21 out, 2025 - 06:00 • João Maldonado
Os 24 frades que vivem no número 11 do Largo da Luz, em Lisboa, têm novos inquilinos nas instalações do Convento. No dia 1 de outubro entrou o primeiro hóspede: um professor brasileiro, estudante de doutoramento a cumprir um intercâmbio em Portugal. Vai ficar até ao final de fevereiro. Ah! E é protestante.
A fé que professam não é um critério para serem acolhidos nesta casa. “Desde que a pessoa aceite, não fazemos qualquer exigência, nem de terem de participar em atos religiosos nem de terem um culto específico”, explica à Renascença o frei Daniel Teixeira.
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"Que as religiões sejam motivo de aproximação, de comunhão", sublinha. Pondo olhos no fundador da Ordem: "Francisco no seu caminho espiritual de conversão descobre Deus Pai, e depois vai descobrir que, afinal, as criaturas têm todas origem no mesmo Criador, então, só podem ser irmãs".
Aos 65 anos, assumiu há um mês o posto de guardião da casa - uma terminologia franciscana que corresponde ao posto mais alto na hierarquia do local. Depois de ter passado por Leiria, Braga, Coimbra ou pela Madeira foi para Lisboa e herdou este projeto já em andamento.
O espaço disponível juntou-se à vontade de combater a “situação de emergência e necessidade de habitação” – e "voilà": assim nascem quartos para arrendar a preços abaixo do que o mercado clama (tal como já acontece com a mesma ordem religiosa nos protocolos que estão a funcionar no Porto e em Leiria há cerca de um ano).
Quem é o público-alvo? Foi essa a primeira questão feita pelos franciscanos, donos do Externato da Luz. Com as instalações do Colégio mesmo ao lado, o pensamento divergiu entre professores e alunos. Mas, na hora da verdade, os professores fazem provavelmente “menos estragos” e, com mais maturidade, não se criaria tanto risco de perturbação da “vida e ritmo do Convento”. Há regras de silêncio a cumprir e os mais novos poderiam ter dificuldades nesse sentido.
As candidaturas podem ser enviadas por email para daniel.teixeira@ofm.org.pt. O estatuto final vai ser fechado e aprovado nos próximos dias, mas já há pontos definidos.
São oito quartos e um deles já está ocupado até ao final de fevereiro do próximo ano. A roupa de cama e de casa-de-banho é lavada pelos serviços dos franciscanos, uma vez por semana. A roupa pessoal terá de ser lavada fora do Convento dos frades com inspiração em São Francisco de Assis.
Cada quarto tem um secretária, um armário e uma casa-de-banho individual. A nível de refeições: há uma cozinha comum, com mesas, onde é possível cozinhar, usar o micro-ondas e o frigorífico. É proibido trazer pessoas de fora para pernoitar nas instalações.
O preço será sempre abaixo do nível de mercado, mas ajustável a cada situação. Servirá para manutenção e amortização do investimento feito no espaço.
Para o frei Daniel Teixeira, a Igreja pede-nos que saiamos da “indiferença”. Havendo espaço para fazer mais e ajudar quem precisa, “não podemos ficar instalados comodamente nos nossos conventos”.
"Uns com, porventura, mais receio que outros, não estávamos habitados a ter leigos habitualmente no nosso espaço e, portanto, temos que passar desta mentalidade", reconhece o líder da casa franciscana em Lisboa sobre a abertura do local a leigos, afirmando também que este exemplo pode abrir caminho a que outras instituições façam o mesmo: invistam para poder acolher quem precisa.
"De certeza que podíamos fazer um pouco mais", afirma.
Marcos Paulo tem 52 anos e vem de Minas Gerais, um estado brasileiro no centro-leste do país. Está em Portugal até ao final de fevereiro para realizar um intercâmbio no programa de Doutoramento em Ciências da Religião. Foi na Universidade Católica que conheceu o projeto e decidiu candidatar-se. Até passar a viver no Convento esteve, no início do ano letivo, num quarto na zona do Campo Grande.
É professor de Filosofia e de Teologia no Brasil. Em Lisboa, em complemento às aulas que frequenta, vai ensinar num seminário de orientação protestante. “Sou protestante, sou de orientação baptista, achei muito interessante que desde o primeiro momento isso ficou muito claro e receberam-me muito bem, tenho sido muito acolhido, esta experiencia ecuménica esta a ser muito proveitosa”, reforça.
Há apenas três semanas a viver junto a frades, ainda não houve muitas oportunidades para grandes debates teológicos. No entanto, Marcos espera que possam existir: “considero isso produtivo, com toda a certeza uma combinação de culturas e experiências religiosas diferentes, uma possibilidade de comungar uma experiência comum no mesmo estabelecimento".
Há mais um quarto que está neste momento ocupado, mas apenas por uma questão classificada como "social". Uma ajuda temporária e que quando estiver resolvida permitirá libertar mais um quarto para o âmbito do projeto: professores e estudantes de doutoramento.