As encíclicas de Francisco e outros documentos-chave

21 mar, 2025 - 18:38 • Aura Miguel

Da denúncia de uma "economia que mata" à defesa da "ecologia integral”, o Papa marcou os últimos 12 anos com várias encíclicas e exortações apostólicas. Os documentos orientadores de Francisco tiveram eco bem para lá dos muros do Vaticano.

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“Laudato Si”, “Fratelli tutti” ” e “Dilexit nos”  são as grandes encíclicas de Francisco. A “Laudato Si”, sobre o cuidado da Casa Comum, foi publicada em 2015. Elogiada por especialistas ambientais, muitos definiram Francisco como “o Papa da ecologia integral”.

O tema mereceu sucessivos alertas ao longo do seu pontificado, teve destaque nas grandes cimeiras mundiais do clima e em vários discursos, visitas pastorais e encontros, como aconteceu em Lisboa com os estudantes da Universidade Católica portuguesa, em agosto de 2023.

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“Devemos reconhecer a urgência dramática de cuidar da casa comum. No entanto, isso não se pode fazer sem uma conversão do coração e uma mudança da visão antropológica subjacente à economia e à política”, disse aos jovens universitários.

E, contra as polarizações, Francisco bateu-se sempre por uma visão de conjunto: “Não esqueçais que necessitamos de uma ecologia integral, de escutar o sofrimento do planeta juntamente com o dos pobres; necessidade de colocar o drama da desertificação em paralelo com o dos refugiados; o tema das migrações a par da queda da natalidade”, disse durante aquele encontro.

Alguns meses depois, em outubro de 2023, preocupado com as alterações climáticas, Francisco escreveu a exortação apostólica "Laudate Deum", publicada no contexto da COP 28, a cimeira do clima que se realizou em dezembro, no Dubai. Por razões de saúde, Francisco acabaria por não participar, tendo sido substituído pelo cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano.

Um anseio mundial de fraternidade

Outro pilar importante deste pontificado foi a “Fratelli tutti”, sobre a fraternidade e amizade social. Publicada em 2020, esta encíclica surgiu na sequência da assinatura, em Abu Dhabi, do documento sobre a “Fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum”. O texto foi assinado solenemente pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã da Universidade de Al-Azhar, Al-Tayyeb.

Bergoglio apostou no diálogo com o Islão, não apenas com visitas aos Emirados mas também ao Egipto, Iraque e Bahrein.

Papa sobre encíclica. "Retirei inspiração de São Francisco de Assis, tal como na 'Laudato Si'"
Papa sobre encíclica. "Retirei inspiração de São Francisco de Assis, tal como na 'Laudato Si'"

“Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente”, explicou o próprio Francisco, em tempos de pandemia, num discurso aos cardeais da Cúria. “A providência quis, neste tempo difícil, que eu pudesse escrever "Fratelli Tutti”, encíclica dedicada ao tema da fraternidade e da amizade social”. E acrescentou: "Desejo, ardentemente, que neste tempo que nos é dado viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade. Entre todos.”

A importância do coração

“Amou-nos” (Dilexit nos) foi a última encíclica do Papa argentino, sobre o amor humano e divino no Coração de Jesus. Inteiramente dedicado à importância do coração na vida de cada um, na Igreja e no mundo, o documento alerta para a tentação da superficialidade, da vida apressada e do consumismo insaciável que nos afasta do sentido da existência”.

Francisco sublinhou que o coração é o lugar da sinceridade, “onde não se pode enganar ou dissimular” e que a Igreja também precisa desta devoção, “para não substituir o amor de Cristo por estruturas ultrapassadas, obsessões de outros tempos, adoração da própria mentalidade, fanatismos de todo o género que acabam por ocupar o lugar daquele amor gratuito de Deus que liberta, vivifica, alegra o coração e alimenta as comunidades”.

O pontificado de Bergoglio contou ainda com uma outra encíclica que, na verdade, foi escrita a quatro mãos. Publicada em junho de 2013, três meses depois da sua eleição, a “Lumen fidei” foi essencialmente preparada por Bento XVI e concluída por Francisco.

Evangelii e outros textos

O documento mais definidor do pontificado Bergoglio foi, no entanto, a exortação apostólica “Evangelii Gaudium” (A Alegria do Evangelho). Verdadeira carta programática, nela defendeu a reforma das estruturas eclesiais, a descentralização, a colegialidade dos episcopados, a sinodalidade e até a “conversão do papado”.

A “Evangelii Gaudium” condenou o clericalismo, valorizou a responsabilidade dos leigos e uma maior presença feminina na Igreja, incluindo em lugares de decisão, como viria a acontecer no próprio Vaticano. Foi neste documento que Francisco denunciou que “esta economia mata”, sempre que a lei do mais forte prevalece. E foi também neste texto que apontou os quatro critérios-chave que sempre o nortearam: “O tempo é superior ao espaço”, “A unidade prevalece sobre o conflito”, “A realidade é superior à ideia” e “O todo é maior do que a parte”.

O Papa argentino escreveu ainda outras exortações apostólicas. Destaque para a “Gaudete et exultate” (2018), onde se recorda que a santidade no mundo contemporâneo está ao alcance de todos os batizados, sem esquecer “os santos da porta ao lado”. Definidor deste pontificado foram também as exortações publicadas na sequência dos sínodos sobre o amor na família “Amoris laeticia” (2016), sobre os jovens “Christus vivit”(2019) e sobre a Amazónia “Querida Amazónia” (2020).

Para o Ano Santo de 2025, Francisco publicou a Bula “Spes non confundit” (A Esperança não engana), onde lamenta a “falta de paz” e pede uma atenção especial aos presos, desafiando as nações mais ricas a perdoarem as dívidas dos países mais pobres.

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