16 nov, 2025 - 21:53 • Olímpia Mairos
A Igreja Matriz de Alfândega da Fé recebeu este domingo mais uma edição dos “Encontros Improváveis: Conversas da Fé”, iniciativa promovida pelo Secretariado da Pastoral da Cultura e Turismo da Diocese de Bragança-Miranda.
O debate, centrado no tema “O sentido da vida e o seu propósito”, reuniu personalidades de diferentes áreas da vida pública portuguesa, entre elas Pedro Passos Coelho, Fernando Santos, Jorge Gabriel e o chef Marco Gomes.
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A vida tem que ter um sentido. E cada um de nós irá descobrir à sua maneira esse sentido, é uma das grandes conclusões deste encontro.
O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho contou à Renascença que aceitou este convite “porque a vida é uma coisa muito importante sobre a qual vale a pena refletir e conversar”.
Já durante a conversa, Passos Coelho partilhou a sua visão da vida e falou sobre a importância da reflexão, da ética, da moral.
“O sentido, a inteligência e a reflexão têm de caminhar juntos com aquilo que sentimos. A nossa ação deve estar sempre ligada a uma dimensão ética e moral. Enquanto seres humanos, vivemos permanentemente entre estas três esferas: a moral ou ética, a dimensão existencial, que nasce da relação com os outros, do que nos envolve, do lugar onde estamos, e o talento que recebemos para pensar e refletir sobre a vida”, afirmou.
Passos Coelho alertou também para a tendência de viver preso ao passado: “Uma pessoa que se encontra apenas no passado, acaba. Conta histórias, mas já não tem significado para o futuro”.
Para o ex-governante, o propósito revela-se na ação: “Somos em grande medida o que queremos ser para o futuro. Refletir, mas agir. Agir para o futuro — isso é o mais importante”.
Para o antigo primeiro-ministro, compreender o lugar que cada um ocupa no mundo exige um exercício contínuo de pensamento, experiência e abertura ao outro.
“para compreender o que estamos cá a fazer… sobre o sentido da vida e o propósito da vida”, afirmou, sublinhando que essa procura não pode ser feita isoladamente.
Passos Coelho destacou que a identidade de cada pessoa se constrói na relação com quem a rodeia: “Somos o que somos em função do significado que podemos ter para os outros”.
Segundo o ex-governante, o propósito individual não é algo que se inventa de forma autónoma, mas que se revela através das interações e do impacto que se gera no mundo: “Quem nos atribui o propósito são os outros, não somos nós”. Ainda assim, acredita que cada ser humano nasce com um sentido profundo a descobrir.
“Julgo que cada um de nós nasce mesmo com um propósito… andamos à procura dele”, afirmou, realçando que esta busca acompanha toda a vida.
Passos Coelho acrescentou que a realização desse propósito depende das escolhas que cada pessoa faz ao longo do caminho: “O propósito concretiza-se ou não conforme as escolhas que fazemos”.
O antigo selecionador nacional, Fernando Santos, recorreu a uma mensagem centrada na responsabilidade individual e no respeito pelo próximo.
“A vida é um dom que nos foi concedido e que devemos respeitar, a nossa e a dos que nos rodeiam”, afirmou, contando que “a partir do momento que encontrei Cristo, passou a ser o meu propósito de vida transmiti-lo aos outros”.
Para Fernando Santos, a fé é também um caminho de confiança e diálogo interior: “O melhor conselheiro está aqui, atrás de mim”, afirmou, voltando-se para o Sacrário, acrescentando “podemos falar, falar, falar, e parece que não responde. Mas mais tarde ou mais cedo a resposta virá”, disse.
O treinador recordou ainda que a mudança no mundo começa em cada um: “O primeiro passo para um mundo melhor é mudarmo-nos a nós próprios. Se estivermos felizes, os outros estarão felizes”.
Antes, Fernando Santos já tinha partilhado com os participantes neste encontro que o propósito da sua vida, como cristão, “é ir para o Céu”.
Já o chef portuense Marco Gomes partilhou neste encontro uma mensagem de resiliência perante as adversidades.
“Muitas vezes temos partes boas da vida e partes más”, afirmou, sublinhando que esses desafios “nos fortalecem ou não, conforme a nossa energia e força para combater negativismos”.
Marco Gomes destacou ainda que a fé pode ajudar a relativizar dificuldades: “Tento sempre olhar para uma situação má como uma situação de fé e pensar que, se calhar, não é assim tão má: se calhar, há casos bem piores.”
Para o chef, a mensagem principal é clara: “Nunca baixarmos os braços, acreditarmos na fé, em nós próprios e na força que temos. Ninguém é de ferro, mas a vida tem de continuar e Deus há de acompanhar-nos nesse caminho”.
O apresentador Jorge Gabriel abordou a diferença entre fé autêntica e práticas superficiais.
“Se acreditam, façam-no com fé e não com fezada. Há pessoas com dificuldade em distinguir uma coisa da outra”, afirmou, criticando a vivência religiosa meramente social.
Jorge Gabriel destacou a importância de uma busca interior sincera: “Ir à missa apenas porque socialmente é importante, não me parece que seja o propósito de Deus. Se não estiverem com vontade, não venham. Procurem Deus nas vossas vidas de outro modo”.
O comunicador sublinhou ainda o valor da comunidade: “Nós só estamos verdadeiramente completos, se a felicidade dos outros estiver também contida na nossa. A vida é comunitária, não somos lobos solitários.”
A concluir o encontro, o padre Manuel Ribeiro, diretor do Secretariado da Pastoral da Cultura e Turismo, deixou uma mensagem intensa e marcada pela reflexão existencial partilhada durante o encontro.
Dirigindo-se ao público, o sacerdote destacou que a presença de figuras conhecidas da televisão, do desporto e da política desperta curiosidade sobre a forma como cada um vive “uma vida além disto”. E sublinhou o modo como o evento conseguiu gerar “pontos de concordância, naquilo que parece improvável e incomum”.
Partilhando uma imagem marcante, o padre Manuel Ribeiro admitiu ter o hábito de visitar cemitérios, locais onde observa epitáfios e memórias deixadas pelas famílias.
“Dá para sentir que ali vivem sonhos inacabados, sonhos de promessas, de pessoas que podiam ter sido e não foram, de propósitos adiados”, afirmou.
Foi a partir desta reflexão que lançou um apelo à responsabilidade pessoal: “Hoje regressamos às nossas casas com a urgência de olhar para a própria vida e reconhecer-se parte integrante de uma missão conjunta”, acrescentando que o propósito da vida não é a busca individual da felicidade.
“Nós não nascemos para ser felizes. Nós nascemos para construir vida na vida de alguém”, declarou, sublinhando que a verdadeira transformação acontece quando se ultrapassa “o ego e o orgulho”.
Segundo o padre Manuel Ribeiro, viver de forma autêntica exige abandonar a superficialidade: “Estamos proibidos de viver uma vida faz-de-conta. Faz-de-conta que somos amigos, faz-de-conta que vivemos em harmonia, faz-de-conta que amamos alguém… e até faz-de-conta que somos amados. E não somos”.
“Temos de ser genuínos, autênticos, verdadeiros”, defendeu.
O sacerdote insistiu na necessidade de cada pessoa assumir a sua identidade mais profunda: “Sejamos quem somos na nossa essência. Não cópia de outros. Ninguém é igual a ninguém, mas todos somos especiais”, disse.
A concluir, o sacerdote deixou ao público um desafio: “Cabe-me a mim esta missão de procurar transformar a vida de alguém”.