Renascença em Roma

"Gratos para sempre". Migrantes não esquecem o Papa que os resgatou à indiferença

02 mai, 2025 - 06:00 • André Rodrigues , enviado especial a Roma

Voluntários da Comunidade de Santo Egídio são a primeira linha de apoio aos migrantes e refugiados que chegam a Itália. Em 2021, Francisco trouxe um grupo de 50 pessoas de Chipre. "Foi um Papa nobre, sábio e gentil".

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Sentamo-nos frente a frente. Mohamed começa a contar a sua história. "Mataram o meu pai, quando eu tinha cinco anos. E a minha mãe pediu ajuda para eu sair do país". As duas frases sintetizam a vida deste jovem somali na casa dos 20 anos.

O pai foi morto, porque sempre recusou financiar a lutas dos extremistas do Estado Islâmico. Tentaram tomar-lhe as propriedades agrícolas da família, mas ele sempre resistiu. Acabou assassinado.

“Foi muito difícil para mim”, recorda este somali que ainda tem a mãe e mais três irmãos lá longe.

Hoje, a situação é mais calma, já não ameaçam a minha família… mas eu tenho sempre medo”, admite.

Quando lhe perguntam se quer regressar ao seu país de origem, Mohamed faz uma pausa. A resposta não é imediata. A concretização desse desejo depende do que o futuro trouxer: “quando for seguro, sim… quero ajudar a construir o futuro do meu país, quer ser uma pessoa bem-sucedida”.

Por agora, Mohamed vive o presente. Quer ser bem sucedido, que é o mesmo que dizer “um bom ser humano”.

Mohamed constrói-se um dia de cada vez. Chegou a Itália em 2023, via Chipre. E é um dos 3.500 alunos inscritos na Escola de Língua e Cultura de Itália da Comunidade de Santo Egídio.

Nos primeiros tempos depois de ter chegado, trabalhou num restaurante, “primeiro a lavar pratos, depois cheguei a chef de cozinha”.

Mas ter trabalho não foi suficiente para a integração plena. Faltava-lhe dominar o idioma. Ficou sem trabalho e foi estudar. “Não foi um passo atrás, foi o passo necessário”, admite.

Num dado momento da conversa, pergunto-lhe se posso filmar a entrevista, ou se posso tirar uma fotografia. “Vídeo? Fora de questão…”. Quase se perde a reportagem, Mohamed fica desconfortável.

A conversa prossegue. Até que o tema do momento se torna inevitável: quem foi Francisco, o Papa que abraçou as margens da sociedade e que lutou pela dignidade dos imigrantes?

Para este jovem somali, o mais importante era “a forma como ele comunicava, como se preocupava com a nossa vida, independentemente de eu ser muçulmano e ele o líder da Igreja Católica”.

Na contagem decrescente para o Conclave, Mohamed espera que o muito que Francisco fez pela dignidade dos migrantes não se perca. “Era um grande ser humano”.

Até que, no final da entrevista, aceita tirar “só uma fotografia”. O cansaço pesa. Amanhã já é outro dia. O tempo é precioso e passa a voar.

Francisco. “Nobre, sábio e gentil”

Azza Ben-Bari nasceu na Argélia, mas chegou a Itália há mais de 30 anos. Faz voluntariado como mediadora cultural na Comunidade de Santo Egídio e esteve várias vezes com o Francisco.

Em dezembro de 2021, acompanhou a visita papal aos refugiados estacionados na ilha de Chipre. Recorda o momento em que Francisco decidiu abrir um corredor humanitário que trouxe para Itália um grupo de 50 migrantes “que viviam em condições muito difíceis”.

Destas 50 pessoas, cinco frequentaram a Escola de Língua e Cultura italiana, em Trastevere: “um deles era médico, havia também um técnico de informática, um desportista, e uma mulher com formação universitária… eram originários da República do Congo, dos Camarões, da Nigéria e também havia um rapaz sírio”.

Azza faz uma pausa no discurso. Revisitar esta história como uma memória muito presente. “Este sírio, tinha uma história muito dolorosa: durante a travessia marítima para Chipre, foi separado da família. A sua história foi contada ao Papa, e lembro-me bem de ele nos dizer para ajudarmos essa família”.

E prossegue: “fez um curso de italiano na escola da Comunidade e conseguiu um pequeno contrato de trabalho. Era cabeleireiro, mas teve de esperar algum tempo para poder exercer. Passado um ano, conseguiu emprego numa empresa de limpezas, tem um contrato, os filhos vão à escola. É uma integração plena. A vida dessas pessoas mudou completamente”.

Não foi caso único: “havia outra mulher, também separada da família no mar pela polícia cipriota. Era uma cristã libanesa. O Papa viu-a chorar na Igreja e pediu por tudo que lhe disséssemos que não chorasse. Pediu-me que a acalmássemos e prometeu fazer tudo para ajudar”.

Graças aos corredores humanitários, estas duas famílias conseguiram entrar na Europa, pela Itália. São as vidas que Francisco resgatou à indiferença para lhes dar um lugar na sociedade.

Aquilo que o Papa fez por estas pessoas é citado, ainda, no tempo presente, “como se ainda cá estivesse”.

Francisco tem um olhar muito humano para os migrantes, independentemente da sua fé. Ele ajuda cristãos, muçulmanos, todos. O mais importante para ele é a nobreza do gesto de ajudar o outro”.

O olhar emociona-se, antes de contar o que aconteceu a seguir. No ano seguinte ao resgate destes refugiados em Chipre, “fomos todos convidados para o aniversário do Papa, a 17 de dezembro, no Vaticano… ele quis celebrá-lo com os migrantes recém-chegados. Foi um gesto de verdadeira amizade e humanidade”.

“Apesar de eu ser muçulmana, o Papa ofereceu-nos terços, a mim e a outras voluntárias. Não se esqueceu das pessoas que chegaram através do corredor humanitário, sabia que estavam a estudar, a integrar-se, e fez questão de convidá-las para o seu aniversário. Só alguém nobre, sábio e gentil é que poderia fazer isto”.

E Francisco fê-lo “com gestos muito concretos… espero que o próximo Papa siga o exemplo do seu irmão mais velho”.

“Não basta acolher, é preciso integrar”

Na Escola de Língua e Cultura italiana, não se aprende apenas a língua. É toda uma adaptação a um modo de vida num país e numa cultura diferentes.

Objetivo: esbater o choque linguístico e cultural.

O Papa Francisco era muito claro sobre esse aspeto: não basta acolher, é preciso integrar… e a língua é o primeiro fator de integração para estas pessoas”, assegura Daniela Moretti, responsável por este serviço de voluntários que apoia a integração de milhares de imigrantes e refugiados que procuram em Itália a porta de entrada na Europa e a oportunidade para viver em paz.

“O regulamento exige que, ao chegar, as pessoas aprendam italiano e se integrem no território”, acrescenta.

O projeto só é possível graças ao tempo que os voluntários lhe oferecem: “somos 50 professores de italiano”.

Daniela trabalha numa empresa de telecomunicações. Mas também há juízes, há médicos, há professores universitários “que oferecem o seu tempo, que tiram tempo ao descanso, à família e aos filhos”.

Porquê fazer isto? “Porque o segredo está em criar a relação que ajuda o próximo e isso preenche-me”.

É como a luz que se multiplica. “Às vezes, como já aconteceu, isto leva aqueles que ajudamos a tornarem-se, também eles, voluntários”.

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