Entrevista ao arcebispo de Nampula

Cabo Delgado: "Solução não é militar. Nem que o exército estivesse armado até aos dentes"

10 set, 2025 - 18:53 • Ângela Roque

D. Inácio Saúre diz que todos podem fazer mais para travar a violência no norte de Moçambique. Em entrevista à Renascença, lamenta que o país tenha hoje 68% da população em pobreza extrema, e fala da ocupação ilegal de património da Igreja, que denunciou recentemente.

A+ / A-
Solução em Cabo Delgado "não é militar", diz arcebispo de Nampula
Ouça na íntegra a entrevista ao arcebispo de Nampula

A nova escalada de violência em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, preocupa o arcebispo de Nampula. Em entrevista à Renascença, D. Inácio Saúre diz que as recentes decapitações vieram reacender o terror entre quem vive na região. Os cristãos são um alvo, mas em sua opinião na base do conflito - que começou em 2017 - não está apenas a perseguição religiosa pelos radicais islâmicos. Há outros interesses por trás, ligados às riquezas naturais que estão a ser exploradas.

Não há dúvida nenhuma que em Cabo Delgado há outros interesses, não é só a ameaça do radicalismo islâmico. É um dos pretextos. A meu ver isto tem a ver com a descoberta dos recursos naturais da zona”, refere D. Inácio Saúre.

Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui

O também presidente da Conferência Episcopal de Moçambique considera que, no geral, o Estado não tem acautelado o interesse nacional na negociação com as empresas interessadas na exploração das riquezas minerais do país, o que tem agravado a crise social e económica.

“A exploração [é negociada] em condições geralmente pouco claras para as comunidades locais acolhedoras dessas grandes empresas. Há um sentimento de uma certa exclusão e assimetrias sociais muito graves na sociedade moçambicana”, apesar de ter acalmado a convulsão social que se viu nas ruas no período pós eleitoral. Mas, essas dificuldades, diz, também pode explicar o que se passa em Cabo Delgado, onde a violência alastra, com a participação de alguns jovens locais.

“Propor a um jovem que está numa situação de extrema pobreza, que lhe vão pagar 20 mil meticais por mês, para fazer não importa o quê, ele pode fazer isso. E tudo o resto pode servir para justificar aquilo que se está a ver.”

Para o prelado moçambicano, a comunidade internacional podia fazer muito mais para ajudar, mas defende que a solução para o conflito em Cabo Delgado não poderá ser apenas militar. Até porque apesar da ajuda da União Europeia - sobretudo de Portugal, que deu formação -, e do acordo com o Ruanda, que tem enviado soldados, o exército moçambicano não tem sido capaz de resolver a situação.

“Parece que o Exército ruandês tem muito mais recursos, mais possibilidades do que o próprio Exército nacional. Então, estes soldados que se apresentam com grandes fragilidades, talvez até em situações de fome, como é que do ponto de vista militar podem defender as populações? Não estão suficientemente preparados. Como digo, a solução não é militar. Mesmo que os militares estivessem fortemente armados e até aos dentes, a solução não seria só militar”, sublinha.

Nesta entrevista à Renascença, o arcebispo de Nampula confirma que a crise social e económica se agravou muito em Moçambique, e lamenta que, 50 anos depois da independência, o país tenha uma taxa tão elevada de pobreza, mesmo em contexto rural.

“Temos mais de 68% de miséria extrema, em que as pessoas vivem com menos de um dólar por dia! Num país riquíssimo de recursos, alguns deles já estão a ser explorados, e o que é que esses recursos trazem de riqueza para as comunidades locais, onde esses recursos são explorados? Isto para mim é um grande sofrimento”, afirma.

D. Inácio Saúre fala, ainda, da relação Igreja/Estado, beliscada pelos casos de ocupação ilegal de património das dioceses e organismos religiosos: “Denunciei esta questão em conferência de imprensa, há dias. Está a ser feita uma ocupação ilegal de terrenos e de edifícios que são da Igreja, com a conivência das autoridades civis, e nada se faz para reverter essa situação”.

Natural de Balama, na província de Cabo Delgado, D. Inácio Saúre é um missionário da Consolata. Ordenado padre em 1998, esteve em missão na República Democrática do Congo. Antes de ser arcebispo de Nampula foi bispo da Diocese de Tête.

Saiba Mais
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Vídeos em destaque