06 dez, 2025 - 09:05 • Ângela Roque
“Nenhuma religião pode justificar a violência, a exclusão, a marginalização, a injustiça ou a guerra, nenhuma”, sublinha o padre Tony Neves, que este sábado apresenta mais um volume d "A Missão de Servir", na sua terra natal de Jancido, Foz do Sousa, Gondomar.
O livro reúne artigos, conferências, reportagens e entrevistas que deu desde 2021 - algumas à Renascença - , já como conselheiro geral dos missionários espiritanos. O cargo que o levou para Roma obriga-o a deslocações permanentes pelo mundo. Anda este mês, seguirá para a República Centro-Africana e para os Camarões.
Tony Neves fala da responsabilidade que sente em dar ânimo a quem está em missão, às vezes em cenários muito difíceis. “Somos 2.500, temos mil jovens em formação superior, somos uma congregação muito grande. Estamos em 63 países, e esta diversidade tem de ser riqueza”, refere.
Nesta conversa - gravada quando o Papa Leão estava ainda de visita à Turquia e ao Líbano – o missionário e jornalista não esconde a preocupação com a guerra e a injustiça, que alimentam as desigualdades, e não compreende a “onda de exclusão” que observa em Portugal. “É desumano, é imoral, é anticristão”, sublinha.
Está a lançar mais um livro, 'Missão de Servir 3', que reúne desta vez artigos, conferências, reportagens que fez e entrevistas que deu - muitas delas à Renascença - durante a primeira parte do seu mandato como Conselheiro Geral dos Espiritanos. Esta é uma missão de permanente estado de alerta e atenção ao que o rodeia?
É. A minha vida como missionário implica muita deslocação, mas sobretudo muito encontro. Encontro muita gente em muitos sítios do mundo e isso constitui para mim uma enorme riqueza. Uma riqueza que eu não quero guardar para mim. Depois, a minha missão enquanto jornalista leva-me àquilo que vou vendo, vivendo, ouvindo, vou pondo isso por escrito, ou por áudio, e de tempos a tempos sinto necessidade de juntar coisas que estão muito dispersas.
Tenho neste momento duas linhas de publicação em papel, que é a linha Lusofonias, que apanha a crónica semanal. Tudo o resto que considero importante guardar junto, integro nesta 'Missão de Servir', que nasceu em 2018, quando concluí os seis anos como Superior Provincial dos Espiritanos em Portugal, e achei que devia juntar desses seis anos aquilo que eram entrevistas, reportagens e artigos/conferências.
A minha vida é feita de ciclos, que apesar de tudo têm alguma harmonia. Depois dos seis anos de Provincial, fui três anos Coordenador de Justiça, Paz e Integridade da Criação, em Roma, e quando fui eleito por oito anos para Conselheiro Geral, percebi que os oito anos se dividem em dois (mandatos), uma vez que ao fim de quatro há uma avaliação, um Conselho-Geral alargado - que aconteceu em junho e julho deste ano, em Paris - e quis que a 'Missão de Servir 3' apanhasse esses quatro primeiros anos.
A primeira fase do mandato, portanto. Vai ficar no Governo Geral dos Missionários Espiritanos até 2029?
Sim, espero em 2029, ou 2030, poder publicar a 'Missão de Servir 4'. É apenas uma projeção! (risos)
Continua a sentir-se missionário e jornalista, isto é indissociável em si?
Sim, há muito tempo que é assim. Para mim são duas missões que se transformam numa missão única, quer dizer, eu não consigo separar o que tenho de fazer, os valores cristãos que tenho de anunciar - essa é a minha missão enquanto padre -, mas ao mesmo tempo ampliar tudo isto, escrever, dizer, falar numa perspectiva mais de comunicação. Aí entra mais a minha formação e a minha missão enquanto jornalista. Mas, eu não consigo separá-las. É uma mesma missão.
E uma dimensão completa a outra?
Completam-se muito, e ajudam-se mutuamente.
Missionário e Jornalista. "São duas missões que se transformam numa missão única"
Está no Conselho Geral dos Espiritanos com responsabilidades que o levam a correr o mundo. O ano de 2025 foi agitado, como é que vão ser os próximos tempos?
Em dezembro vou partir para a República Centro-Africana, numa missão de visita. De lá saltarei para os Camarões. Vou ter um Natal e um Ano Novo muito quentes, em todas as dimensões dessa palavra, porque quer a República Centro-Africana, quer os Camarões, são países que estão a atravessar momentos muito complicados em termos políticos, económicos, sociais, culturais, religiosos também.
No próximo ano tenho sempre as idas e voltas a Roma, para as reuniões planárias em que tenho obrigatoriamente de estar, com o meu Conselho. Mas em março, quando fizer a primeira pausa, vou fazer a visita canónica, curiosamente a Portugal, depois a visita canónica ao México, e em junho e julho irei a Moçambique e a Angola, onde há dois capítulos. No fim de 2026 vou visitar aquilo a que chamamos a província da África Noroeste, que apanha quatro países: Mauritânia, Senegal, Guiné Conacry e a Guiné-Bissau - que já nos presenteou com mais um golpe de Estado, a situação naquela área também não está nada calma.
A minha vida é a de tentar perceber no terreno o que é que os meus colegas missionários fazem, animá-los, e tentar criar mais laços de comunhão entre esses confrades que estão em terrenos às vezes muito complicados, e todos os outros espalhados pelo mundo: nós somos 2.500, temos 1.000 jovens em formação superior, somos uma congregação muito grande, estamos em 63 países, nos 5 continentes, e esta diversidade tem de ser riqueza.
O trabalho dos Conselheiros-Gerais é, naturalmente, administrar, mas é sobretudo animar e gerar comunhão, estabelecer laços entre todos aqueles que um pouco pelo mundo anunciam o Evangelho e trabalham em áreas tão sensíveis como a educação, a saúde e os direitos humanos.
É importante passar o Natal fora, animando quem está no terreno?
Sim, e tenho-o feito com muita frequência. Acho que nos últimos 10 anos nunca passei o Natal em Portugal, nem em Roma, passei-o sempre nas linhas da frente, o que é muito bom. Em termos climáticos, regra geral, é sempre bem mais quente do que aqui, mas em termos humanos também me proporciona a participação em celebrações de Natal que podem durar 3 ou 4 horas a cantar, a dançar, com muita transpiração, é verdade, mas muito calor humano, uma fé expressa de forma muito viva. E creio que isso para a minha fé, para a minha vida, para a minha missão, também é um alento, também me ajuda.
Este Natal estará, então, na República Centro-Africana e logo a seguir nos Camarões.Neste momento em que falamos o Papa está ainda a visitar a Turquia e o Líbano… É uma visita importante no atual contexto internacional?
Muito, primeiro porque é a primeira, segundo porque é numa área muito sensível. O Papa disse à chegada à Turquia que aquela era uma área onde os desafios da paz se tornavam não locais, mas universais.
A paz no mundo também se joga em espaços geográficos muito concretos. E, de facto, aquele Próximo Oriente, e o Médio Oriente, é hoje em dia um barril de pólvora. As tentativas de paz que se estão ali a desenhar vão ter impacto no mundo inteiro.
O Papa foi ali por uma questão de paz para falar da tal paz 'desarmada e desarmante", como disse na primeira vez que veio à varanda na Praça de São Pedro. Mas, ao mesmo tempo foi com um grande desejo de fazer as igrejas caminhar para a unidade, porque já celebrou os 1700 anos do Concílio de Niceia, que foi importante para definir o nosso Credo comum, que ainda hoje é rezado por praticamente todas as grandes igrejas, porque é anterior a todas as ruturas. Por isso, se foi um Credo de um tempo em que as igrejas estavam unidas, se é um credo que todos, ou quase todos, rezamos hoje, então se calhar é um bom ponto de partida para que o caminho em direção à unidade dê um 'esticão'...
"Nenhuma religião pode justificar a violência, a exclusão, a marginalização, a injustiça ou a guerra, nenhuma! (...) vemos que há formas radicalizadas de viver a fé que atingem esse tipo de objetivos".
É significativo que a primeira visita do Papa ao estrangeiro, embora já estivesse planeada pelo Papa Francisco, se faça neste momento e nesta ocasião?
É significativo, é simbólico e acho que para o mundo inteiro é um sinal importante, porque precisamos de paz. Por outro lado, em termos de unidade dos cristãos - e não só, toda a dinâmica do diálogo interreligioso está presente, porque a Turquia não é dos piores sítios do mundo na relação entre católicos e muçulmanos, é verdade, mas não deixa de haver ali desafios grandes. Mesmo no Líbano, sobretudo depois do Hezbollah se ter implantado com muita força, as relações entre o mundo cristão e o mundo muçulmano não estão muito boas, o que quer dizer que o diálogo interreligioso que é decisivo para o presente e para o futuro da humanidade, e também se joga muito ali, naquela área.
Até para sublinhar que as religiões são pela paz. Há muitas pessoas que, analisando o atual contexto internacional, culpabilizam as religiões pela guerra.
As religiões são teoricamente pela paz, mas é verdade que historicamente, e mesmo atualmente, há versões radicalizadas de crença que em vez de fomentar a paz, a concórdia e o diálogo, estão de facto a lançar violências, a aprofundar ódios e mesmo a provocar guerras. Infelizmente isso está a acontecer e há um uso, obviamente indevido, do ideal religioso para justificar aquilo que não é justificável.
Nenhuma religião pode justificar a violência, a exclusão, a marginalização, a injustiça ou a guerra, nenhuma! Mas, às vezes vemos que há formas radicalizadas de viver a fé que atingem esse tipo de objetivos muito negativos.
"O que me preocupa mais em termos internacionais é a paz"
Por isso é importante que os líderes religiosos se façam ouvir, lembrando que as religiões são pela paz. Que balanço faz do atual pontificado?
Estou a gostar, porque há ali um grande esforço de continuidade, sem deixar de haver um esforço de identidade própria. Ou seja, ninguém esperava que o Papa sucessor de Francisco fosse um Francisco II. Era impossível, o Papa Francisco é inimitável, ninguém consegue imitar aquele carisma, aquela maneira de ser, aquela simpatia, aquela simplicidade, aquela proximidade. Ninguém.
Quem veio a seguir, claro que ia pagar a fatura da comparação, mas acho que Leão XIV se está a impôr muito bem sendo ele próprio. Com algumas ideias que não são propriamente as ideias do Papa Francisco, mas com outras que, claramente, correspondem aos seus ideais, e está a dar sinais de que quer continuar. Aliás, esta visita é sinal disso. O Dilexit Te - o documento que publicou sobre o amor aos pobres - é continuidade do pensamento do Papa Francisco.
Na maioria das dinâmicas que Leão está a tentar implementar e aprofundar há uma perspectiva de continuidade, concretamente toda a questão ligada à sinodalidade. Acho que as coisas estão a avançar, o Papa está a dar sinais de que é ele próprio, mas que quer dar continuidade à sua maneira, com outra dinâmica, se calhar não com tanta pressa em relação a alguns temas, mas está a fazer a Igreja avançar, e isto é importante.
"Querer acentuar uma portugalidade assente na raça, na cor da pele (...) é desumano, é imoral, é anticristão. Vejo muitos cristãos empenhados nisso. É muito mau. Em termos humanos acho que estamos a andar para trás, e é pena"
Falamos com frequência sobre os mais variados temas da atualidade. Neste momento o que é que centra mais a sua atenção e a sua preocupação?
O que me preocupa mais em termos internacionais é a paz. Porque quando não conseguimos construir a paz todos os outros indicadores sociais positivos vão abaixo: a justiça vai embora, o respeito pelos direitos humanos acabou. Temos um problema muito sério que tem a ver com a vida concreta das pessoas, tudo o que tem a ver com trabalho, habitação, acesso a cuidados elementares de saúde, alimentação, etc, isso vai tudo abaixo quando não há paz...
Até a defesa do clima, como vimos agora na COP30...
A COP30, de facto, foi uma relativa desilusão, porque aqueles que deveriam ter sido os grandes passos a dar continuidade não foram dados. Paris tinha definido uma série de estratégias climáticas importantes, e praticamente tudo parou - embora coisas que agora estou a ler e a ouvir, de gente que esteve lá e que diz que o facto de terem referido o encontro do Dubai pode ajudar a perceber que o combate a tudo aquilo que é energia fóssil, muito poluente, pode continuar a constar em agendas, embora explicitamente essa questão não tenha sido colocada.
O terem criado um fundo para defender as florestas - proposta do Brasil -, não teve muita adesão, mas não morreu, e há a perspectiva de que possa aumentar. Depois, sobretudo, ajudar os países mais pobres a pôr a sua agenda climática em dia. Sabemos muito bem que os países pobres não podem fazer a conversão energética se não tiverem grandes apoios, e aquele fundo que foi pensado em Paris, e foi sobretudo muito aprofundado nas outras COP, agora voltou a constar na agenda, embora os países mais ricos não estejam com muita disponibilidade para dar muito dinheiro, mas vão dar alguma coisa.
É verdade que o estado do mundo em relação a guerras, o investimento exagerado em tudo o que é armas e logísticas militares, vai dificultar que se investa no essencial, que é trabalhar por um mundo de paz, justiça e fraternidade. Mas quero crer que, mesmo aí, o mundo possa aumentar (o investimento). Mas isso, obviamente, preocupa-me.
A nível interno, de Portugal, preocupa-me muito esta onda de exclusão, de marginalização, de querer acentuar demais uma portugalidade assente na raça, na cor da pele. Eu acho que isso é desumano, é imoral, é anticristão. Vejo muitos cristãos muito empenhados nisso. Isso é muito mau. Em termos humanos acho que estamos a andar para trás, e é pena.