Cardeal Filoni à Renascença

"Cristãos na Terra Santa têm direito a permanecer nas suas casas e precisam de apoio para subsistir"

20 nov, 2024 - 06:00 • Aura Miguel

Colaborador do Papa e grão-mestre da Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém, que passou o último Natal na Terra Santa, apela à coragem para se pôr fim ao ódio e apostar num diálogo justo e respeitador que permita a todos permanecer naqueles territórios assolados pela guerra entre Israel e o Hamas.

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“É preciso renunciar ao ódio e pensar que a guerra é a solução”. O alerta é do cardeal Fernando Filoni, atual grão-mestre da Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém. De passagem por Portugal, o cardeal italiano manifestou, numa entrevista exclusiva à Renascença, as suas preocupações pelo futuro das comunidades cristãs afetadas pela guerra.

O colaborador do Papa e antigo núncio apostólico no Iraque, que passou o último Natal na Terra Santa, apela à coragem para se pôr fim ao ódio e apostar num diálogo justo e respeitador que permita a todos permanecer naqueles territórios. E, mesmo apesar dos conflitos, incentiva o recomeço das peregrinações aqueles lugares santos.

Qual é hoje a situação dos cristãos na Terra Santa?

É a situação de uma pequena realidade, os cristãos são uma Igreja inserida no meio da imensa presença de israelitas, de judeus e de muçulmanos. Somos uma pequena realidade, mas temos um papel, temos uma missão que não é nem política, nem económica, nem de outro aspeto, senão o de ser instrumento de paz neste lugar querido a todos os cristãos, a Terra de Jesus, onde Ele, naquele tempo, também estava em minoria e foi pregando o Evangelho, que é um Evangelho de paz. Como cristãos, somos portadores da mesma mensagem de Jesus. E, portanto, apesar de sermos uma realidade pequena, temos um grande papel a cumprir.

O que mais o preocupa?

Neste momento, a preocupação vai para as famílias cristãs, devido ao desemprego e às dificuldades de segurança que têm porque a maioria dos cristãos são palestinianos. Portanto, é uma situação de dificuldade, porque muitos trabalhavam em Israel, com empregos no setor público ou privado.

Muitos deles deixaram a região, outros não encontram possibilidade de trabalho e continuam no desemprego. Quem ajuda essas famílias? É uma preocupação que temos e queremos ajudar. Um dos programas do Patriarcado de Jerusalém é criar postos de trabalho para essas famílias, porque muitas delas vão embora por não terem outra possibilidade. Penso que a paz, a segurança, mas também um trabalho são o mais essencial para a vida das famílias.

Sabemos como o Papa Francisco insiste muito no diálogo e nas negociações, mas as feridas são muitas. Na sua perspetiva, qual seria a solução?

O diálogo é essencial. Não podemos pensar que a guerra é a solução, que o ódio é a solução, que o contraste entre as partes são a solução. Portanto, o diálogo é necessário, mas temos que acreditar no diálogo e acreditar que é possível encontrar soluções. É preciso renunciar ao ódio, renunciar a pensar que a guerra é a solução. Isto é um aspeto essencial.

O Santo Padre fala muito da paz, mas a paz tem que estar junto à justiça. O diálogo tem que ser um diálogo justo e respeitador das partes, dos direitos de todos a viverem naquele lugar, não somente os de Israel, os palestinianos, mas para todos. Os que se encontram na Terra Santa têm esse direito porque faz parte da história, da tradição, da vida poder viver nesse lugar, que é sempre um lugar de acolhimento.

Passou as últimas festas do Natal e o Ano Novo na Terra Santa. Como foi a experiência?

Fui com uma pequena delegação da Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém. Tomámos esta opção para declarar que a guerra não é uma solução. Fomos lá para dizer que a falta de peregrinações não é bom, porque não vai ajudar a situação das famílias de cristãos que lá trabalham e dão apoio aos peregrinos e à realidade das viagens à Terra Santa.

Portanto, a nossa presença foi quase uma contestação contra os que fecharam as portas à entrada de peregrinos e aos que alimentam o terror e pensam que a guerra tem a última palavra. Não, a guerra não nos vai aterrorizar, a guerra é algo que não aceitamos.

Portanto, incentiva e convida os cristãos a irem à Terra Santa, mesmo assim?

Eu disse aos nossos membros que talvez não seja possível fazer grandes peregrinações, mas mais pequenas, sim. Posso assegurar que a nossa presença não teve problemas. Desde então, algumas peregrinações já começaram, mas o medo e as informações ainda bloqueiam muitos. É preciso retomar um pouco de coragem.

O seu percurso ao serviço da Santa Sé incluiu missões difíceis em locais de conflito, nomeadamente no Iraque, durante o regime de Saddam Hussein. Sabemos que viveu essa missão com bombas a cair. Como foi a experiência?

A experiência diplomática da Santa Sé não é diplomática, no sentido tradicional, em que temos de tratar questões políticas, económicas, financeiras ou militares. A missão do representante da Santa Sé é pela paz, é estar junto dos povos, ajudar as comunidades cristãs a permanecer como comunidades que fazem parte de toda a Igreja, ainda que sejam pequenas ou passem por dificuldades.

Por isso, é uma missão pastoral. É uma visão que já o Papa Paulo VI tinha dado aos diplomatas depois do Concílio. A nossa presença é uma presença que deve ser fecunda de paz, de compreensão recíproca, de fraternidade e de desenvolvimento para todos. Uma presença cristã inserida naquele contexto político-social, que é o país onde nós ficamos. Essa foi também a minha visão: num momento em que se encontravam países em guerra ou em dificuldades, nós, como bispos, temos que estar lá. Os nossos cristãos ficaram muitos gratos.

No Médio Oriente e noutras partes do mundo, os cristãos estão, muitas vezes, em minoria e sofrem pelo facto de serem cristãos. Mas ali a fé está mais viva, em contraste, talvez, com a Europa onde há facilidade de vida e onde a fé está um pouco adormecida. Como é que olha para o futuro da Igreja?

Posso falar da minha experiência. Quando fui para os países onde as comunidades cristãs são pequenas, encontrei mais comunhão entre eles, mais perceção da riqueza e da força da fé. Muitas vezes, quando os cristãos dizem que são maioria, isso já não acontece tão facilmente. Por isso, nas situações onde os cristãos estão em minoria, como dizia o Papa Bento XVI, a alegria da fé é mais evidente.

Que conselhos dá à Europa?

A Europa tem a sua história, a sua tradição. Nós estamos num período de mudança. Não nos devemos espantar por não vermos aquela quantidade que dantes, por tradição, por educação, ou por outras razões, enchia as nossas igrejas. Vamos olhar atentamente e vamos ver que Cristo é necessário nesta sociedade da Europa e que o Evangelho tem que ser pregado de modo a ser compreendido na Europa. É um aspeto que não é fácil porque estamos numa transição que, se considerarmos os números e as percentagens, podemos dizer “o que nos aconteceu?”. Posso dizer, no entanto, que encontrei muitas vezes pessoas que, aparentemente pareciam longe da Igreja, mas estão muito mais dentro do que eu mesmo.

Então, o que falta à Igreja?

A Igreja tem sempre um papel de conversão. É o Senhor que nos ensina: todos os dias somos chamados à conversão. Mas converter-se a quê? Não se trata de um papel ideológico, um papel sociológico, ou algo que eu possa escolher o que vou fazer, ou não. A nossa conversão é a união com Cristo. Este é o ponto crucial.

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