Entrevista Renascença/Ecclesia

Europa ameaçada. "Toda a gente espera que a guerra comece esta noite”

28 dez, 2025 - 09:30 • Henrique Cunha (Renascença) e Paulo Rocha (Agência Ecclesia)

Na contagem decrescente para o Dia Mundial da Paz, já com a mensagem do Papa Leão para esse dia conhecida, é convidado da Renascença e da Agência Ecclesia, o general Luís Valença Pinto, antigo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, professor universitário e presidente do Centro de Estudos EuroDefense Portugal.

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O general Valença Pinto considera que existe a ameaça de agressão iminente na Europa.

"Quando viajamos para a Polónia, para os Estados escandinavos, para os Estados bálticos, toda a gente espera que a guerra comece esta noite”, diz o presidente do Centro de Estudos EuroDefense-Portugal em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia

O professor universitário e antigo Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) alude a "uma realidade muito infeliz e muito triste" para sublinhar a importância de os Estados apostarem na segurança e na defesa.

"A situação impõe um aumento de despesa" em segurança numa Europa "muito sozinha", diz Valença Pinto. "A Europa tem de se rearmar, se quer prevenir a guerra", reforça.

Valença Pinto sublinha a importância do alerta de Leão XIV sobre os riscos da utilização da Inteligência Artificial (IA) no âmbito militar, um alerta que surge na Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz.

Para o antigo CEMGFA, a utilização de IA para fins militares "banaliza a guerra e desresponsabiliza os líderes políticos". Valença Pinto considera "um mito e um enorme perigo" deixar vingar a ideia de que é possível, através dos avanços tecnológicos, realizar "guerras limpas".

"A aplicação da IA no âmbito militar radicaliza a tragédia dos conflitos armados", sustenta o general, em linha com a mensagem de Leão XIV.

Valença Pinto reflete também sobre uma outra perspetiva da Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz: Leão XIV critica a utilização da religião para justificar ações e decisões e o general diz que “todos estamos vítimas potenciais desse radicalismo” de “seitas avulso”.

"Na fé cristã, também temos grupos radicais”, adverte.

"Colecionador" das Mensagens para o Dia Mundial da Paz, Valença Pinto revela nesta entrevista conjunta que começou a estudar estes textos papais nos anos 80 para as incluir nos temas que lecionava no Instituto de Altos Estudos Militares

“Fui despertado por expressões, opiniões e pensamentos que emanaram da Igreja, designadamente de Paulo VI”, explica. “Desde então, no primeiro de janeiro de cada ano, coleciono a mensagem.”

"Quando viajamos para a Polónia, para os Estados escandinavos, para os Estados bálticos, toda a gente espera que a guerra comece esta noite"

O Papa propõe, na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, uma paz desarmada e desarmante, como foi a “luta” de Jesus, e denuncia as despesas militares, a nível mundial. Escreve Leão XIV: “Ao longo de 2024, aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, confirmando a tendência ininterrupta dos últimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 biliões de dólares, ou seja, 2,5% do PIB mundial." Face a estes números, é impensável falar numa paz desarmada?

Nunca é impensável e é sempre construtivo falar numa paz desarmada.

Devo dizer, já agora, como esclarecimento, que as despesas de armamento, de facto, têm vindo a subir, mas, antes da Guerra na Ucrânia, elas subiam sobretudo na zona do Golfo e na zona da Bacia do Pacífico. No resto do mundo, estavam, de alguma maneira, a descer. Com a Guerra da Ucrânia, tudo isso se alterou e hoje há um crescimento generalizado - também infelizmente, para a Europa - pelas circunstâncias que justificam e motivam.

Mas é mais difícil essa paz desarmada, desta forma?

É, absolutamente. Para não dizer que é impossível. Há rapazes maus no nosso jardim...

"Há rapazes maus no nosso jardim..."

Se sinalizarmos o tema do lado da União Europeia, talvez o problema ainda seja maior. De acordo com as indicações de Conselho da Europa, em 2024, as despesas com a defesa dos Estados-membros atingiram 343 mil milhões de euros. É um aumento que se regista pelo décimo ano consecutivo. E em 2025 é de esperar que atinja os 381 mil milhões de euros. As despesas com a defesa em 2025 aumentaram 11% em comparação com o ano anterior e mais de 62% face a 2020. Estes números fazem-nos pensar que o horizonte que se avizinha não é o melhor...

Não, o horizonte que já temos e o horizonte que podemos recear, realmente, não é o melhor. Muito infelizmente, não é o melhor. E isso dificulta muito qualquer ação que procure assentar a conduta dos Estados e das outras organizações internacionais em algo mais do que a resposta preventiva a uma agressão. Estamos na iminência de ser agredidos aqui, na Europa. Ninguém tem dúvidas sobre isso. Aqui, em Portugal, na ponta sudoeste, podemos achar que é menos iminente, mas, quando viajamos para a Polónia, para os Estados escandinavos, para os Estados bálticos, toda a gente está à espera que a guerra comece esta noite. Essa é uma realidade muito infeliz e muito triste.

Estamos a desvalorizar esse risco, de alguma forma?

Não, não estamos. Obviamente, este risco é muito sério e tem consequências que são complicadas de ponto de vista social, nomeadamente o desvio, salvo seja, de dinheiro para as despesas de armamento. É por isso que é importante perceber que a segurança e a defesa são uma exigência fundamental das sociedades porque se pensarmos em desenvolvimento e bem-estar, não poderemos tê-lo se não tivermos segurança e defesa. Como, ao contrário, também não poderemos ter segurança e defesa, se não estivermos num patamar interessante de desenvolvimento e bem-estar.

Essas duas coisas têm de ser compatibilizadas e compete aos governos fazer essa gestão. Por isso, têm de perceber que a defesa é uma política pública essencial, a par de muitas outras políticas públicas, e quem tem a responsabilidade coletiva, comum, tem de fazer, pelo menos, a gestão das prioridades. Mas esta situação é, como disse, infelizmente e muito tristemente uma situação real de que não devemos fugir.

São razões suficientes para que, na recente cimeira da NATO, se tenha tomado a decisão de gastar com a defesa 5% do PIB até 2035, o que fez que Portugal também já aumente essa despesa no próximo ano?

Sim, são razões suficientes, embora o que se passou na cimeira da NATO tenha outros contornos para além da evidência da razão. Porque, como sabe, o imperativo veio do lado dos Estados Unidos, concretamente do Sr. Trump. Ele impôs isso. Mas a circunstância é compatível com isso mesmo. E ele colocou as duas coisas, de um ponto de vista formal e até do ponto de vista de um interesse muito direto americano, dentro da perspetiva transacional que tem trazido para as relações internacionais, se é que ele tem uma compreensão clara do que são as relações internacionais... Mas, sim: a situação impõe esse aumento de despesa no sentido de gastar mais, gastar melhor, gastar mais em conjunto e gastar mais europeu. São os quatro critérios que temos procurado seguir em todos os Estados europeus, designadamente.

"A Europa tem de se rearmar, se quer prevenir a guerra"

Esse investimento na defesa fragiliza outros setores, como a saúde ou o social?

Não sei se fragiliza. Mais uma vez repito: compete aos governos gerir as coisas em todos esses setores. O que eu sei, por certo, é que a educação não fica melhor apenas com o critério de se pôr lá mais dinheiro. E, identicamente, a saúde também não fica melhor se o critério for apenas pôr lá mais dinheiro. É preciso racionalizar, gerir melhor.

Na defesa, depois de muito tempo em que, na Europa, não prestamos atenção à defesa, em função da presença massiva de militares americanos aqui na Europa e também das suas armas nucleares, o tempo agora está muito reduzido. Do ponto de vista das existências reais de militares e sistemas de armamento americano, aqui na Europa, mais do que está reduzido, agora... Nós temos a contingência de ficar mesmo anulado..

E as ameaças de Trump continuam...

As ameaças de Trump, de um lado, e as ameaças do outro lado, do Leste. E também as ameaças do Sul e do Sudeste porque nós, europeus, não podemos apenas, infelizmente, mais uma vez, olhar apenas para a Ucrânia. É evidente que a Ucrânia é, certamente, o quadro mais dramático e mais visível, mas nós temos toda esta corda do Norte da África e, imediatamente, antes o SAEL e também na faixada Leste do Mediterrâneo situações tremendas de tensão, de instabilidade, de injustiça social, etc. Tudo isso é gerador de grandes ameaças sobre a Europa e a Europa tem de pensar em todo esse quadro, pois cada um pode pesar diferentemente nas ameaças daqui ou dali. E a Europa também tem de entender que, infelizmente - e eu já usei muitas vezes a palavra infelizmente, mas talvez corresponda ao nosso momento - está hoje bastante sozinha nesta situação e, por isso, tem de olhar por si própria.

"A situação impõe esse aumento de despesa no sentido de gastar mais, gastar melhor, gastar mais em conjunto e gastar mais europeu"

Defendeu em julho, num seminário sobre a economia de defesa organizado pela Associação Industrial Portuguesa e pela EuroDefense, a criação de uma direção-geral de Armamento com autonomia no Ministério da Defesa. Porquê?

Já está criada. Porque, no período da troika, no infeliz período da troika, houve uma tese geral que percorreu toda a administração pública de amalgamar direções-gerais e reduzir quadros dirigentes. E no Ministério da Defesa, onde havia, salvo erro, quatro ou cinco direções-gerais, passou-se para duas: uma direção-geral de política, muito diferenciada, e, depois, tudo o resto - o pessoal, as infraestruturas, o armamento - foi amalgamado numa direção de recursos. Ao longo destes últimos, 10-12 anos, verificou-se que isso não funcionava bem.

O armamento e o equipamento, tal como as infraestruturas, de resto, mas designadamente o armamento e o equipamento têm uma dinâmica e uma realidade que são diferentes, muito diferentes das questões do pessoal. Por outro lado, de um ponto de vista prático, as questões do pessoal, normalmente, ganham muito justamente prioridade. E isso agravava a gestão do armamento e do equipamento. E ainda, finalmente, se me permite, porque a dinâmica do armamento e do equipamento tem uma enorme dimensão internacional, isso convida, como acontecia no passado, a uma direção-geral autónoma. Congratulo-me muito por isso ter sido muito compreendido. Necessariamente, não foi por aquilo que eu disse que foi entendido, mas era entendido por outras pessoas e ainda bem. E a direção-geral já está criada.

"A educação não fica melhor apenas com o critério de se pôr lá mais dinheiro. E, identicamente, a saúde também não fica melhor se o critério for apenas pôr lá mais dinheiro. É preciso racionalizar, gerir melhor"

O Papa alerta para a relação entre os povos baseada não no direito, na justiça e na confiança, mas no medo e também no domínio da força. O conflito na Ucrânia e em Israel são exemplo disso?

São absolutamente exemplos disso. Estamos a viver um tempo em que voltou a prevalecer a força e isso não é um tempo interessante para os homens e para o mundo, em geral. Nós tínhamos uma esperança muito grande, todos, com certeza, de que os tempos seriam outros e que as ideias da cooperação e as ideias do multilateralismo, da troca entre os povos, da ajuda ao desenvolvimento prevaleceriam. E o que verificamos é que, infelizmente, não é assim. O mundo internacional é sempre regulado pelas pessoas, por mais que haja ideias que prevalecem em determinadas épocas. Aparecem, depois, pessoas que alteram completamente esse entendimento. Hoje em dia, temos líderes internacionais com perspetivas muito singulares, muito preocupantes, a meu ver, muito erradas e negativas. E eles condicionam a situação no mundo.

Esvaziou-se, de alguma forma, o conteúdo da diplomacia? Como avalia o comportamento da comunidade internacional na gestão destes dois conflitos por exemplo?

Tem sido muito interessante observar o baile da comunidade internacional no sentido de uma certa “dança” que tem havido.

Nós temos, realmente, dois grandes protagonistas: os Estados Unidos e a China. E a China faz a sua afirmação de uma maneira muito tranquila, muito carregada da ambiguidade construtiva e, obviamente, em todo o caso, não podemos esquecer os objetivos da China: vir a ser - e a curto prazo sê-lo-á - uma superpotência próxima dos Estados Unidos. Hoje, já é uma superpotência, mas ainda temos de reconhecer alguma decalagem - em algumas áreas, não em todas - em relação aos Estados Unidos da América. Essas duas partes condicionam muito isso.

Depois, temos outros países, aquilo que, a meu ver, já não faz muito sentido de existir, que são os BRICS, e também uma outra organização muito fluorescente na parte leste do nosso planeta, a Organização de Passo Grande e Cooperação de Shanghai. Todas essas organizações tiveram recentemente cimeiras a fazerem declarações muito evidentes de afastamento dos tradicionais valores ocidentais: uma certa, relativa e não completa identificação com a China e uma afirmação mais misteriosa ainda de uma coisa que eu, francamente, não sei o que é nem quem representa, que é o Sul Global, juntando esse Sul Global a este cortejo de entidades no mundo que se afasta dos valores do Ocidente para preferir precisamente o reconhecimento da força. Tudo em nome de uma situação de injustiça que até pode existir, mas que, certamente, não é pela força que será corrigida. No meio disto tudo, temos a Europa muito sozinha, depois de muitas décadas de distração, para ser simpático, em relação às questões da segurança e defesa, mas agora a perceber que tem realmente que acordar.

Portanto, com certeza que sempre é muito importante e indispensável que haja a diplomacia, mas a verdade é que a diplomacia pode ser exercida simplesmente com ações de outra natureza: estou a pensar, por exemplo, na dissuasão. Nós precisamos de dissuasão na Europa e é uma coisa que nós aprendemos com algum desencanto, e é pena, porque isso já tem sido aprendido assim nos anos 50 no século passado... Mas, depois, esquecemos todos que a componente nuclear não dissuade o convencional, de todo. Por causa da questão da proporcionalidade no cortejo de razões negativas que, justamente, se associam às armas nuclear. A Europa tem de se armar de facto, se quer prevenir a guerra. Isso é um propósito europeu

"A Europa também tem de entender que (…) está hoje bastante sozinha (…) tem de olhar por si própria"

Falemos um pouco do perigo da inteligência artificial. O Papa afirma que “constatamos que os recentes avanços tecnológicos e a aplicação das inteligências artificiais no âmbito militar radicalizam a tragédia dos conflitos armados". Receia que possamos estar a reforçar as condições para a guerra?

Certamente. Hoje em dia, sabemos todos que há uma ideia de que é possível conduzir guerras ditas limpas, em que não há baixas. Isso é, em primeiro lugar, um verdadeiro mito e, depois, um enorme perigo, na minha opinião. Mito porque essa ação apoia-se em informações e as informações por vezes estão erradas. Essa ação contém, naturalmente, erros e isso também a afasta desse profissionalismo que alguns vão ver nela. Mas as razões mais sérias são que esse tipo de perspetiva de uma guerra limpa e sem baixas, determinada apenas por carregar num botão a milhares de quilómetros do decisor e a milhares de quilómetros do objetivo, tem duas potenciais consequências muito preocupantes, no meu entendimento: a primeira é que banaliza o recurso à guerra, porque é fácil mandar alguém carregar no botão - é à distância não se dá por isso; a segunda é porque também conduz e convida a uma menor responsabilização dos responsáveis políticos. Se um responsável político que tiver de decidir enviar uma divisão ou duas para uma zona qualquer de combate pensa, procura fazer o cálculo da situação e as baixas que pode ter, como é que isso atinge os objetivos e se esses objetivos são verdadeiramente importantes. Mandar a alguém carregar no botão a milhares de quilómetros de distância é muitíssimo tentador e muito distante da ideia de profunda responsabilização dos líderes políticos. Isso, francamente, é uma coisa que me preocupa muito.

É evidente que estamos no princípio desse tempo dito das guerras limpas e, porventura, não temos ideias muito claras sobre como as regular e limitar. Mas, mais cedo ou mais tarde, haverá uma preocupação de as regular e limitar. Até lá, é preciso que estejamos atentos e que saibamos que elas não são tão limpas quanto isso.

"Há uma ideia de que é possível conduzir guerras ditas limpas, em que não há baixas. Isso é, em primeiro lugar, um verdadeiro mito e, depois, um enorme perigo"

Leão XIV não foge também da questão da utilização da religião para justificar ações e decisões. O Papa diz que, infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo arrastar cada vez mais as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. É um perigo em que caem cada vez mais as sociedades ocidentais, vítimas da radicalização deste discurso político?

Eu diria que todos somos vítimas potenciais desse radicalismo. A questão é saber que quem segue esse caminho são sempre pessoas radicais. Nenhuma religião, no meu entendimento, das grandes religiões entenda-se, não de seitas avulso que há por esse mundo de fora, nenhuma das grandes religiões pode ser acusada de ser belicista e incitar à violência por aí fora. Mas em todas elas há leituras possíveis que convidam a isso.

Nós temos hoje o caso mais manifesto de grupos islamistas que tomam essa doutrina como boa e que causam a perturbação que causam, e da qual as primeiras vítimas são eles próprios, embora não se dê muito conta disso. Em todo lado, a ideia do povo eleito é uma ideia tremendamente perigosa e está fundada onde? Está fundada na religião. E nós, na fé cristã, também temos grupos radicais, felizmente mais marginais do que noutras religiões, mas também os temos.

E em Portugal há esse risco?

Eu creio que é um risco de se ligar isso à ideia de terrorismo. Com certeza que aqui, em Portugal, como em todas as sociedades europeias, o risco de terrorismo existe. Não é possível deixar de dizer que duas coisas convivem bem uma com a outra, a realidade que a nossa sociedade é particularmente segura por comparação com outras sociedades europeias. Outra realidade é que, com certeza que pode haver terrorismo em Portugal: hoje, amanhã, para a semana... É sempre potencial. Imaginar o contrário é muitíssimo perigoso.

"Nenhuma das grandes religiões pode ser acusada de ser belicista e incitar à violência"

Afirma o Papa, também na mensagem para 1 de janeiro, que a justiça e a dignidade humana estão mais do que nunca expostas ao desequilíbrio de poder entre os mais fortes. Corremos o risco de acentuar a relação internacional na tensão entre dois blocos, voltar essa tensão entre os dois blocos: Estados Unidos e a Rússia?

Tenho a impressão de que não vamos caminhar para dois manifestos superpoderes, os Estados Unidos, por um lado, e a China, por outro, não propriamente para um tipo de confronto, mesmo que passivo, basicamente ideológico, como aconteceu no tempo da Guerra Fria, mas é muito verdade aquilo que o Papa diz. Nós estamo-nos a afastar de padrões de justiça e da ideia de paz ligada à justiça porque essa é a boa e construtiva ideia de paz. Não chega, não é suficiente entender a paz como ausência de guerra, ausência de tiros. É preciso entender a paz como algo que se confunde com a justiça. Não a dos tribunais, mas sim a justiça assente na não discriminação, num plano político, económico e social. E o mundo está, todos sabemos, como muita pena, carregado de discriminações. As tensões que hoje existem, muito assentes no exercício do poder, carregam, sobrepõem-se a essas visões e acentuam as discriminações.

O motivo que nos trouxe para esta entrevista foi a mensagem do Papa Leão XIV, a Mensagem para o Dia Mundial da Paz, e sabemos que é um "colecionador" dessas mensagens. Gostava que nos explicasse o porquê dessa sua preferência... E, já agora, para finalizarmos, qual é o papel das religiões no processo do desarmamento integral proposto desde o Papa João XXIII na “Pacem in Terris”?

Uma pergunta muito interessante... O papel das religiões é imensamente importante. Já lá vai o tempo em que se brincava um pouco, mas também por outro lado se lavava a sério, aquela estúpida afirmação de Estaline quando perguntava quantas divisões tem o Papa? O Papa tem muitas divisões e as divisões que correspondem às nossas consciências. E quem diz o Papa diz outros líderes religiosos equivalentes. Aqui, há uma dificuldade particular no mundo sunita, onde não há propriamente a figura de um “primus” na visão sunita da igreja.

Porquê que eu coleciono essas coisas? Porque há muitos idos anos, nos anos 80 e pouco - tudo na minha vida já está nos idos atrás... - há muitos anos, eu ensinava, ou tentava ensinar estratégia e geopolítica, no então Instituto de Altos Estudos Militares e tudo era construído e vinha assim de trás nesta perspetiva da guerra do exercício militar, da dissuasão, da "détente", da coexistência pacífica, valores todos desse período histórico em particular na Europa. A mim interessou-me a ideia da paz e fui despertado para isso por expressões opiniões e pensamentos que emanaram da Igreja, designadamente de Paulo VI.

A Igreja começou, nessa altura, com o Paulo VI, a estudar a paz a preocupar-se com a paz e a fazer pastoral sobre a paz. E o dia 1 de janeiro, Dia Mundial da Paz, é uma expressão disso mesmo. Só mais tarde é que a Academia, através de um norueguês, Johan Galtung, começou a teorizar a paz, inspirando-se muito naquilo que, entretanto, já tinha sido a pastoral da Igreja. Nessa altura, interessei-me imenso, comecei a ensinar a paz. Talvez tenha sido o primeiro a ensinar a paz em Portugal, nesta área de estudos de segurança e de relações internacionais. Desde então, no primeiro de janeiro de cada ano coleciono a mensagem. Não sabia, até ontem, que a mensagem do Papa Leão pensada para o dia 1 de janeiro já estava disponível, mas, graças à vossa informação e ajuda, já a tenho e já li. E claro que eu vou juntar as outras todas.

E hoje tivemos o privilégio de falar com um especialista em mensagens para o Dia Mundial da Paz... Muito obrigado...

Pena não ser especialista na paz…

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