ENTREVISTA
Padre José Frazão Correia: Cristianismo perdeu “relevância cultural”
16 dez, 2025 - 08:00 • Ângela Roque
Sacerdote, diretor da Brotéria e antigo Provincial dos Jesuítas, lançou recentemente o livro "Quem quiser ganhar há de perder". Em entrevista à Renascença, José Frazão Correia diz que Igreja "tem de se deixar interpelar pelas dinâmicas culturais do tempo presente", sem ignorar que ideal de família já não é "modelo único". Sobre as questões de género, considera que não devem ter rótulo de "ideologia".
A Igreja tem de se deixar "interpelar pelas dinâmicas culturais do tempo presente", porque "a fé não existe sem destinatários”. Numa conversa a propósito do seu livro 'Quem quiser ganhar há de perder’, da Paulinas Editora, o padre José Frazão Correia fala da "mudança de época" que atravessamos, em que o cristianismo deixou de fazer sentido para muitas pessoas.
Crítico do clericalismo e dos tradicionalistas, o sacerdote diz que as respostas aos desafios atuais não estão no passado, mas na capacidade em ler os sinais que o Espírito do Senhor dá "no momento em que vivemos", porque "o Evangelho ilumina a realidade, mas a realidade também ilumina o Evangelho".
Lançou há pouco tempo o livro "Quem Quiser Perder Pode Ganhar", em que reflete sobre a mudança de época que estamos a viver, em relação à qual a Igreja não pode alhear-se nem ficar à margem. Podemos dizer que a Igreja está, de facto, a ser posta à prova? Este é um momento decisivo?
Sim, diria que é posta à prova, como é sempre posta à prova pelo tempo que lhe cabe viver. E, de facto, este é o ponto de partida que tomo, não é meu, é um ponto de partida que o Papa Francisco enunciou muitas vezes, quando disse que não vivemos apenas um tempo de mudança, mas uma mudança de tempo.
Essa consciência responsável de que o tempo que vivemos não é apenas de mudança, como são todos, mas é verdadeiramente uma mudança de era: compreendemo-nos a partir de outras categorias, exprimimo-nos de outros modos, desejamos outras coisas, obviamente não em rutura total com a nossa herança, mas há uma configuração particular.
Se a Igreja tem por missão anunciar o Evangelho no seu tempo, não pode não considerar o tempo: o tempo presente, a cultura atual, a maneira como as pessoas se compreendem, como se exprimem. Esse é o grande desafio.
Essa relação honesta, diria franca, aberta, generosa, com o tempo presente, é o desafio que se coloca hoje na Igreja.
No livro em que cita vários autores, filósofos, teólogos, refere que o cristianismo para muitos "deixou de fazer sentido", é uma "realidade remota que perdeu relevância cultural". Algumas resistências internas na Igreja, que permanecem, revelam que esse desfasamento com a realidade ainda não está claro para muitos?
Diria que revelam, por um lado, o desafio do tempo presente. No fundo, é uma tentativa de resposta, penso que à partida honesta, que resulta de uma leitura do tempo presente. Não é aquela que eu acompanho, de facto, porque o Concílio Vaticano II, apesar de já ter sido nos anos 60 do século passado, continua a dar-nos uma orientação que não se esgotou. E essa orientação foi bastante diferente, quase podemos dizer disruptiva - sei que a palavra talvez não seja simpática, mas ouso dizê-la - em relação aos últimos 200, 300 anos da Igreja.
E em que sentido é que essa disrupção aconteceu? Pela disponibilidade que a Igreja assumiu de ter uma relação diferente com o tempo presente, não simplesmente o condenar, como tinha feito nos últimos 200 anos, não simplesmente o ver como uma realidade totalmente exterior - como se fosse a Igreja, nós e eles -, e de querer construir relações mais de deve e haver. A Igreja sente que tem algo a dizer a partir do Evangelho, mas também sentiu que tinha algo a aprender. A Igreja expôs-se à dinâmica do tempo, com o que isso tem também de inevitabilidade, não controlar todo o processo. Quem se expõe ao caminho não sabe exatamente de que modo é que vai chegar à meta. Neste caso, talvez a meta nem seja clara.
Essas respostas atuais, que podemos chamar 'conservadoras', creio que procuram encontrar as respostas para o tempo presente apenas no passado. E já isso é problemático, porque podemos questionar: 'mas que passado é que vamos recuperar?'.
Mas, sobretudo, parece-me que são tentativas de resposta com soluções que o Vaticano II entendeu superar, conscientemente. Todos os bispos reunidos em Roma, no Vaticano, nos anos 60, entenderam que esse modo de abordagem não era adequado para a missão da Igreja. Portanto, parece-me uma resposta compreensível, mas sobretudo desadequada, porque para a nossa identidade presente não pode ter voz no capítulo apenas o passado que herdámos, mas o futuro que desejamos. A promessa que o Senhor nos faz de poder continuar a edificar o Reino a partir do Evangelho de Jesus - portanto, o futuro, que ainda não conhecemos, mas para o qual projetamos o nosso desejo, que nos atrai a partir de lá - também constitui a nossa identidade presente.
Parece-me que há aí um risco a assumir, de perceber o que é que o tempo presente nos dá, do qual precisamos para ler o Evangelho hoje com outra generosidade e para o atuar, talvez, com outra fecundidade.
Mudar exige uma revolução mental, afirma no livro. Qual é que considera ser o maior obstáculo à mudança, à adaptação à nova realidade cultural em que vivemos? É o clericalismo, é o tradicionalismo, que de resto critica bastante no livro?
O Papa Francisco - peço desculpa por estar a citá-lo, já estamos noutra era, mas estes textos foram escritos no seu pontificado, e creio que ele nos deu linhas importantes que ainda não esgotámos, de todo. Mas, de facto, ele teve palavras duríssimas, verdadeiramente duras, em relação ao clericalismo, que é um modo de compreender a Igreja, não a partir da comunidade de batizados, mas a partir de uma pequenina ponta da pirâmide que é o Ministério Ordenado. É um elemento que herdámos e que não ajuda a nossa missão.
De facto, o Papa Francisco falou da pirâmide invertida. Em vez de ser a base do povo de Deus, e que tem em cima aqueles que mandam, precisamos de inverter a pirâmide, pôr na base aqueles que têm a missão do serviço, que precisamente estão ao serviço do corpo, que é a parte mais larga da pirâmide. Portanto, seguramente que o clericalismo é um obstáculo.
Esse quadro mental, que me parece que ainda não superámos, em geral, e que é uma herança do Vaticano II, é que precisamos de ter disponibilidade para perceber quais são os sinais que o Espírito do Senhor dá à Igreja através do tempo. Isto é, o tempo presente, as dinâmicas culturais, as dinâmicas políticas, a maneira como as pessoas se compreendem, como vivem, em contato com a sua complexidade e ambiguidade, estão grávidas - estamos no tempo do Advento -, estão cheias de espíritos. E é preciso atenção para perceber como é que o Espírito fala através desta realidade. Creio que esta disponibilidade ainda não faz parte do nosso quadro mental partilhado. Nós, em geral, entendemos que a cultura é um corpo estranho aos cristãos, que tem de ser mudado pelos cristãos, como se os cristãos não partilhassem a cultura, como se não estivessem nos espaços públicos, como se não vivessem como todas as outras pessoas. Portanto, essa disponibilidade mental para perceber como é que o Espírito está a agir no tempo presente e como é que nos dá sinais a partir dele, parece-me que ainda está por fazer. O nosso entendimento da evangelização parece-me que ainda é muito sempre de cá para lá.
O Evangelho ilumina a realidade, mas a realidade também permite iluminar o Evangelho"
Como se parte para as coisas, como se olha?
Exatamente. De cá para lá. E precisaríamos de ter a disponibilidade para perceber como é que o lá - isto é, os destinatários, a sua identidade, também permite ao Evangelho dizer coisas que ainda não tinha dito, porque ainda não tinha tido estes destinatários. É como se tivéssemos dois textos. O Evangelho é suposto ler a realidade, mas a realidade também lê o Evangelho.
O Evangelho ilumina a realidade, mas a realidade também permite iluminar o Evangelho, não porque acrescente coisas ao Evangelho, mas porque permite que o Evangelho diga coisas hoje, que ontem não podia ter dito, porque ainda não tinha tido os leitores de hoje.
Quase podemos entender a relação da Igreja com o mundo como um ato de leitura. A Igreja é uma espécie de hermeneuta, de intermediário entre dois textos, o texto da Escritura e o texto da realidade.
Gostaria muito que pudéssemos todos, nas várias instâncias, poder recuperar uma certa disponibilidade de leitura, isto é, ler o Evangelho como se fosse a primeira vez. Nós temos muitas camadas de leitura, 2000 mil anos de leitura, isso é nosso património, nossa riqueza, mas também pode ser um obstáculo. Dois mil anos de leitura do Evangelho podem-nos impedir de colher hoje a frescura do Evangelho como se o lêssemos pela primeira vez.
Mas também precisamos de uma outra disponibilidade para ler a cultura atual com a consciência de que ela tem dinâmicas de verdade, de bondade. Precisaríamos de a ler sem demasiadas abstrações e idealizações, também como se fosse a primeira vez.
Creio que este ato de leitura generoso, hospitaleiro, em relação a estes textos, talvez nos permita encontrar as formas e o estilo necessário para que o Evangelho possa ser uma palavra viva no tempo atual e as pessoas de hoje, a cultura de hoje, possam reconhecer bondade, valor ao Evangelho.
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E fazer essa leitura em conjunto, não deixar isso só para os sacerdotes, os bispos, os cardeais, contar com os leigos também. Estamos num caminho sinodal, em que esse esforço de todos participarem está a ser feito. Pensa que é um caminho sem retorno, se vamos continuar assim? E se é o caminho certo para fazer essa releitura, ou essa nova leitura dos tempos?
Diria sem hesitação que é o caminho certo. Aliás, foi o caminho que foi aberto pelo Vaticano II, uma vez mais. Continua a ser o grande momento de orientação da Igreja atual, até que não haja um outro equivalente.
A sinodalidade traduz a compreensão da Igreja como um corpo orgânico, é isso que se compreende, essencialmente, é como um corpo de batizados. Todos os batizados têm igual dignidade, sacerdotes, profetas e reis, assim são três características que nós assinalamos no momento do batismo.
A sinodalidade traduz essa convicção de que o Espírito habita este corpo, e que ele fala pela palavra e pela escuta de todos estes membros. Claro que não fazem todos a mesma coisa, há carismas e ministérios diferentes, e essa diferença é importante que seja cultivada. Mas, essa diferença está ao serviço de um corpo uno e orgânico. A sinodalidade traduz, no modo como a Igreja se estrutura e se organiza, essa participação ativa que o Vaticano II, no documento sobre a Liturgia, disse que queria que as celebrações, que a Liturgia deveria ser - e a Eucaristia em particular - um lugar onde a Igreja e todos os batizados participam ativamente.
Ora, a sinodalidade traduz essa participação ativa na vida da Igreja. Dito isto, é uma prática extremamente difícil, porque o mais fácil é nós enunciarmos a sinodalidade como se fosse um princípio, uma abstração, uma palavra que se diz e fica feita. Não, é uma prática, é um exercício, ou se pratica, ou não se pratica. Quanto mais se pratica, mais o corpo se apropria dessa prática. É como a condução, quando começamos a conduzir, não sabemos muito bem o que é que faz a mão direita, a mão esquerda, o pé esquerdo e o pé direito. Quando já ganhamos a prática, os membros já sabem o que têm que fazer, nem precisamos de pensar. Portanto, o corpo já sabe conduzir. A sinodalidade é algo do género.
Estamos numa fase em que ainda estamos numa certa declaração de princípio, temos que ser sinodais, a Igreja tem que ser sinodal, mas ainda estamos muito principiantes, muito no início da prática. Temos de nos exercitar nela, encontrar a metodologia adequada, porque é difícil, todos falam, todos se ouvem, mas não pode ser de qualquer modo. Qualquer assembleia, nomeadamente as assembleias grandes, precisam de uma metodologia própria que favoreça essa franqueza de palavra e essa disponibilidade de escuta. Mas também processos que afunilem, que ajudem a amadurecer em algum momento a decisão, porque, se não há eleição, é uma conversa sem fim, em algum momento também é preciso tirar a soma das parcelas, eleger, escolher uma caminhada. Portanto, esse processo é exigente e difícil e creio que ainda estamos apenas no início.
Obviamente, se o clericalismo é tão enraizado na Igreja, sendo a sinodalidade um modo muito diferente de entender a Igreja em relação ao clericalismo, estamos aqui numa espécie de medição de forças entre uma Igreja que se compreende essencialmente a partir do ministério ordenado e uma igreja que se compreende essencialmente a partir da participação ativa de todos os fiéis, em virtude do batismo.
Portanto, também são dois modelos - para voltar às palavras do livro - dois estilos, duas formas, não diria diametralmente opostas, mas muito diferentes que podem entrar - e têm entrado, de alguma maneira, em colisão, em choque. Porque, de facto, são dois elementos bastante idênticos, comuns, mas muito diferentes de entender a Igreja e do modo como ela atua.
"Há dinâmicas de relação hoje" que "não encaixam no que chamamos família tradicional"
Como é que olha para este horizonte de 2028, ano para o qual o Papa Francisco, já no hospital, convocou a realização de uma Assembleia Eclesial? Será um momento importante para confirmar estes processos que estão a decorrer?
Gostaria que fosse. Mais uma vez, poderá haver uma certa facilidade em declarar, em dizer que é importante, mas depois não haver os passos correspondentes nas várias instâncias da vida da igreja, desde a mais ampla, que é aquela que é o Ministério do Papa do Bispo de Roma - portanto, ao nível da liderança da Igreja, no seu topo -, mas também depois das dinâmicas mais elementares da vida da Igreja nas paróquias, etc.
Gostaria muito que sim, que esse momento pudesse ser o amadurecimento de um processo já muito longo, mas que permitisse também, usando a linguagem da Companhia de Jesus, a linguagem inaciana, que pudesse ajudar a maturar, a amadurecer, uma eleição, uma escolha que orientasse o caminho da Igreja.
A participação em várias instâncias de auscultação e de debate, têm que ser capazes de maturar uma decisão, que depois oriente o caminho, e que esse caminho seja percorrido durante algum tempo, com a disponibilidade para se avaliar, mas também com a determinação de ir numa determinada direção.
Parece-me que essa direção deveria ser capaz de aprofundar, assumir verdadeiramente a sinodalidade como o modo da Igreja se compreender e, sobretudo, de se edificar e atuar.
Como é que vê o andamento do processo em Portugal? Estamos a fazer o suficiente? Estamos a fazer o possível?
Para ser honesto, acho que não tenho conhecimento suficientemente amplo para poder fazer uma avaliação desse género. Imagino que haverá, como sempre, diferentes ritmos, diferentes desenvolvimentos.
Espero não ser injusto, mas creio que é um limite que temos - no caso da Igreja portuguesa em geral, sem estar a pensar em nada em concreto – que é acharmos que por declarar coisas elas já acontecem. Uma espécie de declaração de boas intenções. Declaramos que somos todos sinodais, somos todos pelo ‘todos, todos, todos’, somos todos hospitaleiros, todos pela misericórdia. É fácil entrar numa espécie de declaração de princípio, e depois não termos a capacidade de fazer com que esses princípios se tornem práticas, e que verdadeiramente enformem, deem uma forma à vida quotidiana da Igreja nas várias instâncias.
A perceção que fico, mesmo tendo um conhecimento muito limitado da realidade - e posso estar a ser injusto - é que esta dinâmica sinodal ainda está longe de verdadeiramente enformar o modo da Igreja ser em Portugal.
Os leigos também precisariam de mais formação? A Igreja também devia ter iniciativas nesse sentido?
Mais formação, diria que sim, mas talvez mais práticas, para que não fiquemos numa consideração abstrata, achando que, formando intelectualmente, depois as coisas acontecem. Obviamente, que essa dimensão é importante, mas eu diria que talvez precisássemos de cultivar mais práticas, onde verdadeiramente os batizados são convidados e convocados verdadeiramente para uma participação ativa na vida da igreja. Isto é, que todas as coisas digam respeito a todos, com a capacidade de compreender que a Igreja é um corpo plural. Nem todos caminham ao mesmo ritmo, nem todos têm a mesma lucidez, nem todos sentem a mesma coisa. Como na vida, de resto.
Nós vamos a uma assembleia litúrgica, à Eucaristia, e intuitivamente percebemos isso: há múltiplas vidas, múltiplos caminhos, uns que estão a celebrar um nascimento, outros que estão a recordar, fazer memória e em luto, etc. Portanto, a celebração eucarística (19:44) está em todas as dimensões da vida. E esta participação ativa de todos fiéis, devia ser capaz de espelhar essa pluralidade de ritmos, de caminhadas, também ao nível da fé.
"Quando dizemos que o género é uma ideologia, tout court, estamos (...) a autolimitar-nos na disponibilidade de perceber esta reflexão cultural acerca do género"
Como é que viu a recente nota doutrinal relacionada com a sexualidade - tema que, de resto, aborda no livro? Estes assuntos mais sensíveis, quando há decisões, por vezes podem, ou não, corresponder à vida real e concreta das pessoas. É nesse sentido que eu pergunto: como é que viu esta nota doutrinal que elogia a monogamia, reafirma o valor do casamento, e rejeita o poliamor, que está a crescer no Ocidente? A Nota também enaltece o valor do sexo no casamento, dizendo que não serve só para procriar.
São documentos. Este documento, como outros do género, são importantes enquanto ajudam a dar um certo quadro de compreensão das coisas. Eu gostaria que eles não afunilassem excessivamente, precisamente para que a humanidade que eles procuram refletir não fosse uma humanidade abstrata, idealizada, que depois a generalidade, neste caso, dos batizados, mas falando dos cidadãos que possam ler estes textos, que sintam que não é, de todo, para eles, que falam de uma humanidade que não é a deles.
Obviamente que a Igreja tem uma longa tradição de reflexão e de pronunciamento sobre estas matérias, que decorre do Evangelho, mas também decorre da cultura em que a Igreja compreendeu e analisou esses fenómenos. Eu gostaria - é também um desejo intelectual que é sério - que a Igreja fosse capaz de se pronunciar sobre estes assuntos tendo a disponibilidade para se deixar interpelar pela dinâmica cultural do tempo presente, como foi capaz de se inspirar e aprender com a dinâmica cultural do tempo passado.
São Tomás de Aquino, um homem do século XIV, quando fala de moral, não o faz apenas a partir do Evangelho, fala de moral também a partir do quadro filosófico, antropológico do seu tempo. É importante ter isto presente.
Ora, nós hoje, como é que nos deixamos interpelar pelo quadro cultural, antropológico, filosófico do tempo presente? Para dar um exemplo: o Papa Francisco, na Laudato Si, faz verdadeiramente uma auscultação do estado da arte destas matérias, da ecologia a partir das ciências, do conhecimento científico atual, e usa de uma maneira benigna, proveitosa, esse conhecimento.
Mas o documento que fala, por exemplo, sobre a natureza humana, não tem essa disponibilidade. Usa documentos, sobretudo do passado, e não tem, diria, essa disponibilidade, o texto não transparece esse diálogo franco com o conhecimento psicológico, filosófico, antropológico do tempo presente. Portanto, voltando a este documento (a nota doutrinal), parece-me importante definir um certo quadro dentro do qual os cristãos devem olhar para estas matérias, mas gostaria muito que houvesse também uma disponibilidade para auscultar verdadeiramente o que é que o tempo presente nos pode oferecer, para uma compreensão verdadeira e mais evangélica destas matérias.
Quando falamos de família, verdadeiramente temos uma ideia idealizada de família - que, no fundo, não corresponde a nada, apenas a uma abstração -, ou também temos disponibilidade para auscultar verdadeiramente as dinâmicas de relação hoje? Muitas delas, talvez não encaixem imediatamente no que chamamos família tradicional, mas não são necessariamente corrompidas, corruptas ou desordenadas. O que estou a querer dizer é que parece que estes fenómenos da nossa vida humana, como aqueles que entram dentro das relações, da sexualidade, etc., precisam hoje de múltiplos olhares, perspetivas, para que aquilo que dizemos sobre eles não seja demasiado redutor, e sobretudo injusto em relação aos fenómenos. Precisamos sempre de múltiplos olhares.
E essa disponibilidade, que dizia no início da conversa, para auscultar a cultura, é isto que eu estava a dizer. O que é que, nas dinâmicas culturais atuais, nestas matérias, mesmo quando nos parecem confusas, difíceis de entender, às vezes desordenadas, desequilibradas, etc., qual é que é a sua porção de verdade? E essa disponibilidade, creio que precisamos de ter como atitude espiritual.
E concretizo: não quero ser polémico, mas quando dizemos que o género é uma ideologia, tout court, estamos, no fundo, a autolimitar-nos na disponibilidade de perceber esta reflexão cultural acerca do género. Estamos a limitar-nos porque estamos a dizer que elas são ideologia, e não temos nada a aprender com esse tipo de reflexão e de posicionamentos culturais.
Claro que teremos muito para analisar criticamente, mas quando pomos logo o rótulo, o selo da ideologia, já nos inibimos de ter uma atitude benigna e disponível para tentar perceber o que é que esses posicionamentos têm também de verdade e de bem.
Por isso, mesmo o uso das palavras, de rótulos, para estas dinâmicas culturais, eu evitaria fazê-los para que não inibam essa relação franca com a própria dinâmica cultural. Porque estas dinâmicas culturais, trar-nos-ão seguramente algum bem e alguma verdade da qual precisamos para ler melhor o Evangelho, de tal maneira que o Evangelho também possa iluminar essas realidades.
Para essa leitura precisa-se da ajuda dos leigos, dos fiéis, até dos não crentes?
Sim, Não queria entrar aqui em termos teologicamente muito complexos, mas na realidade não existe fé sem destinatários. A fé, o Evangelho é sempre dirigido a um destinatário, e esse destinatário reconhece esse bem livremente. Não é possível, mesmo do ponto de vista teológico, considerar que a relação é apenas unívoca, de cá para lá, de nós para eles. Não. É como os Evangelhos, não são apenas o que Jesus disse e fez, é o que Jesus disse e fez, como foi visto e compreendido pelos seus discípulos. O Evangelho não é apenas o que Jesus comunica, mas o que Jesus comunica e que os seus discípulos compreenderam do que Ele comunicou, e já é, de alguma maneira, a síntese, já é um ato de leitura. É o mesmo ato que precisamos de fazer, considerar seriamente os nossos destinatários.
Há um número que tenho, que também cito no livro, que é muito significativo, o número 44 da Gaudium et Spes, em que se diz que o modo adaptado de anunciar o Evangelho é a lei de toda a Evangelização. É uma frase muito significativa, que no fundo, traduzindo, significa que não é possível anunciar o Evangelho sem considerar seriamente os seus destinatários. Eles não são recetores passivos de algo que lhe vem de fora, são atores de uma mensagem que lhe é comunicada, que eles reconhecem, compreendem, sentem, à qual podem corresponder, ou não, livremente.
Portanto, estas matérias sobre as quais estávamos a falar, esta atenção à cultura, às famílias concretas, à realidade concreta, no fundo, é um ato teológico, um ato espiritual, que decorre da nossa compreensão da revelação e da fé.
Brotéria. "Queremos abrir a casa, ser uma casa aberta a quem aparece
Dedicou este livro à 'memória feliz de Francisco' e 'ao desejo de paz de Leão'. O atual Papa está a dar continuidade aos processos de abertura que o Papa Francisco iniciou?
Diria que sim. Não vejo assim nada de disruptivo, de radicalmente diferente. E, aliás, os pronunciamentos políticos do Papa Leão sobre estas matérias herdadas, como a sinodalidade, todos estes processos, penso que têm sido de grande confirmação.
É verdade que são dois estilos muito diferentes e acho que é bom que cada um assuma o seu. Isto é, que o Papa Leão não queira estar a imitar quem quer que seja, e que seja coerente, honesto, autêntico no seu modo de entender e de estar.
Agora, é verdade que este livro, como foi escrito em grande parte durante o pontificado do Papa Francisco, e com uma grande adesão, e uma grande convicção na adesão ao seu entendimento da Igreja, à missão da Igreja, é também um ato de memória, de agradecimento àquilo que me parece que é um grande legado do Papa Francisco, na medida em que foi capaz, precisamente, de iniciar práticas de verdadeiramente modelar e enformar o modo como a Igreja não apenas se compreende, mas atua. E, sim, dedico também a este desejo de paz do Papa Leão. Sabemos que a paz, biblicamente, não é apenas a ausência de guerra, mas é uma espécie de conjunto de todos os bens e, por isso, é um desejo extraordinário, que não basta que fique em desejo, mas ele próprio também é importante que se torne prática, verdadeiramente.
É, atualmente, diretor da Brotéria, um espaço cultural dos jesuítas, bem no centro da cidade de Lisboa, e queria ainda fazer-lhe esta pergunta, para fechar a conversa, de que forma é que os jesuítas também, e a Brotéria, podem e estão a contribuir para esta formação dos cristãos e para o diálogo cultural com todos, incluindo os não-crentes?
A Brotéria é uma casa de cultura no bairro Alto, por isso, no centro da cidade de Lisboa, no cruzamento de múltiplas pessoas, movimentos da cidade, etc. Mas desde o início quis ser isso, mais do que uma declaração de coisas e uma declaração de uma identidade cristã ou de género jesuítica, quis ser um espaço, uma casa aberta, onde possa haver cruzamentos que favoreçam encontros, debates, diálogo, sem querer muito mais do que isto.
Alguns, eventualmente, acharão que é demasiado pouco. Para nós, parece-nos que é bastante. É verdadeiramente, um ato de hospitalidade, isto é, quem entra ali, sejam artistas, professores, leitores, passantes, turistas, possam ser acolhidos sem se pedir nada à partida.
A formulação que nós, com pequenas variações, encontramos para dizer a nossa missão é um lugar onde a fé cristã, o património da fé cristã, todo o nosso património, a nossa identidade cristã, se encontre com expressões culturais das culturas contemporâneas.
Aqui é importante o plural, porque mesmo a cultura contemporânea são muitas culturas e nós acreditamos que essa hospitalidade realiza a nossa identidade cristã. E a hospitalidade tem de ser radical, não pode ter 'alíneas de reserva'. A hospitalidade é radical.
Isto é, queremos abrir a casa, ser uma casa aberta a quem aparece. Inicialmente não se pensava que fosse assim, mas acabou por este encontro, esta participação, as iniciativas com agentes, com artistas da arte contemporânea, que é um campo em relação ao qual a Igreja hoje, me parece, tem bastante dificuldade, uma espécie de alinhamento e desconhecimento recíproco, tem-se revelado um campo muito interessante deste interface.
Na Brotéria, para além de todas as outras iniciativas temáticas, a arte contemporânea tem sido uma plataforma muito interessante de realizar esta hospitalidade e de fazer com que haja encontros de pessoas, de instituições, que à partida não se conheceriam, de todo.
E é possível fazer coisas em conjunto, sem a pretensão de cobrar, exigir, gerar o que quer que seja. Só o encontro com a arte, que seja a arte e que seja verdadeira, que seja boa e seja honesta, já faz acontecer alguma coisa de significativo.
Como dizia, alguns acharão que é pouco para realizar a identidade cristã. A nós parece-nos que é o que nos é pedido, o resto virá por acréscimo, porque parece-nos que essa prática da hospitalidade traduz verdadeiramente e é capaz de traduzir hoje, de uma maneira significativa, a identidade mais íntima do Evangelho.














