09 jan, 2026 - 06:30 • Ângela Roque
O bispo das Forças Armadas e de Segurança, D. Sérgio Dinis, lamenta o clima de intimidação e ameaça com que os EUA entraram em 2026, a começar com a intervenção na Venezuela, onde espera que, "tão breve quanto possível", o poder "seja devolvido a todos os venezuelanos".
Em entrevista à Renascença, D. Sérgio Dinis defende que "quando a força substitui o Direito, não nasce a ordem, nasce o medo, e o medo é um péssimo inimigo da paz".
O prelado admite que pode estar em causa a sobrevivência da NATO e até da ONU, mas considera que, para já, estas instituições "ainda são barreira contra a lei da selva" em muitos locais do mundo, como aqueles onde as duas instituições têm militares portugueses ao serviço.
O novo contexto geopolítico vem exigir mais de todos, incluindo da Igreja. "Estamos perante o desafio de não nos habituarmos ao inaceitável", sublinha D. Sérgio Dinis.
Como bispos das Forças Armadas e de Segurança, como tem acompanhado os desenvolvimentos na situação geopolítica internacional?
Acompanho com atenção e preocupação, sem pôr de lado a oração. O mundo onde vivemos torna-se cada vez mais inseguro, é uma realidade. Por isso é minha preocupação, a que dou atenção, na medida em que vou acompanhando também os nossos militares, as nossas forças nacionais destacadas, que servem o mesmo mundo onde sofrem famílias concretas.
A Igreja não entra na geopolítica como quem escolhe lados, mas como quem guarda um critério essencial: a defesa da pessoa humana, a sua dignidade e o bem comum. Por isso, tenho de ler os acontecimentos presentes com realismo, mas também com consciência moral. Quando se normaliza a violência, o medo torna-se política e, nesse caso, a política perde, eu diria, a alma.
Gostaria de lembrar a mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz, dia 1 de janeiro, na qual insiste que a paz não é um slogan, é caminho, é presença e responsabilidade. E começa por um desarmamento interior, que impede que o inimigo seja reduzido a uma coisa.
Em resumo, diria que, como bispo, não faço geopolítica, faço memória da dignidade humana e lembro que a primeira vítima da guerra é sempre o pobre. Acompanho com realismo, com oração, sem partidarismos, mas a partir da dignidade da pessoa humana, do bem comum e de uma paz justa.
Quando uma potência muda de tom e recorre à ameaça ou à força, isso tem sempre um efeito contagioso
Os acontecimentos a que temos assistido têm levado a várias reações: surpresa, estupefação pelo que se está a passar, medo e incerteza em relação ao que aí virá. Face à postura dos Estados Unidos, quer em relação à intervenção na Venezuela quer às ameaças a outras regiões, receia que isto seja o fim da ordem mundial, como a conhecemos, e até das suas instituições, como a NATO ou as Nações Unidas?
Sem dúvida nenhuma que estamos a assistir a acontecimentos que, às vezes, nos deixam estupefactos, ainda que tenham sido anunciados, por assim dizer. Mas nós não os tenhamos levado muito a sério.
Recordo algo essencial que o Papa Leão XIV, no passado dia 4, falou sobre a Venezuela, referindo que o bem do povo deve prevalecer, com superação da violência, enveredando por caminhos de justiça e paz, e que é preciso garantir a soberania de qualquer povo, de qualquer Estado, respeitar o Estado de Direito Constitucional e um respeito inquebrantável pelos direitos humanos e civis, e também apelou à atenção aos mais pobres.
Quando uma potência muda de tom e recorre à ameaça ou à força, isso, a meu ver, tem sempre um efeito contagioso. Outros vão imitar.
As instituições internacionais, obviamente que são imperfeitas, mas são uma barreira contra a lei da selva
Esse é um dos perigos?
Exatamente, até no nível da nossa sociedade, das nossas relações sociais vamos mudar a nossa postura. Torna-se contagioso, o mundo entra numa espiral de violência.
As instituições internacionais, obviamente que são imperfeitas, mas são uma barreira contra a lei da selva, como é a ONU. Temos de pedir, obviamente, às grandes potências que tenham respeito pela soberania dos povos, pelo Estado de Direito e pelos direitos humanos, e que se procure justiça e paz, não a vitória de uns sobre os outros.
Volto a mencionar aqui a mensagem de Leão XIV para o Dia Mundial da Paz, em que alerta para a tentação de viver sob ameaça permanente, fazendo do rearmamento e do medo um modo normal de governar.
A Igreja não valida ordens só porque são eficazes, a Igreja pede respeito pelo Direito Internacional, pela soberania de cada povo, que se viva em Estado de Direito, que haja um respeito muito grande pelos direitos humanos e alerta para esta lógica do mais forte. Quando a força substitui o direito, não nasce a ordem, nasce o medo, e o medo é um péssimo inimigo da paz. Alguém sob medo não vive nem provoca a paz.
A Igreja não tem exércitos, mas tem uma missão - impedir que o coração humano se renda ao ódio e à violência
De que forma é que esta nova realidade também está a desafiar a Igreja como defensora da paz? Exige que seja mais atenta e interventiva?
Sem dúvida. Antes de mais, todos nós que formamos a Igreja, todos nós batizados, estamos perante o desafio de não nos habituarmos ao inaceitável, de não nos acomodarmos.
A notícia vai chegando, vai sendo repetida e nós, muitas vezes, vamos aceitando simplesmente. E não nos podemos acomodar! Temos, de facto, de partir para uma paz, como tem falado o Leão XIV, "desarmada e desarmante". Desarmada porque não nasce do ódio, não nasce da força das armas, da força militar, e desarmante porque quebra a lógica da humilhação e da vingança. Por isso, a Igreja enfrenta novos desafios, a Igreja é chamada a ser consciência, a ser ponte e, como dizia o Papa Francisco, a ser um hospital de campanha. Pela oração, mas também pela denúncia profética, sendo um verdadeiro hospital de campanha pela proteção dos mais vulneráveis e, acima de tudo, procurando formar consciências e educando para a paz.
A Igreja tem de ser profética, denunciar idolatrias, principalmente a idolatria do poder, do dinheiro, da segurança absoluta. E, ao mesmo tempo, cuidar, olhar para os feridos, acompanhar os refugiados, apoiar as famílias. A Igreja não tem exércitos, mas tem uma missão - impedir que o coração humano se renda ao ódio e à violência.
Vaticano
Leão XIV rezou o Angelus na varanda da Basílica de(...)
Sabemos que o estilo do atual Papa é diferente do anterior. A diplomacia do Vaticano pode ter um papel importante a desempenhar?
Obviamente que o estilo de cada Papa pode variar, mas eu julgo que o núcleo, o fundamental, o essencial é o mesmo. A mediação, o diálogo, o respeito pelo direito internacional. Os Papas têm, diria, temperamentos diferentes, mas a linha de fundo é contínua. E nós sabemos que a Santa Sé, de uma forma muitas vezes discreta, procura abrir portas onde outros só veem muros.
Mais uma vez recorro à mensagem para o Dia Mundial da Paz, em que Leão XIV nos desafia a todos ao diálogo e à sinceridade do coração. Ou seja, a um diálogo baseado na verdade. É isto que o mundo hoje não entende, e é lamentável que três dias depois de termos celebrado o Dia Mundial da Paz tenhamos mais um foco de violência.
Estamos todos na expetativa do que vai acontecer concretamente à Venezuela, mas esperamos que, tão breve quanto possível, de forma muito serena, o poder seja devolvido a todos os venezuelanos, que de forma livre se possam pronunciar na eleição de um governo legítimo e democrático.
Referiu-se ao acompanhamento que a Igreja faz das forças militares e de segurança. Sabemos que muitos soldados portugueses têm estado destacados em vários cenários de guerra, precisamente servindo nestas instituições que agora estão de alguma forma em risco, como a NATO e as Nações Unidas. Já teve oportunidade de falar sobre esta situação com alguns militares? Qual é o ambiente que se vive, como é que olham para o que se está a passar?
Os militares portugueses julgo que não vivem numa bolha, vivem num realismo muito grande, acompanhando toda a situação que se vai desenvolvendo a nível mundial. Lembro que o Papa Francisco falava de uma "terceira guerra mundial aos pedaços". O que se passa, por exemplo, em Moçambique, não é a mesma situação que se passa neste momento na Venezuela. Ou os nossos militares que estão em treino na Roménia, não estão na mesma situação dos que estão na República Centro-Africana.
Portugal ainda continua a acreditar na ONU, na NATO, nas forças europeias que estão envolvidas em conflitos e sempre com este espírito de promover a paz e defender os fracos. É isso que ocorre na República Centro-Africana, é isso que ocorre ao ajudarmos a preparar os militares moçambicanos para o combate ao Estado Islâmico e, no fundo, ao terrorismo, principalmente na zona de Cabo Delgado e de Nampula.
Os soldados, os militares, as forças armadas portuguesas não baixam os braços neste trilho, não de procurar prepararem-se para a guerra, mas de defenderem a paz.