ENTREVISTA a RENATA ALVES
Comunidade Vida e Paz: "Dependem de nós 900 pessoas por dia"
18 dez, 2025 - 20:02 • Ângela Roque
"Era importante que os poderes políticos se responsabilizassem mais”, defende a diretora executiva da instituição. Por ocasião de mais uma Festa de Natal para as pessoas em situação de sem-abrigo, Renata Alves diz à Renascença que é urgente tomar medidas, porque a crise na habitação continua a empurrar pessoas para pobreza e para a rua. “Assistimos casais que mantêm trabalho, mas já não têm casa”.
A crise na habitação é um dos principais fatores de exclusão social, responsável por muitas das situações limite a que chegam muitas famílias, indica a diretora executiva da Comunidade Vida e Paz, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) tutelada pelo Patriarcado de Lisboa.
Em entrevista à Renascença, Renata Alves fala das situações que os voluntários da instituição conhecem bem: famílias que até trabalham, mas perderam a casa e “acabam por viver em tendas, parques de campismo ou espaços de alojamento temporário”. Situações que têm vindo a agravar-se, impedindo que o número de pessoas em situação sem-abrigo não tenha ainda descido para os níveis pré-pandemia.
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Para esta responsável “são necessárias medidas” para combater a especulação imobiliária e a subida das rendas, e mais atenção dos “poderes políticos, centrais e locais”, que devem estar “ao lado das instituições e das pessoas, que cada vez têm mais necessidades”.
Para angariar apoios, a CVP lançou a campanha ‘Para muitos isto é uma ceia de Natal’, para sensibilizar para o trabalho que desenvolvem todo o ano.
Esta sexta-feira arranca a 37.ª Festa de Natal com as Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, que pretende proporcionar conforto e dignidade aos mais vulneráveis nesta quadra festiva. Durante três dias, na Cantina da Cidade Universitária de Lisboa, e com a ajuda de benfeitores, parceiros, muitos voluntários e profissionais, vão assegurar serviços nas áreas da saúde, cidadania, cuidados de higiene, banco de roupa, refeições e animação.
Entre as novidades deste ano está o rastreio dentário e as consultas de saúde oral, e também o visionamento de filmes, assegurado por uma empresa de telecomunicações.
A Comunidade Vida e Paz (CVP) organiza mais uma Festa de Natal. Para além da ajuda que dão todos os dias do ano, este é um momento particularmente importante para esta população?
Sem dúvida. Nos três dias de festa que proporcionamos às pessoa, para além de contribuir para um Natal diferente e quebrar a solidão que elas apresentam e que sentem ao longo do ano, procuramos, sobretudo, reforçar os laços que estabelecemos com as pessoas que acompanhamos todos os dias na rua, mas também permitirmos a possibilidade de terem acesso a alguns serviços, que vão desde a área da cidadania: permitir às pessoas terem a possibilidade de ter atendimentos na Santa Casa de Misericórdia, Segurança Social, ou poderem tratar do seu Cartão de Cidadão; serviços na área da saúde - vamos ter medicina dentária e também oftalmologia, entre outras especialidades; e temos as outras áreas, como é a do barbeiro e duches, a área da roupa, a área das refeições e também a área da animação, de que estão privadas ao longo do ano, para terem ali um miminho e um conforto nesses três dias.
São dimensões, todas elas, importantes. Este ano, pelo que anunciaram, há algumas novidades em termos de serviços, nomeadamente a saúde oral?
Exatamente. Estabelecemos um protocolo com a Faculdade de Medicina Dentária que nos vai permitir assegurar consultas às pessoas - e são muitas sempre. A área da Medicina Dentária é sempre uma grande necessidade, assim como a área da oftalmologia, por isso estamos, desde já, muito agradecidos por a Faculdade da Medicina Dentária se ter associado a nós e podermos fazer a diferença e melhorarmos a vida e a saúde oral das pessoas que acompanhamos.
É um protocolo só para a festa de Natal, ou para o ano todo?
Para já é para a festa de Natal.
A outra novidade são as sessões de cinema, não é?
Este ano vamos ter a NOS a colaborar, proporcionando sessões de cinema ao longo dos três dias.
"Assistimos algumas pessoas, inclusive casais, que mantêm o seu trabalho, mas já não têm casa.(...) acabam por viver em tendas, parques de campismo ou espaços de alojamento temporário"
Quantas pessoas é que esperam atender na edição deste ano? E quantas pessoas é que vão estar envolvidas na festa, assegurando toda a ajuda?
O ano passado tivemos 1.794 presenças e este ano contamos ter um aumento na ordem dos 5%, portanto, mais de 1.800 pessoas. Em termos de voluntários, que são uma ajuda fantástica, o ano passado tivemos cerca de 1.300 e contamos este ano alcançar, ou superar até, esse número. Sem esquecer depois todos os benfeitores, parceiros e profissionais, sem eles não seria possível conseguirmos realizar esta festa.
Diariamente qual é a média atual de atendimentos?
Neste momento estamos a ir ao encontro de 450 a 500 pessoas na rua, em Lisboa. No entanto, não podemos ignorar todas as respostas que temos, incluindo de alojamento. Estão distribuídas mais, entre 300 a 400 pessoas. por todas as respostas que temos de alojamento, desde unidades para as pessoas em situação de sem-abrigo, até aos apartamentos partilhados, as comunidades terapêuticas - temos duas - comunidades de inserção e apartamentos de reinserção também.
No total temos cerca de 22 respostas e dependem de nós cerca de 900 pessoas por dia.
E esse número, a tendência tem sido de subida ou descida?
Neste momento o que verificamos é a tendência a manter-se. Ainda não conseguimos chegar aos números que tínhamos antes da pandemia, ainda continuamos a ter mais pessoas na rua do que aquelas que tínhamos há uns anos. Apesar de serem implementadas novas medidas e novas respostas, de facto ainda verificamos um número muito significativo de pessoas em situação de sem-abrigo.
Voluntariado. "Estamos sempre disponíveis para acolher pessoas que queiram colaborar connosco ao longo do ano"
Habitualmente têm dificuldade em termos de voluntários, ou há sempre candidatos disponíveis, e este é um problema a que as pessoas vão estando atentas?
Em alguns momentos vamos tendo dificuldades. Sabemos que muitas das pessoas também têm dificuldades para poderem gerir toda a sua vida, e há fases do ano... por exemplo, no verão temos sempre mais dificuldade, pelo facto de ser verão e as pessoas também estarem em período de férias. Mesmo agora, para a festa de Natal, tivemos aqui um período com alguma dificuldade, mas já conseguimos. Porque na verdade o fim de semana da festa é muito próximo do Natal e há necessidade de muitas pessoas para fazerem a festa connosco e ajudarem-nos a proporcionar um Natal diferente a todos os que acompanhamos.
A festa exige sempre muito em termos de logística e preparação. Mas, nesta altura ainda é possível, por exemplo, ser voluntário ou contribuir com meios materiais?
Nesta altura já fechávamos a plataforma para esta festa, mas estamos sempre disponíveis para acolher pessoas que queiram colaborar connosco ao longo do ano. Porque na verdade a Comunidade de Vida e Paz precisa de toda a colaboração ao longo do ano, e não apenas nestes três dias, na festa de Natal.
Número de sem-abrigo voltou a aumentar no ano passado e chegou a 14.476
Homem português, solteiro e com pouca escolaridade(...)
A Comunidade de Vida e Paz tem a decorrer a campanha 'Para muitos, isto é uma ceia de Natal', para sensibilizar para o trabalho que fazem durante o ano todo. Que importância é que tem para o vosso dia a dia a ajuda que possam receber através desta campanha?
Esta ajuda é muito importante, na medida em que nos permite poder manter todas as respostas que existem atualmente e conseguirmos prestar todos os serviços e responder às necessidades que as pessoas apresentam. Porque efetivamente a Comunidade de Vida e Paz tem um orçamento já muito, muito grande, os apoios que existem são insuficientes, quer por parte do Estado, quer por parte dos municípios, conseguem cobrir cerca de 60% das despesas que a instituição tem, e os restantes 40% cabe à instituição conseguir, através das campanhas e da solidariedade das pessoas, quer particulares, quer ao nível das empresas.
Daí ser relevante a participação e a contribuição dos portugueses que possam?
Muito, muito relevante as pessoas poderem associar-se a nós, nesta campanha e, como digo, não apenas neste momento, mas ao longo do ano, para conseguirmos manter a ajuda que todos os dias prestamos a todas as pessoas.
"São necessárias medidas para combater esta especulação das habitações e o aumento das rendas"
No Natal é sempre dada mais atenção a vários problemas, incluindo o das pessoas em situação de sem-abrigo. No entanto, todas as metas definidas para erradicar a pobreza no país têm falhado, e isto interliga-se. O que é que falta, do seu ponto de vista?
Primeiro estamos com uma crise gigantesca no que diz respeito à habitação. Depois, há a necessidade de fazermos um trabalho na área da prevenção, que permita não aumentar o número de pessoas em situação de sem-abrigo e impedir que se agrave a situação de muitas pessoas e famílias que já estão a passar atualmente grandes dificuldades - porque a Comunidade Vida e Paz também está a apoiar pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade, e não apenas aquelas que se encontram em situação de sem-abrigo.
Há, de facto, a necessidade de medidas de maior ação ao nível da prevenção e também da intervenção. A questão da habitação é, sem dúvida, um grande problema e é necessário existirem medidas, para que as pessoas possam ter acesso a um direito que têm, que é o direito à habitação.
É uma constatação que fazem? A crise na habitação tem impacto a este nível, podendo pôr mais pessoas a viver na rua?
Sim. Na verdade, nós assistimos a algumas pessoas, inclusive casais que mantêm o seu trabalho, mas já não têm casa, e muitos deles acabam por viver em tendas, parques de campismo ou em espaços de alojamento temporário.
É uma evidência muito significativa, que nos últimos tempos tem vindo a intensificar-se e são necessárias medidas para combater esta especulação das habitações e o aumento das rendas. Porque já bem basta o aumento do custo de vida, para além desta questão ao nível da falta de habitação, e do acesso à mesma.
Em termos políticos seria possível fazer mais, certamente. Se pudesse deixar um desejo de Natal e Ano Novo, qual seria?
O desejo é que de facto os poderes políticos, centrais ou locais, percebam e estejam ao lado das instituições e das pessoas, que cada vez mais têm necessidades. E que muitas vezes as necessidades e problemáticas não estão só associadas a problemas de consumo de substâncias, mas sim à falta de habitação, ou à dificuldade no acesso à saúde. Era importante que os poderes políticos, de facto, se responsabilizassem mais e conseguissem disponibilizar mais medidas com o objetivo de diminuir-nos este flagelo.













