15 dez, 2025 - 09:00 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Martel Garcia (sonorização)
Fátima quer ser assistente de bordo, Keven sonha ser “policial”, mas antes quer acabar a faculdade como a mãe. Lauren ambiciona tornar-se advogada, Osvaldo divide-se entre a vontade de ser jogador de futebol ou cozinheiro.
Vivem no Vale da Amoreira, um dos bairros sociais mais complicados no distrito de Setúbal. Têm entre 12 e 15 anos e querem uma vida longe do conflito, com melhores condições, mas o contexto nem sempre é fácil. Do pouco acompanhamento em casa até à falta de dinheiro e à criminalidade, não é difícil arranjar justificação para não estudar. Aqui, nestas ruas do concelho da Moita, ainda mais fácil era faltar à escola: até há cinco anos, poucas eram as instituições de solidariedade social capazes de ajudar a comunidade.
Tudo isso mudou com a fundação da associação Gratitude em 2020, em plena pandemia – e que, desde este ano, dá explicações a jovens entre os 12 e 15 anos, com o projeto “Juvenis”.
“Só começámos este ano. Com os testes que eles nos dizem e têm aqui explicações, sinto que está a correr bem. Com o que eles estavam a dizer agora, que eu estive a analisar as notas, das certas disciplinas que tiveram explicação, conseguiram melhorar as suas notas”, conta a voluntária Ana Clara, estudante universitária de Educação Básica, que aponta como maior dificuldade a falta de material pelos alunos. “Esqueciam-se dos livros e chateávamo-nos. Por isso, é que agora temos uns cacifos”.
Reportagem
No Centro Intergeracional Ferreira Borges, em Lisb(...)
As explicações funcionam na cave de um prédio, remodeladas de propósito para o projeto Juvenis. Quando aqui chegaram, há cerca de um ano, estas salas, pertencentes à Igreja, estavam num estado “decrépito”. A solução foi fazer mercados e concertos de rua para arranjar dinheiro para as obras, pintar e rebocar paredes e comprar mobília.
“Ainda há trabalho a fazer”, admite a presidente da associação, Ana Cláudia Afonso, que vinca, no entanto, que baixar os braços não faz parte do ADN do Gratitude. “Não temos apoio público, mas nós vamos fazer independentemente disso. Não há essas dificuldades – há vontade de fazer, mesmo sem dinheiro. A gente consegue mostrar, muitas vezes, que você pode fazer coisas muito boas gastando muito pouco”.
Há cinco anos, em plena pandemia, Ana Cláudia reparou num frigorífico solidário nas redondezas, organizado pelo dono de um restaurante para ajudar quem estava confinado e sem ajuda para comer. Ana Claúdia quis ir lá deixar seis sopas, mas a imagem do frigorífico vazio e da pouca adesão das pessoas provocou-lhe uma “sensação muito ruim”, que só desapareceu à medida que foi pousando os recipientes nas prateleiras.
“Aquilo foi-me enchendo de esperança. E quando eu fechei o frigorífico, eu falei: ‘É isso que eu quero – quero que outras pessoas sintam isso”, recorda.
Com o coração a abarrotar de vontade, criou a Associação Gratitude, cujo nome vem da junção das palavras gratidão e atitude. “Muitas vezes, as pessoas vão para um restaurante bonito, tiram foto do prato, vão a uma praia toda 'xpto' e falam gratidão. Não, gratidão não é isso. Gratidão é você olhar tudo que você tem, que você construiu durante a sua vida, e ter atitude para ajudar aqueles que não têm nada”, explica.
Este é o lema da associação e dos mais de 130 voluntários que já se juntaram em pouco mais de cinco anos e se dividem entre as várias atividades do projeto, desde o acompanhamento a crianças e jovens até à preparação de cabazes e campanhas de recolha de alimentos. Tudo assenta num jogo recíproco de dar e receber – entre quem é voluntário e quem é ajudado e “sem preconceitos”.
“Voluntariado cura, faz bem para a alma. A gente sai daqui extremamente cansado, mas numa alegria que é inigualável”, assinala. “Não podemos tirar a fome do mundo, mas podemos tirar alguém do mundo da fome. E há várias fomes: a fome cultural, a fome de um abraço, de um acolhimento”, afirma.
A mesa está recheada de desenhos, a maioria pintados a lápis de cera. Por cima da casa impressa a preto em cada uma das folhas, vê-se de tudo um pouco: cães, peixes, mesas de Natal com mais de 15 pessoas sentadas, familiares a viajar de avião, cozinhas megalómanas, quartos de brinquedos e até uma piscina.
É sábado de manhã e hoje fala-se de família no “Gratitude Kids”, a valência do projeto que semanalmente trabalha com crianças desfavorecidas dos seis aos 12 anos de idade – e, aqui, o foco não é o apoio escolar.
“Trabalhamos tudo o que tem a ver com emoções e sentimentos. Todos nós temos medo, alegrias, surpresas, boas imagens. Se começarmos a nomear as nossas emoções, começamos a conseguir falar dos nossos sentimentos e depois por aí fora”, explica a psicóloga (e voluntária) Sofia Coelho.
Nesta sala – cedida pela autarquia e que, habitualmente, acolhe cerca de duas dezenas de crianças –, a animação é muita: nunca falha a música e vídeos infantis, aliados importantes para trabalhar a inteligência emocional, numa zona de multiculturalidade e onde o português nem sempre é facilmente dominado.
Durante a época natalícia, o trabalho é especialmente delicado, dadas as particularidades de cada família.
“Família é uma coisa muito diferente para várias crianças. E também temos de ter muito cuidado com o Natal, porque há pessoas que não comemoram o Natal. nem toda a gente tem uma árvore de Natal, há crianças separadas das famílias. Temos de chegar a todas: a ideia é sentirem-se bem”, aponta a psicóloga.
ENTREVISTA PADRE TIAGO FREITAS
Recuperar o sentido cristão do Natal é obrigação d(...)
A consoada pode ser um momento de tristeza para estas famílias, seja pela falta de alimentos à mesa ou pelas árvores de Natal despidas de presentes. Por essa mesma razão, o projeto Gratitude organiza uma manhã de venda de comida e lembranças: na zona exterior do mercado municipal do Vale da Amoreira, cada família pode vender comida ou artesanato e todo o dinheiro vai diretamente para estas pessoas, sem passar pela associação.
Entre a música e o convívio, há uma banca especialmente animada – Lauryn Miguel veio de Angola e já vendeu dezenas de bolachas hoje. “O projeto foi o socorro quando eu estava praticamente no fundo do poço. Foi uma altura que eu ainda não estava a trabalhar, em fase de regularização dos documentos, e em que só o meu marido trabalhava. E tenho quatro filhos”, recorda.
Tem 41 anos e os filhos participam todos nas atividades do Gratitude. Já recebeu cabazes de Natal (construídos a partir de campanhas nas redes sociais e supermercados) e também apoio semanal com alimentos e produtos de higiene. Hoje em dia, embora mais autónoma, recebe da associação todos os ingredientes para as bolachas que confeciona em casa e vende para fora.
É também isso que vai estar a fazer na Festa de Natal no final do mês, onde o grupo dos 12 aos 15 anos vai cantar um rap de agradecimento ao projeto Gratitude.
“O Natal é para mim, para ti, para todos nós. Nunca me esqueço de dar um beijinho aos meus avós. Família e amigos dizem que tratam de mim. Nem quero saber se tem mau olhado, porque sei que estou bem acompanhado”, canta Keven, que resume a letra a uma palavra: “Obrigado”.