28 out, 2024 - 20:46 • Ângela Roque
O Sínodo dos Bispos terminou formalmente no Vaticano, mas a dinâmica de trabalho vai manter-se na Igreja. É essa a convicção do padre Tony Neves.
Em Roma, onde integra o governo geral dos missionários espiritanos, o sacerdote e jornalista acompanhou de perto os trabalhos da assembleia sinodal. Em declarações à Renascença, aplaude a decisão do Papa de valorizar as conclusões aprovadas pelo Sínodo como o documento final e mais importante, e considera positiva a criação de grupos de trabalho para continuar a analisar as questões mais polémicas, como o acesso das mulheres ao diaconado.
“Eu acho que houve sensibilidade em evitar fraturas precoces, e isso nota-se no facto de os temas mais fraturantes continuarem a ser aprofundados em comissões especializadas. Foram criadas 10 comissões para temas que implicam aprofundamento”, sublinha.
"Pode ter sido uma desilusão para alguns, mas para mim foi uma decisão de bom senso. Há que continuar a amadurecer os frutos e tal exige tempo, reflexão e oração. E o Papa prometeu não adiar infinitamente as decisões corajosas que é preciso tomar."
"Espero uma Igreja mais sinodal, em que as decisões são ponderadas por todos. Uma Igreja com um rosto mais feminino e mais laical"
Das conclusões do Sínodo, Tony Neves destaca a “coragem de continuar a enfrentar e aprofundar questões difíceis, algumas delas claramente fraturantes”, mas também "a abertura clara ao maior protagonismo dos leigos, particularmente das mulheres, na vida e na missão da Igreja, a todos os níveis, e a importância dada a uma melhor articulação dos processos de decisão, o que implica coisas complicadas como a transparência, a prestação de contas e a avaliação”, assinala.
Houve, no entanto, alguns pontos que receberam vot(...)
O missionário considera igualmente relevante “a obrigação dos dicastérios romanos fazerem amplas consultas antes de publicarem documentos importantes”. Destaca, ainda, o “reforço da cultura da proteção dos menores e adultos vulneráveis” e "tudo o que tem a ver com a Doutrina Social da Igreja, a dimensão ecuménica, o diálogo interreligioso e intercultural, a insistência na importância de documentos como a Laudato Si ou a Fratelli Tutti, o documento sobre fraternidade humana”.
O padre Tony Neves diz que o “diálogo” é a palavra-chave que sai reforçada deste Sínodo, e espera que todos saibam aproveitar o momento e as condições para construir uma Igreja mais aberta, acolhedora e inclusiva.
“Espero uma Igreja mais sinodal, em que as decisões são ponderadas por todos; uma Igreja com um rosto mais feminino e mais laical, um presbiterado com uma formação mais aberta e mais plural; uma Igreja mais credível, porque mais segura, e mais comprometida na busca da paz e da fraternidade através do diálogo, da oração, da reconciliação, pela justiça, pela partilha solidária. Finalmente, quero uma Igreja mais plural, que capitaliza a riqueza da diversidade de pessoas, povos e culturas que a compõem, por isso uma Igreja mais missionária”, sublinha ainda.
O Papa considera que o texto votado já inclui indi(...)
Dois portugueses acompanharam o processo por dentro, como assistentes de comunicação do Secretariado da Assembleia Sinodal. Um deles foi o padre Paulo Terroso. À Renascença, o responsável pelo departamento das Comunicações Sociais da Arquidiocese de Braga admite que ficou surpreendido com a decisão do Papa validar as conclusões finais como o documento do Sínodo, dispensando-se de fazer uma exortação pós-sinodal daqui a uns meses.
“Não consigo imaginar um gesto mais eloquente, mais significativo, de confirmação da fé, da validade e do valor deste processo que começou em 2021”, afirma, considerando que a decisão confirma a importância que Francisco dá à escuta de todos na Igreja, respeitando o que decidiram em conjunto, e mostrando que este é um caminho sem retorno.
“O Sínodo atingiu o objetivo a que se propôs. Creio que muitos esquecem isto, porque entretanto perderam-se noutras questões que emergiram durante o processo sinodal - que são legítimas e que estão a ser tratadas, com grupos de estudo, de que vamos ter notícias em 2025, portanto o caminho continua, é um ‘work in progress’. Agora, o objetivo fundamental a que se propôs este Sínodo desde 2021, e que é fundante para o futuro da Igreja neste milénio, foi atingido – há um método, um processo de discernimento eclesial para a missão, em que o Povo de Deus está no coração, no centro da sinodalidade”, afirma este responsável.
Para o sacerdote, que esteve presente nas duas sessões da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (2023 e 2024), “o maior fruto de todos" que sai deste processo "é a amizade do Senhor”, um “documento não escrito”, mas que constitui a “condição fundamental para sermos uma Igreja mais participativa, mais inclusiva, mais comunhão, que nos impulsiona para a missão”, sublinha.
"Vejo a Igreja num futuro próximo em ‘trabalho de parto’ e, naturalmente, com muitas dores. Mas ‘a aurora está próxima’"
“Eu vejo a Igreja num futuro próximo em ‘trabalho de parto’ e, naturalmente, com muitas dores. Mas, como também disse o padre Timothy Radcliffe no primeiro dia de retiro desta sessão, ‘a aurora está próxima’. Como Maria Madalena, receberemos mais do que procuramos se também nós estivermos abertos ao encontro com o Senhor”, sustenta ainda o padre Paulo Terroso.
Leopoldina Reis Simões, assessora de imprensa em Portugal, foi também assistente de comunicação no Sínodo. Vê na decisão do Papa um respeito muito grande por todos os que participaram no processo, e pelas conclusões a que chegaram.
“Quando o Papa diz que não haverá uma Exortação (pós-sinodal), porque este documento é um dom para todo o povo de Deus, por isso deve regressar a todo o povo de Deus, é como que um agradecimento, a meu ver, pelo trabalho que esta Assembleia fez durante um mês, e é a validação do mesmo documento”, argumenta.
Considera, ainda, que a decisão do Papa permite responder a dúvidas que pudessem surgir por parte dos bispos ou dos delegados sobre o que dizer quando regressassem aos seus países após o Sínodo. “As pessoas vão levar com elas o documento, o resultado dos trabalhos desde 2021. Portanto, acho que é um respeito muito grande pelo trabalho que foi feito por esta Assembleia e por todos aqueles que, ao longo destes anos, participaram, das mais variadas formas e dos mais diversos lugares do mundo, neste evento eclesial".
"Pensava-se, a certa altura, que o acesso das mulheres ao ministério diaconal ficasse fora do documento e ele entrou"
Nestas declarações à Renascença, Leopoldina Reis Simões destaca algumas das conclusões e sentidos de votação, a começar pelo papel das mulheres na vida da Igreja.
“Pensava-se, a certa altura, que o acesso das mulheres ao ministério diaconal ficasse fora do documento e ele entrou, embora a dizer que é uma questão que ainda permanece em aberto. Portanto, as mulheres que queriam que este ministério fosse imediatamente uma realidade terão de esperar mais tempo, mas entrou no documento como uma questão que tem de continuar a ser discernida”, sublinha.
“Este parágrafo foi o que teve maior número de votos contra: houve 258 positivos e 97 negativos. Começa por referir que o papel das mulheres é igual ao dos homens em termos de dignidade, e isto penso que foi consensual, não está aí o busílis da questão, estará nos votos negativos, nesta questão do ministério diaconal".
Os parágrafos que tiveram maior número de votos negativos foram sobre “a questão das competências decisórias dos bispos, a formação dos seminaristas, também a necessitar de ser mais estudada e de, eventualmente, ter algumas alterações”, indica ainda Leopoldina Reis Simões, que espera que o método de trabalho que o Papa escolheu para este Sínodo se mantenha agora na Igreja.
Para Francisco, “viver é estar sempre em movimento(...)
“Seria interessante, para o futuro da Igreja, se se conseguisse prolongar a imagem da Assembleia deste mês, e também a do ano passado", em que se criaram "laços de amizade, de entendimento. O que não quer dizer que todos estivessem sempre de acordo em todos os temas. Mas, haver este respeito, o ambiente de oração e a procura dos consensos é o que eu acho mais importante e o que devia marcar o futuro da Igreja".
O Papa Francisco sugeriu que as conclusões do Sínodo, aprovadas no fim de semana, sirvam de guia para as comunidades católicas, e prometeu celeridade na análise dos temas que estão a ser trabalhados em 10 grupos à parte.
Para o jornalista Rui Saraiva, coordenador da Rede Sinodal em Portugal, a decisão de Francisco, de não fazer uma Exortação depois do Sínodo, validando como documento final o que foi aprovado, mostra que valoriza o trabalho feito até aqui.
“O Papa sublinhou que no documento há já indicações muito concretas que podem servir de guia no trabalho nas igrejas locais. Ou seja, o documento final é guia para o caminho sinodal a fazer a partir de agora. Creio que foi, da parte do Papa Francisco, uma valorização do trabalho feito nestes três anos, e sobretudo nestas duas sessões, em Roma", afirma à Renascença.
Para Rui Saraiva, não há como não querer ir ao encontro do desejo do Papa e fazer cumprir o que se decidiu no Sínodo. A Rede Sinodal em Portugal vai ajudar a divulgar e a aplicar essas conclusões. “Eu espero que se abra agora um novo tempo, com a receção das conclusões nas dioceses, e que seja um tempo para cumprirmos o que pediu o Papa, de não ficarmos apenas pela leitura e reflexão do documento final, mas que, com uma reforçada criatividade, seja possível difundir a dinâmica sinodal. E a Rede Sinodal em Portugal está disponível para participar nesta fase, que o próprio presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, disse ser uma fase decisiva".
O Sínodo sobre a Sinodalidade teve início em 2021 e implicou uma auscultação por fases aos católicos do mundo inteiro. O processo teve duas assembleias, uma em outubro de 2023 e outra em outubro de 2024, e que encerrou este fim de semana. Contou com a participação de leigos, homens e mulheres, que pela primeira vez tiveram direito a voto.
Alguns temas onde não houve consenso – como o acesso das mulheres ao diaconado ou a ordenação de homens casados – vão continuar a ser analisados nos grupos de trabalho entretanto criados, por exigirem mais reflexão e por implicarem mudanças a nível canónico. São esperados desenvolvimentos em 2025.