Visita apostólica

Turquia e Líbano: a primeira viagem estratégica de Leão XIV

26 nov, 2025 - 06:15 • Aura Miguel

A encruzilhada político-internacional da Turquia e do Líbano, as feridas das guerras e os esforços de diálogo para a paz, o terrorismo e a liberdade religiosa, vão certamente marcar esta viagem.

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O Papa Leão XIV parte na quinta-feira, 27 de novembro, para a sua primeira visita apostólica à Turquia e ao Líbano. Trata-se de uma viagem estratégica - a primeira fora de Itália -, com significativas etapas e encontros de grande significado ecuménico, político e espiritual.

Ambos os destinos constavam da agenda do Papa Francisco e Robert Prevost, ao manter esta herança, revela assim as suas prioridades.

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A encruzilhada político-internacional da Turquia e do Líbano, as feridas das guerras e os esforços de diálogo para a paz, o terrorismo e a liberdade religiosa, vão certamente marcar esta viagem.

A força do diálogo no coração do Islão

Na Turquia, o principal motivo deste périplo é a visita a Iznik, antiga cidade de Niceia, a 130 quilómetros de Istambul. O objetivo é assinalar os 1700 anos do primeiro Concílio ecuménico que definiu o Credo, ainda hoje recitado por milhões de cristãos em todas as igrejas do mundo (católicas e não só).

A coincidência deste aniversário com o atual Jubileu da Esperança poderá dar um empurrão no lento caminho da unidade dos cristãos, como salientou Leão XIV na Carta Apostólica “In Unitate Fidei”, publicada no passado domingo. O texto papal faz um paralelo entre as divisões que havia no ano 325 e as atuais fraturas entre cristãos; mas sublinha que, apesar das disputas, o Concílio de Niceia mudou o rumo da história e ainda hoje todos os cristãos professam o mesmo credo.

Grande expetativa merece, pois, o encontro ecuménico que se realizará, na próxima sexta-feira, em Iznik, junto às ruínas arqueológicas da histórica catedral. Leão XIV convidou 20 representantes de diversas confissões cristãs - entre católicos, ortodoxos (incluindo o patriarcado de Moscovo), arménios, coptas, protestantes, evangélicos, muitos outros - mas não há confirmação da presença de todos.

O primeiro dia da viagem à Turquia, no entanto, é já na quinta-feira e será dedicado à capital, Ancara. O Papa encontra oficialmente as autoridades, para um primeiro discurso, e visita o mausoléu de Ataturk.

Na sexta-feira, o foco é mais religioso: além de Niceia, Leão XIV reúne-se, em Istambul, com a pequena comunidade católica (que consiste apenas em 0,04% da população) e também visita a famosa Mesquita Azul. O programa inclui ainda vários encontros e momentos de oração com outras realidades cristãs e culmina com a assinatura de uma declaração conjunta com o patriarca Bartolomeu de Constantinopla.

O abraço ao Líbano, a pensar no Médio Oriente

A segunda etapa da viagem é igualmente importante. Leão XIV aterra no domingo em Beirute e, ainda nessa tarde, fala às autoridades do país. O Líbano sempre mereceu uma atenção privilegiada dos Papas pela sua riqueza cultural e forte identidade cristã, na sua maioria, composta por cristãos maronitas. Apesar dos pesados sofrimentos causados por violentos conflitos, pela presença do Hezbolah e pela pressão dos dois países vizinhos - Síria e Israel -, a comunidade cristã tem aguentado firme, no meio da instabilidade do país e em todo o Médio Oriente.

A presença de Leão XIV é vista como um encorajamento aos cerca de 45% de católicos maronitas que vivem no Líbano. O crescente número de jovens e adultos que emigraram, nos últimos anos, para fugir à guerra e aos efeitos da grave crise económica e social é um facto preocupante.

Números recentemente divulgados pela Igreja local revelam que a população libanesa consiste em 4,5 milhões dentro do território enquanto, na diáspora, vivem 12 milhões à procura de um futuro melhor. Ao incluir o Líbano na sua primeira viagem apostólica, Leão XIV chama, assim, a atenção do mundo para a grave situação no Médio Oriente.

Além de reforçar a fé e identidade dos cristãos libaneses, Leão XIV também aposta no caminho ecuménico e no diálogo inter-religioso, sobretudo entre cristãos e muçulmanos. Aliás, a convivência inter-religiosa sempre foi um cartão de visita do Líbano, apesar das pressões dos vizinhos e da incompreensão de algumas grandes potências.

Este pequeno país, há décadas atormentado pela falta de paz, sempre testemunhou ao mundo que a harmonia entre cristãos e muçulmanos é possível e concreta. Basta recordar que, neste momento, o presidente, Joseph Aoun, é cristão maronita e o primeiro-ministro, Nawaf Salam, é muçulmano sunita.

Significativo será também o momento de oração silenciosa que, na próxima terça-feira, 2 de dezembro, Leão XIV vai fazer no local da violenta explosão que ocorreu no porto de Beirute, em 2020, e a missa que, em seguida, vai celebrar, à beira mar, antes de regressar a Roma.

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