13 dez, 2025 - 10:00 • Ângela Roque
Contar uma história de Natal despertando em que a lê curiosidade para saber mais sobre o património religioso das igrejas, e sensibilidade para a importância de o preservar. Este é, de forma sucinta, o objetivo do livro que o Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja (SNBCI) lançou neste mês de dezembro.
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Destinado a crianças do 1.º ciclo (entre os 6 e os 10 anos de idade), o livro "Um presente para o Menino Jesus" conduz os pequenos leitores “por uma aventura, onde o património da Igreja, o seu simbolismo e a importância da sua preservação, assumem especial protagonismo”, sublinha o comunicado que divulga a iniciativa.
Não sendo este o público alvo habitual das iniciativas do SNBCI, desta vez o projeto foi propositadamente pensando para despertar nos mais novos o gosto pela leitura, sem esquecer a evangelização e a educação para a valorização do património. A história é complementada com sete páginas de jogos.
Com texto de Graça Alves, diretora do Museu de Arte Sacra do Funchal, e lustrações de Carla Pinto, da Diocese de Viseu, o livro pode ser encomendado diretamente ao Secretariado Nacional dos Bens Cultuais da Igreja, mas também está à venda em paróquias e em livrarias e museus da Igreja. Custa 12 euros, mas um euro reverte para o projeto "Regaço materno", do Centro Social Padre Ricardo Gameiro, na Cova da Piedade, em Almada.
Fátima Eusébio: Temos de alterar na Igreja a forma como comunicamos, de uma forma informal, ir além daquilo que são as celebrações. Este livro insere-se nesse projeto
O Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja tem estado a apresentar neste mês de dezembro o livro infantil "Um Presente para o Menino Jesus". Fátima Eusébio é diretora do Secretariado - não é muito habitual terem iniciativas neste âmbito. Que projeto é este?
Fátima Eusébio: Este projeto surge no âmbito da preservação do património, no âmbito do Secretariado, e acho que é o primeiro projeto destinado precisamente a um público infantil. E por que é que foi equacionado o projeto? Antes de ser diretora do Secretariado eu já trabalhava no património da Igreja desde 2007, na Diocese de Viseu, e constatei que cada vez mais há uma grande iliteracia em relação àquilo que é a interpretação do património que temos nas nossas igrejas. Costumo dizer que se passa e que se entra nas igrejas, diz-se 'é bonito, é belo', sendo que esta beleza do nosso património tem de ser entendida sempre como um meio e nunca como um fim. É uma beleza que é para comunicar Deus, e o que acontece é que para haver essa comunicação tem de haver um olhar diferente, que não pode passar apenas pela beleza.
Tem de se educar esse olhar? Ensinar a ver?
Fátima Eusébio: A ver e a interpretar, porque tem que se perceber que cada peça que está nas nossas igrejas comunica algo. Comunica-nos Deus e algo sobre aquela que é a proposta de Deus para a humanidade. Isto é o inverso do que acontecia quando a maioria deste património foi feito: através do património as pessoas percebiam realmente a palavra bíblica que não conseguiam ler, porque a maioria da comunidade era analfabeta. Hoje em dia todos sabemos ler e escrever, mas não sabemos ler as obras de arte.
Temos desenvolvido iniciativas para diferentes grupos etários, mas sobretudo para os adultos, como é evidente. E pensei: por que não começarmos desde pequeninos? Porque os pequeninos são aqueles que muitas vezes depois vão falar aos pais e aos avós.
Graça Alves, autora da história. "Este desafio foi extremamente interessante e desafiante"
Aliás, isso vê-se em muitos museus, sem ser ligados à Igreja, em que através das iniciativas dos serviços educativos, os filhos levam os pais até aos museus.
Fátima Eusébio: E muitas vezes levam o museu até aos pais em casa, levam os folhetos, a informação, ou até jogos que fizeram e que depois vão falar sobre esses jogos. Foi por isso que pensei lançar um desafio à Graça, de escrever um texto onde se abordasse, por um lado esta questão de que todo o património tem um significado, todo este património nos fala e aproxima de Deus, nos põe em diálogo com Deus, claro que numa linguagem adequada para as crianças.
Por outro lado, quis associar a esta vertente da interpretação do património a necessidade de todos nós sermos corresponsáveis naquilo que é a preservação deste património. Por isso o livro foca também a importância de preservarmos o património e de o legarmos às gerações futuras.
Há aqui estas duas vertentes que quisemos colocar nestas páginas muito ilustradas. A ilustradora não está aqui presente nesta entrevista, mas este é um livro que está com uma ilustração que participa da história de uma forma muito interessante. E penso que isso também é fundamental, a imagem como suporte do texto e que ajuda a interpretar o texto.
O livro é ilustrado por Carla Pinto, da Diocese de Viseu. Mas, a autora da história é Graça Alves, da Diocese do Funchal. Como é que foi aceitar este desafio e como é que imaginou esta história?
Graça Alves: Este desafio foi extremamente interessante e desafiante, porque eu sou diretora do Museu de Arte Sacra do Funchal, tenho também esta ligação aos bens culturais da Igreja.
E percebe esta necessidade de que a Fátima falava?
Graça Alves: Claro que sim, que a mediação, e todos os serviços educativos dos museus têm este olhar sobre os mais pequenos, como agentes de alguma mudança que é preciso ter, nomeadamente na forma de ver, olhar e apreciar a importância desta beleza, que nos pertence, que é património de todos e que nos fala tanto daquilo que nos faz tanta falta, desta ligação com Deus.
Dois ingredientes são fundamentais nesta história, e nas histórias para os miúdos, que é o ingrediente aventura e o ingrediente magia. Imaginei três meninos: o Salvador - que se chama Salvador porque nasceu no dia 25 de dezembro - e que na véspera de Natal sai com os amigos, enquanto os pais preparam em casa as festas, a do seu aniversário e a do menino Jesus - e é muito importante também, num tempo tão cheio de Pai Natal, focar outra vez o olhar no presépio e no menino Jesus. Estes três meninos vão brincar para a rua, que é uma memória da minha infância. Nessa brincadeira encontram, num sítio abandonado, um livro do qual sai uma figura mágica, uma estrela, que com os seus braços de luz os conduz pelo património da sua aldeia e que vai mostrando cada peça, cada alfaia litúrgica, cada obra de arte, tentando mostrar a importância que cada um daqueles elementos tem, porque a arte ali é muito mais do que arte, não é apenas arte pela arte. Imaginei a história desta maneira.
Porque é Natal, o presépio está preparado na igreja, mas não está o menino Jesus. E isso para eles faz-me alguma confusão, 'roubaram o menino Jesus? O que é que aconteceu?'. Há todo este caminho que é feito na descoberta da mensagem, como me pediu a Fátima e o Secretariado.
Este livro tem uma componente muito importante (a ilustração), e tenho aqui publicamente de louvar e de agradecer à Carla Pinto, que conseguiu pegar nas minhas palavras e transformá-las em imagem.
A ilustração é importante, sobretudo nestes livros infantis?
Graça Alves: É fundamental, não porque a ilustração vai complementar a história. E ela teve tanto cuidado, tanta preocupação com a expressão das personagens, com tudo aquilo que vai acontecendo na história, que é um complemento, é fundamental a ilustração num livro destes.
E estar a ser divulgado nesta época...é ouro sobre azul?
Graça Alves: É perfeito. Até porque há uma parte do livro, algumas páginas, que ajudam os miúdos a ter eles próprios as suas aventuras, porque tem atividades, alguma interatividade, eles também têm de descobrir, tem enigmas para desvendar, labirintos para percorrer, têm o menino Jesus que vão retirar do livro para colocar no presépio daquela igreja na noite de Natal.
É um livro ideal para o advento, e já está disponível. A Fátima e a Graça têm andado em vários locais a fazer a sua divulgação. Quem quiser, como é que o pode adquirir?
Fátima Eusébio: Ele vai estar à venda numa série de livrarias, sobretudo as ligadas à Igreja e nas dos Museus de Igreja. Também podem contactar diretamente o Secretariado dos Meios Culturais da Igreja, que manda pelo correio. E temos já uma série de paróquias que aderiram ao projeto e que têm encomendado para levar para as crianças da catequese, com certeza que os pais vão adquirir.
E o livro tem um fim solidário, parte da receita tem um objetivo?
Fátima Eusébio: Sim, é para o Centro Social Padre Ricardo Gameiro, para o 'Regaço Materno', um projeto concreto deste centro, que fica na Cova da Piedade, no concelho de Almada, diocese de Setúbal.
Para além disso, às paróquias fazemos o mesmo desconto das livrarias, os 30%, porque consideramos que é outro contributo que podemos dar para as paróquias, através da venda do livro, ficarem com 30% da receita. Com certeza para algumas paróquias pode ser uma receita interessante para aplicar, nomeadamente no património.
Esta componente solidária não é só porque é Natal, é porque todos podermos partilhar um pouco, e às vezes estes meios indiretos para obter alguns recursos, mesmo que os contributos não sejam exorbitantes, mas todos são importantes para este tipo de projetos.
Vão continuar nesta área? Disse no início que esta é uma iniciativa inédita no âmbito do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja, este olhar para os mais novos. É para continuar?
Fátima Eusébio: Acho que sim. Claro que é importante no fim deste projeto fazermos uma avaliação, e vermos até que ponto vai corresponder àquilo que se pretende. Mas, para além das crianças - para as quais tenho o sonho de vir a fazer um jogo, só pensado com o património, aquilo que existe na Igreja, mas em forma de jogo de tabuleiro -, no futuro queria também conseguir fazer um projeto dentro desta tipologia, mas pensado com uma linguagem para os jovens, no período etário em que temos alguma dificuldade. Estes ainda andam na catequese, mas os jovens, sobretudo a partir do momento que fazem o Crisma, o Sacramento da Confirmação...
Há muitas vezes um afastamento, não há respostas pastorais.
Fátima Eusébio: Precisamente. E queríamos também pensar num projeto que fosse mais vocacionado para esse grupo etário. Vamos ver o que é que para o ano se proporciona.
Graça Alves: Eu concordo. Estou sempre pronta para colaborar nestas coisas. Acho que é extremamente importante chegarmos a todo lado, porque quanto mais pessoas estiverem do lado da proteção do património, de deixarmos o que encontrarmos o melhor possível para as gerações vindouras, eu estou sempre pronta para me pôr a caminho.
Fátima Eusébio: Este é um livro infantil, essencialmente para os meninos do primeiro ciclo. Temos de alterar na Igreja a forma como comunicamos, de uma forma informal, que tem de ir muito mais além daquilo que são as celebrações e proporcionar outros meios de comunicação. E este livro insere-se nesse projeto.