Vaticano

Papa Leão XIV, um mês de uma “suave transição”

06 jun, 2025 - 07:00 • Ana Catarina André

Nas primeiras semanas do pontificado, o primeiro Papa agostinho da história tem feito inúmeros apelos à paz. Mas não só. A unidade da Igreja tem sido uma das suas principais preocupações. Conheça alguns dos traços do pensamento do Papa que foi eleito em maio.

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Apareceu pela primeira vez à varanda da Basílica de São Pedro a 8 de maio, faz no próximo domingo um mês. Eram 19h23 (hora de Roma), quando o mundo conheceu Leão XIV, o primeiro Papa agostinho da história e também o primeiro norte-americano no cargo. Sorridente, apresentou-se com as mesmas vestes litúrgicas de Bento XVI, ao contrário do que fez Francisco que, na mesma ocasião, usou apenas uma batina branca.

Numa atitude quase contemplativa, emocionou-se diante da multidão em festa, e depois de alguns segundos, em que, em silêncio, foi acenando aos fiéis, proferiu as palavras que assinalaram o início do seu pontificado. “A paz esteja convosco.”

O tema acabaria por marcar o discurso inicial, no qual referiu a “paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz que desarma” e no qual lembrou o Papa Francisco para pedir aos crentes que se unam para serem “um só povo sempre em paz”. Mas não ficou por aqui. Desde que foi eleito, tem apelado ao diálogo e multiplicado os apelos ao fim da guerra – disponibilizou-se para que a Santa Sé seja mediadora de conflitos, recebeu Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia e, esta semana falou ao telefone com o líder russo, Vladimir Putin, pedindo-lhe “um gesto que favoreça a paz”.

Uma paz, que segundo o bispo auxiliar de Lisboa, D. Alexandre Palma, vai para além da resolução de guerras como as que ocorrem atualmente na Faixa de Gaza, na Ucrânia, no Sudão ou no Congo. “Há muito mais falta de paz do que nos é dado a ver e a perceber imediatamente. Importa dizer que a paz das armas é condição necessária para todas as demais, mas existem outras demandas de paz: nas famílias, no trabalho, nos corações, na vida de cada um”, diz, sublinhando que “evangelizar é pacificar” e adiantando, também, que a paz a que Leão XIV se refere é “a paz pascal, a da reconciliação definitiva da humanidade com Deus e da humanidade consigo própria”.

Um Papa "sereno" e com "sentido de humor": o primeiro mês de Leão XIV
Um Papa "sereno" e com "sentido de humor": o primeiro mês de Leão XIV

“A questão da unidade da Igreja é claramente a sua prioridade”

No primeiro mês do pontificado, Leão XIV optou por não fazer, ainda, mudanças estruturais no Vaticano. “Tem sido um mês de uma suave transição”, considera a historiadora Paula Borges Santos, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-Nova), adiantando que este “parece ser um tempo de espera e de preparação”. “Fez um corte com o estilo e o pensamento do Papa Francisco, mas com suavidade, sem se colocar debaixo de grandes holofotes”, refere, acrescentando que este tem sido “um mês de discrição”, em que Leão XIV tem respeitado “o luto” pela morte do antecessor, com momentos de “resguardo” e de homenagem.

Nascido a 14 de setembro de 1955, em Chicago, nos Estados Unidos, o Papa, que obteve também a nacionalidade peruana, tem procurado, na opinião de Paula Borges Santos, um conjunto de equilíbrios, “sinal de firmeza e de uma mente com uma grande clareza”. E deixa um exemplo: “Os media, sobretudo os mais ligados à esquerda, tinham uma simpatia pelo Papa Francisco que agora é preciso gerir, numa dimensão que é de respeito e, ao mesmo tempo de conquista de um novo espaço.” No encontro com os jornalistas, a 12 de maio, agradeceu o “serviço à verdade” e pediu que não cedessem à mediocridade.

Paula Borges Santos chama, ainda, a atenção para a centralidade de Cristo, presente nos seus discursos. Na primeira homilia após a sua eleição, afirmou que o compromisso para quem exerce autoridade na Igreja passa por “desaparecer para que Cristo permaneça” e mais tarde, quando tomou posse como bispo de Roma, disse que “a comunhão se constrói primeiramente ‘de joelhos’, na oração e num compromisso contínuo de conversão”.

Para a investigadora, “a questão da unidade, da reconstrução interna da Igreja é claramente a sua prioridade”. E diz: “Leão XIV coloca-se como pastor cuja missão é governar a Igreja. Depois, em segundo lugar, vêm todas as dimensões em que a Santa Sé é chamada a participar, inclusivamente a posição na dimensão geopolítica enquanto Estado.” Basta recordar, por exemplo, que a 18 de maio, na missa de início do pontificado, pediu uma “Igreja unida, sinal de união e de comunhão que se torne fermento para um mundo reconciliado”.

“Uma grande empatia com todos os buscadores de Deus”

O Papa número 267 na história da Igreja Católica, cujo percurso é marcado pela experiência missionária no Peru (esteve ligado ao país durante mais de três décadas), tem mantido a discrição e a serenidade que lhe são características. Ao mesmo tempo, tem afirmado também a sua identidade enquanto religioso. Quando se apresentou ao mundo, fez questão de lembrar que era agostinho e, no último mês, já visitou e almoçou, em Roma, com a comunidade da ordem a que pertence, da qual foi superior e que é inspirada no legado de Santo Agostinho, canonizado no século XIII. “Em Santo Agostinho há uma grande inquietação por Deus – Deus que é uma grande paixão e uma grande pergunta – e isso está presente no Papa Leão XIV, que tem uma grande empatia com todos os buscadores de Deus”, diz D. Alexandre Palma.

Ao escolher o nome de Leão XIV, Robert Francis Prevost deu, também, uma nova centralidade à Doutrina Social da Igreja, como o próprio explicou aos cardeais, a 10 de maio. “O Papa Leão XIII, com a histórica Encíclica Rerum novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial; e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”, disse, na altura.

Ainda que seja precoce falar de encíclicas ou outros documentos sobre estes assuntos, com esta escolha Leão XIV vem mostrar que “a defesa e a promoção da vida se estendem do início ao fim”, considera a teóloga Sónia Monteiro. Para esta investigadora da Universidade Católica, o pontificado de Leão XIV será mais centrado na ação “num mundo carregado de desafios, como o impacto ético e social da inteligência artificial, a crise ambiental, a transformação no mundo do trabalho, a dignidade laboral, as migrações, a xenofobia, o crescimento de regimes autoritários e a crise da democracia”. Um contexto sobre o qual Leão XIV já começou a pronunciar-se.

Num discurso aos membros da Fundação Centesimus Annus, a 17 de maio, pediu que se promova o sentido crítico, sublinhou que “o encontro e a escuta dos pobres (…) são indispensáveis para ver o mundo com os olhos de Deus” e disse que “quem nasce e cresce longe dos centros de poder não deve ser simplesmente instruído na Doutrina Social da Igreja, mas reconhecido como seu continuador e atualizador”.

Na análise da teóloga, a “missão da Igreja passará, sobretudo, por um diálogo com o mundo que tem a ver com uma coerência entre o crer, o pregar e o agir”. E garante: “Só na medida deste testemunho, a Igreja poderá ser uma referência no espaço secular. Só assim, poderá ser fermento para a construção da paz, de um mundo mais justo”.

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