07 dez, 2025 - 09:30 • Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Agência Ecclesia)
Elisabete Dias, do Centro João Paulo II, não acredita que "o país esteja preparado" para enfrentar a pressão da deficiência, apesar da "evolução bastante significativa" e do aumento de respostas, sobretudo nos casos onde a retaguarda familiar é inexistente.
Em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, a educadora social sublinha que, em muitos casos, "os pais vão envelhecendo e as famílias estão a ficar sem capacidade para dar resposta".
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Por outro lado, Elisabete Dias diz que as instituições não conseguem satisfazer "todos os pedidos e as enormes listas de espera".
O Governo reconheceu, recentemente, que a inclusão tem falhas e um estudo apresentado na Assembleia da República indica que 91 por cento dos portugueses consideram que as pessoas com deficiência são frequentemente discriminadas.
A educadora social do Centro João Paulo II, que integra o “Grupo da Diferença”, diz-se surpreendida com “uma percentagem tão elevada”, apesar de reconhecer “que há um longo caminho a percorrer e que há muita discriminação”.
“Há discriminação em coisas simples, às vezes, até na acessibilidade a um serviço público. É difícil a inclusão. É difícil olharmos para a pessoa com deficiência como uma pessoa igual”, sublinha.
Para atenuar estas dificuldades, Elisabete Dias defende que a “questão da empatia é fundamental”.
“Conseguirmos colocar-nos no lugar do outro, calçar os sapatos do outro, faz toda a diferença”, argumenta.
Elisabete Dias sugere mais visibilidade para o problema porque “quanto mais a deficiência for vista e estiver acessível a todas as pessoas”, mais perto estaremos do “caminho para a não discriminação e para a verdadeira inclusão”.
Nesta entrevista em que se fala do trabalho do Centro João Paulo II e do Grupo da Diferença, a educadora social sublinha que o objetivo “é sempre o de potenciar”, olhando “para a capacidade e não para a incapacidade”.
"É difícil a inclusão. É difícil olharmos para a pessoa com deficiência como uma pessoa igual"
Muitas vezes, pensamos nas instituições como ilhas. Em Fátima e Ourém, existe o "Grupo da Diferença", que não é uma entidade jurídica, é uma rede de parceria informal que junta o CRIF, o Centro João Paulo II, a Casa do Bom Samaritano, o CRIO e a Escola de Educação Especial Os Moinhos. Qual é a vantagem desta união? É a partilha de recursos?
Não. A base do “Grupo da Diferença” não é, de todo, a partilha de recursos. São cinco instituições parceiras que se uniram em prol de um objetivo comum: desmistificar a ideia da pessoa com deficiência e promover sempre a maior inclusão na comunidade. Esse é o objetivo primordial do grupo.
Um dos objetivos desse grupo é dar visibilidade às pessoas com deficiência na comunidade. Isso ajuda a combater a discriminação?
Claro que sim. Quanto mais a deficiência for vista e estiver acessível a todas as pessoas, acho que estamos a ir no caminho para a não discriminação e para a verdadeira inclusão. Acreditamos que há ainda um longo caminho a percorrer, mas também acreditamos que, nestes 20 anos que já temos desta parceria, muito trabalho já tem sido feito.
Ainda há muita mistificação do que é uma pessoa com deficiência na sociedade portuguesa?
Sim, sim.
Como é que isso se sente no dia a dia?
É natural. Nós somos cinco instituições muito distintas - umas trabalham mais com a incapacidade motora, outras mais com a incapacidade cognitiva -, e, portanto, até essa visualização por parte das pessoas é feita de forma diferenciada. Mas as pessoas com dificuldades são sempre vistas como inferiores, como mais limitadas. O nosso objetivo é sempre o de potenciar, olhar para a capacidade e não para a incapacidade.
"Conseguirmos colocar-nos no lugar do outro, calçar os sapatos do outro, faz toda a diferença"
O Governo reconheceu, recentemente, que a inclusão tem falhas e um estudo apresentado na Assembleia da República indica que 91 por cento dos portugueses consideram que as pessoas com deficiência são frequentemente discriminadas. Este número surpreende-a ou espelha o que vê todos os dias?
De facto, é uma percentagem muito elevada. Surpreende-me um bocadinho estarmos na casa dos 90%, mas a verdade que há um longo caminho a percorrer e há muita discriminação. Em coisas simples: às vezes, até com a acessibilidade a um serviço público, com a possibilidade de frequência no ensino regular... Poderíamos enumerar imensas coisas. É uma realidade que nós, instituições, também reconhecemos como difícil. É difícil a inclusão, é difícil olharmos para a pessoa com deficiência como uma pessoa igual, ter igualdade de oportunidade. Isso ainda não acontece.
Certamente que, entre esses 91 por cento, haverá alguns que estão a fazer uma autocrítica, ou seja, também discriminam. É mesmo uma questão de mentalidade, de dificuldade em conviver com a diferença?
De mentalidade, eu acho que sim, a base está aí. Se nós conseguíssemos olhar para o outro como um ser diferente, mas com igual oportunidade e igual capacidade, isso faria toda a diferença.
Alguém que está tão envolvido como a Elisabete, no dia a dia, neste trabalho, o que poderá dizer a quem nos está a ouvir para que possa ter gestos - pequenos ou maiores - para ajudar a superar esta situação?
Eu acho que a questão da empatia é fundamental. Conseguirmos colocar-nos no lugar do outro, calçar os sapatos do outro, faz toda a diferença. Se eu conseguir ver e sentir a dificuldade no outro, vou ter mais capacidade para compreender. O apoio das instituições acaba muito por ser um apoio às famílias, de incentivo…
"O nosso objetivo é sempre o de potenciar, olhar para a capacidade e não para a incapacidade"
Sabemos que o peso recai sobre as famílias, que acabam por ficar isoladas. De que forma é que sente esse isolamento dos cuidadores e qual é a primeira resposta que as instituições tentam proporcionar?
Nós, no “Grupo da Diferença”, somos cinco instituições com realidades muito diferenciadas. Quer o Centro João Paulo II quer a Casa do Bom Samaritano são lares residenciais, ou seja, dão uma resposta efetiva: os utentes ficam aos cuidados destes lares e, depois, fazem o seu percurso na escola e, eventualmente, a inserção profissional, sempre com a retaguarda das instituições.
Depois, temos o CRIF e o CRIO, que são centros de reabilitação, ou seja, dão apoio durante o dia, de segunda a sexta-feira. Libertam as famílias para poderem ter também as suas atividades profissionais, terem a sua vida pessoal, que é extremamente importante. E, depois, a escola de educação especial "Os Moinhos", que é muito específica: atende crianças em idade escolar, até aos 18 anos, com graves limitações físicas, motoras e cognitivas. As instituições acabam por dar uma resposta efetiva, que é a de cuidar dos seus, da melhor forma que conseguem.
Nós sabemos também que há casos onde essa retaguarda familiar ou não existe ou não consegue dar resposta. Olhando para o conjunto da sociedade, o Estado está preparado para acolher esses casos?
Eu trabalho nesta área há 20 anos e a evolução tem sido bastante significativa, vai havendo cada vez mais respostas. Agora, se são as suficientes? Isso não lhe consigo dizer, mas eu não acredito que o país esteja preparado.
O que é que está a acontecer, pensando por exemplo nos centros de reabilitação que dão resposta diurna? Os pais vão envelhecendo, as famílias estão a ficar sem capacidade para dar resposta e existem listas de espera enormes.
Efetivamente, estas instituições vão criando os seus lares residenciais, mas não estão, com certeza, a dar resposta a todos os pedidos e às listas de espera enormes que as instituições individualmente têm. Pelo menos, estou a falar destas nossas, no nosso concelho.
"Trabalho nesta área há 20 anos e a evolução tem sido bastante significativa, vai havendo cada vez mais respostas"
A nota positiva do estudo que citámos é que há um amplo apoio da população à promoção da inclusão. Falta vontade política para a promoção das melhores práticas?
Eu não sei o que é que falta. Acredito que não é fácil. Nós, trabalhando nesta área, sabemos que não é fácil apontarmos o dedo e dizer que a culpa é deste setor ou daquele, ou se é de uma questão política. Na realidade, estamos a falar de pessoas com graves limitações, muitas vezes. Por mais que se tenha boa vontade, por exemplo, numa inclusão profissional, as questões não são tão lineares como isso, porque estamos a falar de uma grande falta de autonomia.
Muitas vezes, pensar numa inclusão profissional implica que essa pessoa tenha de estar acompanhada, porque não consegue executar determinadas tarefas. Portanto, eu acho que todos nós, individualmente, podemos acolher sempre a pessoa com deficiência. Eu reforço esta questão da empatia: olharmos o que é que podemos fazer e, se todos fizermos bocadinho, será também mais simples.
Disse que tem notado diferenças nestas duas décadas de trabalho. A questão das barreiras arquitetónicas é algo que exige a atenção de todos e que todos podem ajudar a promover?
Claro. E todos podemos ajudar a identificar. Nós só pensamos nisso quando precisamos. A realidade é essa. Se eu tenho um bebé e vou com um carrinho, tenho dificuldade e penso nisso; caso contrário, não penso na outra pessoa que só consegue movimentar-se com uma cadeira de rodas naquele edifício.
Se nós estivermos atentos... É uma questão de civismo também. Por exemplo, nos hipermercados, no estacionamento reservado a pessoas com deficiência: quantas pessoas estão ali a barrar a oportunidade de uma pessoa poder usufruir do seu direito?
"Não é fácil apontarmos o dedo e dizer que a culpa é deste setor ou daquele, ou se é de uma questão política"
Estamos a caminhar para um grande evento, no dia 13 de dezembro: o Santuário de Fátima vai acolher o Jubileu das Pessoas com Deficiência e os seus cuidadores. O tema é "Refletir a Esperança". O documento preparatório diz que este dia não é apenas para a pessoa com deficiência, mas construído com ela. Como é que olha para esta intenção de dar protagonismo aos utentes?
Eu acho maravilhoso, acho que a ideia do Jubileu foi extraordinária, porque incorpora não só a pessoa com deficiência, mas os seus cuidadores, os profissionais, as famílias. Há aqui um espaço enorme de partilha, de um momento que, acredito, vai enriquecer. É um momento de união e de sentirmos que não estamos sozinhos. Às vezes, na instituição, temos as nossas dificuldades, mas acredito que muitas famílias pelo país fora têm dificuldades muito próprias. Acredito que vai haver uma grande adesão.
Vai ser essencialmente isso: um momento de união e de partilha de coisas boas e de coisa menos boas.
O evento tem dois programas simultâneos, um deles mais sensorial, focado nas pessoas com deficiência intelectual ou psíquica, e esse cuidado estende-se à logística, com almoço gratuito e possibilidade de alojamento. Este é um sinal importante para muitas famílias que tantas vezes têm medo de sair de casa por causa destas dificuldades?
Sim, eu acho que o Santuário, nesse aspeto, teve um cuidado extraordinário. De facto, permitiu e deu espaço para que ninguém ficasse excluído, para que quem quisesse participar neste encontro o pudesse fazer. Proporcionou todas as condições em termos de alojamento, de refeição, de programa alternativo. Ou seja, a família pode perfeitamente participar no programa geral e ter a garantia de que as crianças ou os adultos têm o seu acompanhamento no programa extraordinário, que estão acompanhados e que podem usufruir e estar livres. O Santuário está a ser “colo” para as instituições, mas está a ser, sobretudo, “colo” para todas as famílias.