Reportagem
O dia em que o Conclave começou. "Um momento fundamental para a vida da Igreja e da humanidade"
07 mai, 2025 - 23:50 • Ana Catarina André
De olhos colados ao ecrã, o reitor do Pontifício Colégio Português assistiu a cada um dos detalhes do início do Conclave. Um momento de beleza que transporta o chamamento de Jesus, assegura.
Enquanto os ecrãs gigantes colocados nas imediações da Praça de São Pedro, no Vaticano, iam mostrando as imagens do ritual solene de entrada dos cardeais no Conclave, não havia apenas peregrinos a assistir e a rezar pela eleição do novo Papa.
Dezenas de grupos iam rumando, também, em oração à Basílica de São Pedro, preparando-se para passar a Porta Santa, aberta durante o Jubileu.
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Um movimento que não passou despercebido ao padre António Estevão, reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, que acompanhou a celebração junto a uma das telas colocados na Via della Conciliazione, a principal rua de acesso ao Vaticano.
“Não era uma oração só daqueles peregrinos. Unia-se à minha naquele momento significativo que acontecia na Capela Sistina, um momento central, histórico, fundamental para a vida da Igreja e da própria humanidade”, adianta o sacerdote português que, pela primeira vez, está em Roma, durante o Conclave.
Durante mais de duas horas, o padre António Estevão foi acompanhando a procissão que conduziu os cardeais desde a Capela Paulina, no Palácio Apostólico, até à Capela Sistina. Com o guião da celebração, aberto no tablet, foi seguindo atentamente a solenidade do ritual, ciente da história que aquele momenta carrega. “Transporta em si aquele chamamento que Jesus faz aos discípulos para cuidar e pastorear a sua Igreja, a humanidade. É esta a responsabilidade que estes cardeais transportam aos ombros, escolhendo aquele que continuará a missão de Pedro”, diz.
Atento, o sacerdote de origem madeirense chama a atenção para o silêncio e para o espírito de recolhimento visível no rosto dos purpurados: “Dão-nos esse testemunho muito belo de um Colégio Cardinalício disponível para acolher esses sinais e essa luz do Espírito Santo”.
O próprio encontro dos prelados é já “um sinal do Espírito”, refere, numa altura em que o número de fiéis que seguiam a celebração, através das telas colocadas na rua, ia aumentando. Alguns sentavam-se nos passeios, outros iam observando de pé e fotografando o início do processo que levará à escolha do Papa número 267 da história.
“A beleza é uma ponte com Deus”
À medida que os cardeais iam entrando na Capela Sistina, local onde se dá a eleição do Papa, o padre português ia constatando o lugar da arte neste processo. “Aquele ambiente artístico e o próprio ambiente celebrativo – a Capela Sistina é um lugar de culto – falam-nos de pontes e a beleza é uma ponte com Deus. O Papa é aquele que faz a ponte entre a humanidade e Deus”, sublinhou, lembrando que “no século XVI estiveram reunidos ali [na Capela Sistina] dez ou doze dos melhores artistas do mundo a fazer aquela beleza que inunda o nosso olhar, mas também nos leva a Deus”.
Por ser aluno de doutoramento na área dos bens culturais da Igreja, o padre António Estevão não hesita em destacar “dois atos significativos” representados no teto da Sistina, da autoria de Miguel Ângelo: “Deus que cria a humanidade e Deus que no seu juízo universal exerce um juízo de misericórdia”. Entusiasmado, acrescenta: “Naquele juízo universal que representa o livro do Apocalipse, não temos somente sete trombetas. Miguel Ângelo introduziu uma oitava que remete para o oitavo dia, uma nova criação cheia de esperança, um horizonte novo que se abre ao mundo. Neste momento em que os cardeais se reúnem para oferecer à Igreja o novo pastor abre-se esta nova porta de esperança”.
De olhos postos no ecrã, foi depois enumerando o nome dos cardeais que, à vez, foram fazendo o juramento, no qual prometeram manter segredo sobre o processo da eleição do sucessor de Pedro. Quando chegou a vez de D. Manuel Clemente, o primeiro dos quatro portugueses, o reitor do Pontifício Colégio Português lembrou os últimos dias no Colégio Português. “Fez-nos muito bem, a nós, comunidade, ter os três cardeais [D. Manuel Clemente. D. António Marto e D. Américo Aguiar] connosco durante uma semana e meia. Deram um mote à própria comunidade para enfrentar e viver estes dias com serenidade, com paz, com alegria, com um grande espírito de confiança, de fé e de esperança no futuro.”
Os minutos sucedem-se. Chega a hora de fechar as portas da Capela Sistina. “Extra Omnes [Todos para o exterior]”, ouve-se no interior. As portas fecham-se. Lá dentro, ficam 133 cardeais. O relógio marca 17h45. Na rua, junto ao Vaticano, o padre António Estevão observa atentamente aquele momento. Está confiante. Em breve, o mundo saberá quem será o próximo sucessor de Pedro.











