Entrevista

D. José Cordeiro: "Menos missas e melhor missa"

29 jul, 2025 - 20:46 • Henrique Cunha

Presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade (CELE) defende a necessidade de as paróquias reorganizarem a sua oferta. Em declarações à margem do 49.º Encontro Nacional da Pastoral Litúrgica, D. José Cordeiro lembra que a redução de oferta de missas "em muitos casos já está a acontecer com a reorganização das paróquias em unidades pastorais".

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É preciso “a coragem de menos missas e melhor missa, para que ela tenha a dignidade, a nobre simplicidade, a beleza do encontro”, afirma o presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade (CELE), D. José Cordeiro, em entrevista à Renascença.

O também arcebispo de Braga diz que “a liturgia é uma realidade viva, não é um anacronismo, não é um rubricismo”, e àqueles que “muitas vezes discutem o que é tradicional, o que é contemporâneo, garante que “a liturgia, tal como a Igreja celebra hoje, é o mais tradicional”.

“Isto é que o grande depósito da Igreja naquilo que chamamos de tradição está aqui plasmado porque só no século passado foi possível descobrir alguns documentos que são referenciais para o conhecimento de como a Igreja celebrava nos primeiros tempos, nos primeiros séculos”, reforça.

D. José Cordeiro admite “uma redução acentuada” da prática dominical, entendendo que aquilo que “provavelmente Braga ainda seja um oásis em Portugal”, por força da comunidade brasileira que fez aumentar o número de fiéis nas eucaristias dominicais.

Em entrevista à Renascença, à margem do Encontro Nacional da Pastoral Litúrgica (ENPL), que decorre em Fátima, o presidente da CELE reflete ainda sobre a importância crescente que os santuários e mosteiros voltam a ter na Igreja em Portugal.


D. José Cordeiro, qual é a importância destes encontros da Pastoral da Liturgia?

Há 49 anos que se realizam estes encontros nacionais de Pastoral Litúrgica. A receção da reforma litúrgica em Portugal deve-se muito a este lugar de encontro aqui no Santuário de Fátima. São lugares de formação, de celebração, de encontro com Jesus Cristo vivo na ação litúrgica.

E, a partir daqui, no que se refere, de um modo especial, à música litúrgica, à inteireza da formação na liturgia em todas as dioceses são devedoras deste encontro nacional de pastoral litúrgica. Hoje, a maioria das dioceses têm a sua própria formação. Mesmo assim, a Conferência Episcopal pela Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade entende que continuam a ser referência e continuam a ser importantes estes momentos de formação e, por isso, aqui se realizam.

Já foram muitas mais pessoas a participar. Neste momento, são cerca de 500 pessoas, o que também é marcante nos tempos que correm. E haver esta harmonia e o alinhamento de critérios a nível nacional e agora até fomentados por esta nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, "a liturgia viva da Igreja", faz-nos prosseguir com esperança porque a liturgia é decisiva na vida da Igreja.

Não é exclusiva, mas é decisiva como escola da fé, com o encontro com Cristo nos sacramentos, nos sacramentais, na escuta da Palavra de Deus, na própria consciência maior do ser comunidade, do ser Igreja.

E a formação é muito importante até porque, como dizia D. Manuel Clemente na sua conferência, há ainda muitos documentos do Vaticano II que ainda não foram recebidos...

Sim, e há muito para fazer.

Acho que há quase tudo para fazer porque a liturgia é viva. Não é um anacronismo, não é um rubricismo. É a própria vitalidade da Igreja porque a liturgia celebra aquilo em que a Igreja acredita e esta Igreja peregrina e, de um modo especial, neste ano santo jubilar com maior consciência disso, é na liturgia que ela encontra o seu próprio ser e a reforma litúrgica operada há 60 anos procurou ir às fontes e hoje, que muitas vezes se discute o que é tradicional, o que é contemporâneo, a liturgia, tal como a Igreja celebra hoje, é o mais tradicional.

Isto é que o grande depósito da Igreja naquilo que chamamos de tradição está aqui plasmado porque só no século passado foi possível descobrir alguns documentos que são referenciais para o conhecimento de como a Igreja celebrava nos primeiros tempos, nos primeiros séculos.

Recordo as Catequeses Batismais de São João Crisóstomo, a própria tradição apostólica, tantos outros documentos que para nós são decisivos para o modo de celebrar, mesmo na arquitetura litúrgica, nas orações, nos textos que hoje foram recuperados porque a liturgia em si é a Bíblia rezada, é a fé celebrada.

A liturgia é a lei da oração que torna viva a lei da fé e aquilo que se reza é aquilo em que se acredita e aquilo que somos chamados depois a viver no quotidiano, naquela formulação da Eucaristia, na doxologia final, por Cristo com Cristo em Cristo. E a formação, não só a receção dos documentos, mas o espírito da liturgia, a formação para a liturgia e a formação pela liturgia é vital na vida da igreja.

A liturgia é vida e tem também a capacidade de se ir atualizando. Faço esta pergunta porque nós temos cada vez mais entre nós comunidades oriundas de outras latitudes que se vão integrando: é necessária também uma readaptação da própria liturgia a essas populações migrantes que vêm?

Sim, na liturgia há aquilo que é intocável, que é substancial, que não se pode mudar, porque é aquilo que cria a comunhão, a unidade na igreja que permite dizer que é a liturgia católica, a linguagem verbal e a não verbal.

Mas dentro daquilo que é norma na liturgia há muita liberdade respeitando esta norma. Por isso é decisiva a tal formação de que falamos, porque sem formação cada um pode fazer conforme lhe apetece ao sabor das modas ou das circunstâncias em que vive. Nós temos que saber aquilo que é e aquilo que a igreja celebra e quer que celebre tal como Cristo nos deixou e como Ele mesmo celebrou. A partir daí podemos incorporar outras linguagens e sobretudo a linguagem não verbal, mas mesmo a verbal naquilo que são as propostas da oração da igreja.

Lembro, por exemplo, na oração universal, no momento da apresentação dos dons, na ação de graças, no acolhimento, em tantas outras formas para que a liturgia seja mais bela dentro da sua nobre simplicidade e ser simples não significa ser banal, porque quando nós celebramos com esta intensidade e profundidade e com a preparação a liturgia alimenta a vida e dá sentido à própria vida. Agora se é celebrar para cumprir um preceito ou porque nos apetece ou não nos apetece não estamos a ser pertença efetiva e afetiva da igreja, porque é a liturgia que faz a igreja, mas também é a igreja que faz a liturgia. Daí a liturgia ser este lugar decisivo de encontro com Jesus Cristo.

E a capacidade de integração que a igreja demonstra e que não se vê, por exemplo, agora, infelizmente, a outros níveis, em particular na sociedade...

Sim, a liturgia é chamada a uma constante conversão pessoal, pastoral e missionária e tem que acolher a todos, não deixar ninguém de fora e daí a preparação, a própria celebração e a continuação na vida, da missa à missão. Às vezes não sentimos isso noutras dimensões, até da própria igreja ou fora dela, mas todos aqueles que celebramos a Eucaristia sentimo-nos filhos e filhas de Deus e por isso irmãos e irmãs de uns dos outros, porque Cristo está presente na palavra que se proclama, nas ações litúrgicas, na pessoa daquele que preside, no corpo e sangue, mas o sujeito desta celebração é o povo reunido, é a assembleia, de todos quantos participam em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Daí que todos são importantes e todos têm que se sentir acolhidos. E às vezes algumas celebrações são muito frias, porque as pessoas entram e saem sem que ninguém dê por conta, sem haver um gesto de hospitalidade, de acolhimento. E há tantos gestos e sinais na liturgia que permitem essa maior proximidade, onde todos nos sentimos iguais, porque a nossa distinção é apenas no serviço a Cristo e uns aos outros.

Por isso a liturgia não permite protagonismos, nem superficialismos, nem ideologias, porque é o mais concreto que existe a partir do mistério da encarnação e do mistério pascal que ilumina o encontro festivo.

E como aqui também se disse, hoje em vez do domingo falamos de fim de semana, porque o fim de semana não é uma linguagem cristã. Deve-se falar do início da semana, que dá o sentido para a semana. O domingo também é o dia do descanso, da família, do encontro.

O culto dominical em Portugal tem diminuído, não sei se há alguma estatística, mas estaremos nos 10% de prática?

Não sei exatamente, há muito que não se faz esse levantamento e também depende das zonas. O certo é que também nós estamos a ser interpelados pelas comunidades migrantes, de modo especial pela presença dos irmãos e irmãs brasileiros. Vejo concretamente em Braga, que fez aumentar a participação nas igrejas e a participação dominical.

Braga provavelmente ainda seja um oásis em Portugal, mas sim, essa diminuição é acentuada.

Por outro lado, acontece o grande desafio da mobilidade ou do território existencial, como chamou o documento final da Sinodalidade, porque as pessoas hoje vão onde mais lhes convém. E de modo especial aos santuários.

O santuário de Fátima é paradigmático, mas tantos santuários, eu vejo também na arquidiocese de Braga, são muitos os santuários e cada vez mais em aumento de participação das pessoas, sobretudo ao domingo. As pessoas procuram conciliar a vida da família ou o descanso semanal com a participação da Eucaristia nos santuários. É muito significativo, é muito provocatório até, no verdadeiro sentido, esta nova dimensão.

Os santuários são também o futuro da igreja, as paróquias continuarão a existir, mas como já aconteceu no passado, os mosteiros e os santuários hoje voltam outra vez, porque são lugares onde há uma grande oferta de horários de participação, o que também isso obriga nas paróquias a ser revisto.

Como pedia também o Papa Francisco, pôr tudo em questão para que se possa caminhar conjuntamente, não é porque sempre foi assim, mas é ter a capacidade do discernimento, da surpresa e da coragem da mudança para irmos ao encontro de todos e do modo especial daqueles que são o presente e o futuro da igreja, que são os jovens que não estão no mesmo ritmo dos adultos ou dos mais velhos, o que não significa que estejam contra Deus e contra a igreja, porque nas peregrinações, nos jubileus, nas jornadas que lhes são propostas, quando eles se sentem comprometidos e quando há adultos na fé que os acompanham, também se deixam transformar e é também para nós um renovado desafio.

A Eucaristia dominical, a Eucaristia diária em muitas comunidades e também aquelas pessoas que trabalham por turnos e que têm dificuldade em manter este ritmo semanal e que podem escolher um dia da semana para esse encontro pessoal e familiar com Jesus Cristo e à luz do Evangelho iluminar a sua própria vida, a sua profissão, o trabalho, as relações, os vínculos familiares e sociais.

A coragem da mudança poderá implicar uma redução da oferta, nomeadamente nas paróquias?

Sim, em muitos casos já está a acontecer com a reorganização das paróquias em unidades pastorais e também a coragem de menos missas e melhor missa, para que ela tenha a dignidade, a nobre simplicidade, a beleza do encontro.

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