últimos 50 anos foram 50 anos de corrupção.

Agradeço a Rui Tavares, co-porta-voz do Livre que não se recandidata no congresso deste fim-de-semana…

Uma precisão, eu recandidato-me.

Não à liderança...

Nós somos uma lista e a minha candidatura sempre foi por lista. É para depois não ficar essa coisa que depois acaba por reverter em críticas que acho que são um bocadinho injustas. ‘Ah, mas afinal sai, mas fica, fica, mas sai, sai, mas sai, fica, mas...’ Eu estou na lista onde já fui candidato há dois anos, estou com funções diferentes daquelas que tinha há dois anos. Na verdade, houve uma troca de número 2 por número 3, o Jorge Pinto é o número 3 e está a número 2 agora, sim, cuja função será, se ganharmos, de co-porta-voz e eu numa função que também é de liderança, mas mais do domínio estratégico.

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