Igreja Católica

Padre aos 43 anos: "Não olhem para mim como um super-homem"

21 jan, 2026 - 18:37 • Ângela Roque

João Ensina é professor de formação e sempre foi um homem de fé. Em entrevista à Renascença, fala do seu percurso vocacional. Ordenado sacerdote salesiano a 17 de janeiro, diz que quer ser um padre presente e “disponível”. E não esconde a emoção por, no próximo domingo, dia 25, ir celebrar Missa na sua terra natal, Campo Maior. “É uma grande agitação aqui dentro do peito”.

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Padre aos 43 anos: "Não olhem para mim como um super-homem"
Padre João Ensina entrevistado por Ângela Roque

A ordenação como padre é a mais recente etapa da vida de João Luis Cunha Ensina, de 43 anos. Professor de Educação Moral e Religiosa Católica, deu aulas em escolas públicas de Évora e Portalegre, e na Universidade Católica de Lisboa, onde se formou.

Em entrevista à Renascença conta que a descoberta do seu caminho vocacional foi feita em várias etapas, mas a experiência na paróquia salesiana a que pertencia, quando viveu em Évora, terá sido decisiva.

Em 2018 fez a sua profissão religiosa como Salesiano Dom Bosco, em Roma. A Profissão Perpétua foi em 2023, já no Estoril. No último sábado, 17 de janeiro, foi ordenado sacerdote na igreja do Colégio Salesiano de Lisboa.

Mais do que “tardia”, diz que a vocação consolidou-se “no tempo certo”. Admite que ser padre hoje “é um desafio”, e espera conseguir cumprir o mais importante que é “estar disponível para ouvir e para acompanhar”.


É natural de Campo Maior, professor de formação e, num percurso vocacional mais tardio, tornou-se padre agora, aos 43 anos de idade. Era uma vocação adormecida?

Não sei se era adormecida. Eu costumo dizer que todo o meu percurso foi sendo muito bem vivido. Ainda esta manhã estive toda a manhã a falar sobre a minha vida aos alunos do secundário, e disse que estou muito grato por tudo o que foi esta experiência. Não retiraria aqui grandes passos-chave. Aquilo que vivi neste fim de semana foi algo muito aguardado, é verdade, mas não tardio.

No tempo certo?

Foi no tempo certo, no tempo justo. Sinto isso.

Esteve sempre ligado aos Salesianos, onde se consagrou?

Não, em Campo Maior não há Salesianos. Eu fui seminarista diocesano, nos anos 2001 a 2004, já não sei precisar bem. Estive dois anos no Seminário Maior de Évora, acabei por sair, tendo em conta o caminho que fui pensando e discernindo. Saí e continuei a estudar Teologia, depois de sair do Seminário. Quando terminei o curso comecei a dar aulas, mudei de casa, comecei a ter outra autonomia, deixei de ser estudante e comecei a ganhar o meu ordenado, e a paróquia da minha residência era dos Salesianos. A minha ligação começou aí.

Mas, houve algum momento definitivo em que percebeu que se calhar fazia sentido ser padre?

Não logo o ser padre. Eu sempre estive ligado à Igreja, isso é público e muito claro na minha vida. Acontece que comecei a dar aulas numa escola com algumas características interessantes e desafiantes, que acabaram por ir ao encontro daquilo que era a obra inicial de São João Bosco. E a ligação começa aí, também na área da paróquia. Depois com questões académicas, comecei a estar mais próximo de alguns salesianos, com quem fiz alguns estudos, um mestrado na Católica, fui-me aproximando e percebendo que aquilo que era a minha vida.

Apesar de estar muito feliz - como disse, tenho uma vida abençoada e cheia de graça -, achei que poderia dar mais e sentir-me mais realizado dedicando-me totalmente ao serviço da Igreja. Porque é que eu disse 'padre logo, não', porque a vocação salesiana é exatamente isso: a vocação não é ser padre, a vocação é ser salesiano, alguém que entrega a sua vida à educação dos jovens.

E há consagrados nos Salesianos, sem serem sacerdotes.

É uma minoria, sim, mas isso sempre foi desde as origens do fundador, de São João Bosco. Na congregação, em toda a nossa história, temos salesianos, ou seja, podemos dizer que a vocação salesiana é uma, e que se pode ver em duas perspetivas: uma como padre, ministro ordenado, e outra como leigo consagrado. Foi o que estive a dizer esta manhã aos nossos alunos.

Explicou essas diferenças...

Sim, essas diferenças. A vocação salesiana é isto. Na comunidade a que pertenço, aqui em Lisboa, temos três irmãos que são salesianos, e temos os outros, entre aspas, que são padres.

Ser padre hoje? "É um desafio (...) mais do que andar a correr para trás e para diante a fazer coisas, é estar disponível para ouvir e acompanhar"

O seu percurso mostra também que a opção pela vida consagrada ou pelo sacerdócio pode surgir em qualquer altura. Ser padre mais velho acha que é uma escolha mais consciente? Ou, até pelo seu percurso, acha que não, é só uma fase diferente?

Talvez as duas. Mais consciente, sim, porque eu com 43 anos tenho mais consciência.

Tem de se ter mesmo muita certeza do que se quer.

Mais do que quando se tem 25. Não estou aqui a desvalorizar, de todo, porque cada um tem a sua história de vida e (é preciso) sabê-la viver, agradecer, dar graças por este 'sim' que damos.

Neste momento da minha vida estou consciente daquilo que quero ser, com todas as coisas que isso acarreta, os desafios, as aventuras que isso comporta.

Espera que o seu exemplo seja inspirador? Disse há pouco que esteve hoje de manhã a falar aos jovens do seu percurso e da sua história de vida... fazer pensar, pelo menos?

O que eu digo sempre aos jovens com quem trabalho, com quem faço caminho - e voltei a dizer isto no sábado, na ordenação - é que não olhem para mim como um super-homem, ou com super-poderes. Porque às vezes pensam 'ah, é padre, agora é mais importante que nós'. Ser padre é alguém que não deixa de ser homem, com todas as questões humanas, fragilidades, mas que vejam nisto o percurso de alguém que está disponível a dizer 'sim' a Deus, ao serviço da Igreja, mas que não deixa de ser homem. Então, o que pedi aos jovens foi que me acompanhem na oração e na vida, para que eu possa ser fiel a este ministério. Se puder ser exemplo para eles, ótimo, mas que seja um caminho consciente e que seja um exemplo de alguém que é uma pessoa, é um ser humano.

Como é que encara esta missão de ser padre no mundo de hoje, que é tão imprevisível e tão incerto?

É um desafio. A minha experiência mostra que passa por ter muita disponibilidade. Eu diria que, mais do que andar a correr para trás e para diante a fazer coisas, é estar disponível para ouvir e para acompanhar.

Baseado naquilo que têm sido estes dois anos em que estou em Lisboa, é o segundo que estou, e também com o percurso que tenho do meu passado, é, sobretudo e fundamentalmente, estar muito atento para perceber a realidade dos jovens neste momento onde nós atuamos, na que é a minha realidade atual. É ter disponibilidade para ouvir e perceber bem o que é que se sentem as pessoas e os jovens no mundo de hoje e o que vivem.

Conversamos dias depois de ter sido ordenado padre, em Lisboa. No próximo domingo, dia 25 de janeiro, vai celebrar missa na sua terra natal, em Campo Maior, no Mosteiro da Imaculada Conceição. Como é que perspetiva este momento? Estão a ser dias muito emocionantes?

Não quero pensar muito porque, como deve calcular, isto é uma grande agitação emocional aqui dentro do peito. Vou celebrar para a minha terra natal, a terra que me viu nascer, que me viu crescer, e não sei o que é que vou esperar.

Depois, também vou celebrar num sítio que é muito querido, muito especial e então.... não sei... vai ser desafiante, emocionalmente vai ser uma aventura.

Mas, certamente que será um momento feliz?

Sim, sim, sem sombra de dúvida? Isso, sim.

Descobrir a vocação. "Não façam o caminho sozinhos, não tenham medo de procurar alguém que vos ajude a perceber o que é que realmente está guardado para cada um"

Disse há pouco que tem estado ligado nos últimos dois anos à Comunidade Salesiana de Lisboa. É aí que vai ficar? Já sabe o que é que vai fazer?

Penso que ficarei aqui nos próximos tempos, pelo menos no próximo ano. Essas negociações, o voto da obediência e o diálogo com o Superior provincial, é a partir desta altura que se começa a redesenhar as comunidades. Mas, tendo em conta que estou há pouco tempo em Lisboa, penso que irei ficar.

Porque as missões têm sempre algum tempo de permanência, embora mudem muito, como todas as congregações?

Exatamente.

A educação é central para os salesianos e está num dos maiores, senão o maior colégio dos salesianos, em Lisboa. Vai ser padre e professor?

Nas outras casas por onde estive, numa fui diretor pedagógico, noutra professor e diretor pedagógico, e professor e coordenador de pastoral. Ao vir para Lisboa, quando me foi questionado se eu queria continuar a lecionar - que é uma coisa de que eu gosto bastante -, tendo em conta o tamanho daquela casa, eu pedi para me dedicar só mesmo à pastoral do colégio, para tentar acompanhar melhor e estar mais disponível para ouvir e sentir o pulsar dos nossos alunos. Porque, se der aulas, tenho que me dedicar a prepará-las, e não consigo estar disponível para dar resposta a outras situações. Então, a prioridade é mesmo acompanhar, estar presente em todos os eventos (pastorais) da escola.

E isso é muito importante, não é? A parte pastoral? Referi há pouco esta incerteza que vivemos no mundo… acompanhar os jovens neste momento exato também é muito desafiante a este nível, não só da educação formal como da educação cristã?

Sim, sim, porque estão cheios de perguntas. Alguns não querem respostas, outros fogem, mas aquilo que eu sinto é que eles têm uma sede de saber. Porque hoje a sociedade responde a tudo muito facilmente, rapidamente, mas não sacia, não alimenta. E eles têm este desejo de querer mais. Então, o desafio é tentar perceber o que vai naquelas cabeças, porque eles são muito exigentes, talvez mais o secundário, porque estão numa idade em que é mais desafiante.

Também falei para os alunos do primeiro ciclo e eles fizeram uma festa, porque o diretor de ciclo apresentou-me, “a semana passada tínhamos aqui o diácono João, hoje temos o padre João', e é uma festa, embora possam não perceber muito bem essa transformação, porque não se vê. Mas, no secundário, e algum terceiro ciclo - sétimo, oitavo e nono ano -, já começam a colocar algumas questões, e procuram-nos muito, quer a mim, quer à minha equipa, que tem mais três leigos. Procuram-nos muito, porque precisam de respostas, e respostas que a sociedade não lhes dá. E encontram em nós a resposta, o conforto, o consolo de alguém que está ali para eles, para aquele momento, sem avaliações, sem a responsabilidade de ter um teste, de ter de responder a perguntas exatas. Estamos ali para os ouvir, para os perceber e poder construir com eles o plano pastoral da escola, para podermos fazer tudo em conjunto com a direção pedagógica. Começámos a fazer isso o ano passado.

É uma dimensão importante num colégio como o dos Salesianos?

Muito, muito. Nem faz sentido não pensar nessa questão, porque nós educamos evangelizando e evangelizamos educando. É levar a nossa mensagem dentro da liberdade de cada um, porque nem todos são católicos - essa é a história da nossa congregação, o nosso carisma é para todos - e temos de tentar perceber e ir ao encontro deles, com o corpo docente, perceber as respostas a que temos que chegar para dar aos nossos alunos.

Conversamos a propósito do seu percurso vocacional e por ter sido ordenado agora por estes dias. Pergunto-lhe, a fechar, se quer deixar alguma mensagem, sobretudo aos jovens que já tenham pensado poder optar por este caminho vocacional?

O que costumo dizer aos jovens que me conhecem, um bocado ao meu estilo, é este conselho que dou sempre: quer ponham na balança a vida consagrada, ou não, que procurem adultos que os acompanhem no seu crescimento pessoal - um padre, um leigo, uma irmã, um consagrado, que os ajude a perceber. Que não façam este percurso sozinhos.

Volto outra vez à escola: nós temos os professores que nos ajudam a crescer enquanto pessoas, e alguns na fé também. Então, não façam o caminho sozinhos, não tenham medo de procurar alguém que vos ajude a perceber o que é que realmente está guardado para cada um, qual é o caminho que querem seguir e que querem concretizar para serem plenamente felizes.

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