04 fev, 2026 - 22:08 • Aura Miguel
O arcebispo Andrés Carrascosa Coso, de 71 anos, é o novo núncio apostólico em Portugal. Foi até agora representante do Papa no Equador. Espanhol, natural de Cuenca, está ao serviço da Santa Sé, há mais de 40 anos, com uma vasta experiência em contextos muito diferentes.
Foi diplomata em África, nos países da Escandinávia, trabalhou na Secretaria de Estado do Vaticano e em Genebra, junto das agências das Nações Unidas, passou pelo Brasil e Canadá e também foi núncio no Congo, no Gabão e no Panamá.
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Em entrevista à Renascença, um dia depois de ter aterrado em Lisboa, D. Andrés Carrascosa Coso fala do amigo Robert Francis Prevost e recorda a emoção com que assistiu à sua nomeação como Papa Leão XIV.
O novo núncio apostólico em Portugal quer visitar todas as dioceses para conhecer a realidade da Igreja e do país.
Atento à atualidade portuguesa, o arcebispo espanhol vai apresentar credenciais ao Presidente da República na próxima segunda-feira e, no dia seguinte, desloca-se a Leiria e Fátima "porque é a região" mais atingida pelos efeitos do mau tempo.
Obrigada por ter, na sua primeira saída da Nunciatura, vindo à Renascença para esta conversa.
É um grande prazer.
Já conhecia o nosso país?
Sim, mas muito brevemente. Passei por aqui três vezes, não posso dizer que o conheço bem.
É a primeira vez que temos um núncio apostólico espanhol…
Sobre isso, vão precisar um pouco de paciência (sorrisos). Para mim, é uma grande honra.
Como é que encara esta nova missão em Portugal?
Com grande paz, com liberdade interior. Escrevi uma carta ao presidente da Conferência Episcopal baseada nalgumas coisas interessantes que o Papa Francisco tinha dito aos núncios. Ele disse-nos: quando vocês chegam a um país, têm que desfazer as vossas malas para oferecer aquilo que vocês são e que levam; mas também para estarem livres para receber aquilo que o país onde chegam tem para vos ensinar. Esta é a minha atitude.
Tenho muito a aprender, eu vou tentar aproximar-me das pessoas, tentar compreender este país, conhecer a sua Igreja e ser a voz do Papa, que é aquilo que eu devo fazer. Eu não tenho agenda pessoal. E estive agora com o Papa Leão XIV, que conheço bem, desde os tempos do estudo.
Já conhecia o Papa antes?
Sim, fomos colegas de carteira, na mesma aula, nos estudos de direito. Então, venho com uma atitude de grande liberdade para me aproximar, para caminhar junto com esta Igreja, que é a minha Igreja.
Escrevi aos bispos para dizer que visitarei as dioceses, os institutos religiosos, os seminários, os mosteiros. Irei onde for convidado, mas não quero impor a minha presença
Nessa carta que escreveu aos bispos portugueses, disse que vem “com vontade de escutar e de aprender e de amar esta Igreja particular”. Como é que vai fazer isso, tem algum método?
Cada um tem o carácter que tem. Ajuda-me o facto de ter um carácter muito aberto e não ter dificuldade em entrar em contato com as pessoas. Por isso, em todos os países onde estive, como conselheiro (por exemplo, no Brasil, que tem 268 dioceses) e como núncio (comecei no Congo e no Gabão e depois no Panamá e no Equador) visitei todas as dioceses. Porque, se o representante do Papa não conhece o país, não conhece a Igreja onde está, não pode ser aquilo que deve ser. Então, escrevi aos bispos para dizer que visitarei as dioceses, os institutos religiosos, os seminários, os mosteiros. Irei onde for convidado, mas não quero impor a minha presença.
Como é que isso se faz? Não corre o risco de nestas visitas dizerem: “O que é que ele vem aqui fazer? Nós é que conhecemos isto há anos”. Não será uma imposição?
De facto, eu estou pronto a ir. Não quero impor. Mas também não é uma visita para fazer turismo. É uma visita para me aproximar, para ter um tempo com os padres da diocese, para poder conversar, escutar, perguntar, em profundidade. E também pretendo dar uma enorme importância à vida consagrada e aos leigos. Quero conversar e compreender o que os todos acham sobre a vida da diocese e a vida da Igreja.
Já fazia isso antes deste impulso sinodal?
Sempre o fiz. São 22 anos como núncio.
No fundo, esta relação do núncio com a Igreja local toca a questão mais complexa da relação da Cúria romana com a vida das dioceses. Aliás, o tema fez parte da agenda do último consistório extraordinário. A sua experiência implica uma disponibilidade total para ouvir, mesmo quando não concorda?
Claro. Eu tenho que escutar todo mundo. Por exemplo, um tema muito desconhecido na igreja, é todo o processo de consultas antes da nomeação de um bispo.
Sim, há muitas queixas por demorarem muito tempo…
Demora tempo se quisermos fazer bem. Entre os meus muitos defeitos, tenho aquele de consultar mais do dobro do que o núncio tem para a consulta. Carrego muito mais trabalho nas minhas costas, mas estou muito mais tranquilo, porque já Santo Agostinho dizia: “quem escuta mais, erra menos”. Então, escutar não quer dizer que se tenha que concordar com tudo o que escuta.
Depois, é diante de Deus que se deve fazer o discernimento. Ou seja, não se faz o discernimento sem escutar. Então, para mim, a primeira coisa é conhecer, é aproximar-me e tentar compreender.
A Cúria romana, fundamentalmente, conhece as coisas através dos núncios, mas devia conhecer também através dos bispos. Não é normal que, em Roma, escutem somente a voz do núncio, que vai lá uma vez por ano. Por favor, os bispos têm que ir
E a relação com a Cúria?
A Cúria romana, fundamentalmente, conhece as coisas através dos núncios, mas devia conhecer também através dos bispos. Não é normal que, em Roma, escutem somente a voz do núncio, que vai lá uma vez por ano. Por favor, os bispos têm que ir. A presidência da Conferência Episcopal deve lá ir conversar com o Papa, conversar com os dicastérios, porque é assim que deve ser.
Torna tudo mais objetivo…
Obviamente. Isso faz parte da sinodalidade, que é criar comunhão. Não é a comunhão daqueles que pensam do mesmo modo, é a comunhão entre diferentes, não somente pelo respeito, mas pelo amor recíproco, para se escutarem e, no final, tomar uma decisão. Quando o Papa tem que tomar uma decisão, não a toma sem escutar.
Não poderá haver um certo comodismo em ficar fechado na diocese e achar que “há tanto para fazer, que não vou a Roma para falar com o Papa"?
Sim, pode acontecer, mas isso é preguiça. Quando uma Conferência Episcopal tem um equipa, um presidente, vice-presidente, secretário-geral, devem todos assumir a responsabilidade de representar os seus irmãos. E devem colocar em Roma as suas prioridades, para que Roma saiba pela boca deles, aquilo que está a acontecer.
Portanto, o que o propõe é uma maior dinamismo dos próprios bispos em relação à Cúria…
Com certeza.
D. Andrés chega a Portugal num contexto político complexo e fragmentado, com eleições e também num momento de graves dificuldades materiais e humanas, causadas por fenómenos naturais. Neste caso, o que pode fazer um núncio?
Eu estou a chegar, tenho que compreender. Eu não posso pontificar, tenho que escutar. Pretendo acompanhar os grandes grupos dos média, para me ajudarem a compreender o vosso país. Essa é a atitude. Depois, estou a chegar num momento de crise complexa, a todos os níveis, uma crise social, com chuvas, ventos e desastres, com tantas dificuldades, mortos e feridos.
Vou apresentar cartas credenciais ao Senhor Presidente na próxima segunda-feira e, logo na terça-feira, vou estar em Leiria e em Fátima porque é a região mais atingida [pelo mau tempo]
Qual será a sua ação?
Como núncio, como um embaixador, devo primeiro apresentar cartas credenciais ao Presidente da República e, nas suas mãos, ao povo todo de Portugal. Até lá, não posso nem devo fazer visitas. Mas já marquei na minha agenda: vou apresentar cartas credenciais ao Senhor Presidente na próxima segunda-feira e, logo na terça-feira, vou estar em Leiria e em Fátima porque é a região mais atingida. Ou seja, no dia seguinte, já vou pôr os pés no terreno.
Abusos na Igreja? Sobre isso, temos que ter uma transparência total. Sempre uma grande transparência, respeitando todos, sobretudo as vítimas
Presumo que ainda não conheça os dossiers da Igreja em Portugal, um deles é o dos abusos…
Tem que ter paciência comigo, terei que o estudar. Mas já tratei desses assuntos nos países onde estive. Sobre isso, temos que ter uma transparência total. Sempre uma grande transparência, respeitando todos, sobretudo as vítimas, porque às vezes são as vítimas que não querem que os nomes apareçam. É uma questão muito complexa, mas estou acostumado a tratar desses temas e nunca vou olhar para outro lado.
Esteve com o Papa Leão, há poucos dias. Recebeu algumas indicações dele para Portugal?
Sim, conversámos. Percebi que ele vos conhece. Obviamente, há coisas muito delicadas e pessoais, que ele me encarregou. E eu não quis chegar a este país sem, em primeiro lugar, escutar o Papa, que aqui devo representar. Então, pretendo ser a presença dele. É isso que define um núncio, não é outra coisa.
Acha que o Santo Padre virá a Portugal no próximo ano? Todos nós o desejamos.
Ele já falou em Fátima… acho que foi no avião.
Foi quando saiu de Castelo Gandolfo. Perguntaram-lhe e ele falou em Fátima e disse que também quer ir a Guadalupe. Portanto, estão a chover convites de todo o lado.
Todo o mundo o está a convidar. Que ele vai vir, vai vir. Quando? Vamos ver porque a sua agenda não é simples.
Conhece o Papa há muitos anos. Tratam-se por tu?
Sim, não poderia ser de outra maneira.
Papa Leão XIV é a mesma pessoa que conheci no ano 1982. É uma pessoa profunda, que pensa as coisas
Quer contar-nos como é ele?
É a mesma pessoa que conheci no ano 1982. É uma pessoa profunda, que pensa as coisas. Primeiro estudou matemática, portanto, tem uma cabeça muito arrumada. Depois, filosofia, teologia e encontrámo-nos nas mesmas aulas de Direito. Ou seja, é uma pessoa muito lógica e, ao mesmo tempo, muito profunda. Não é pessoa de fazer grandes gestos e alguns jornalistas queixam-se de não dar primeiras páginas. Porém, é alguém que gosta de escutar.
Mas os seus discursos são apreciados fora dos media…
Uns dias atrás, um diplomata, alguém longe da igreja, falou-me de alguns discursos do Papa, sobretudo, o que ele proferiu na FAO, sobre a alimentação, onde sublinhou os grandes valores da civilização ocidental que não sabemos interpretar. Impressionou-me essa pessoa, afastado da Igreja, ter apreciado as palavras do Papa, proferidas com uma enorme liberdade interior, sem ofender ninguém. Acho que isso é um presente de Deus para a humanidade, neste momento, em que não temos grandes líderes humanos…
Nomeação do Papa? Fiquei muito, muito emocionado. Chorei, chorei, chorei. E, ao mesmo tempo foi um ato de fé porque, mais tarde, na primeira vez que o vi, assim à minha frente disse-lhe: “tu és Pedro, tu!”
Quando o Papa foi eleito, onde é que estava?
Em Quito, no Equador.
E como foi a surpresa?
Chorei mais do que em toda a minha vida! Sim, eu tinha estado com ele dois meses antes, tínhamos conversado e partilhado tantas outras coisas, foi um momento muito importante para mim. E quando eu escutei o nome, dito pelo cardeal que também era da minha turma na Academia Diplomática…
…todos seus colegas!
E depois surgiu aquele Papa, que tinha sido o meu colega no Direito Canónico… Então, eu fiquei muito, muito emocionado. Chorei, chorei, chorei. E, ao mesmo tempo foi um ato de fé porque, mais tarde, na primeira vez que o vi, assim à minha frente disse-lhe: “tu és Pedro, tu!”
É também um privilégio de ser amigo pessoal do Sucessor de Pedro.
Sim, beijei-lhe o anel, mas ele levantou a mão e deu-me um abraço. Sim, temos um relacionamento bonito. Quando ele começou o seu percurso, acabado de ser ordenado, eu já era padre há dois anos padre. Mas temos a mesma idade, com três meses de diferença. É uma grande graça que acontece numa vida, uma vez na história.
A Europa mudou muito. É verdade que, sociologicamente, até podemos considerar-nos católicos, mas é preciso redescobrir o Evangelho
Sr. Núncio, está há 40 anos ao serviço da Santa Sé, com grande experiência em contextos muito diferentes. O que mais o preocupa? Porque agora veio para a velha Europa, como dizia o Papa Bento XVI, cansada da fé, sociologicamente, talvez católica, mas na prática, lembrando as palavras do Papa Leão na primeira homilia, na Capela Sistina, com muitos batizados que vivem “um ateísmo prático”.
Foram 29 anos fora da Europa. E a Europa mudou muito. É verdade que, sociologicamente, até podemos considerar-nos católicos, mas é preciso redescobrir o Evangelho. Aqui, o meu ponto vai ser sempre levar as coisas ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo que, no fundo, é aquilo que tem a força de ajudar uma sociedade.
Francisco de Assis, que agora se assinalam os 800 anos, ensinou-nos a viver segundo o Santo Evangelho. Ponto. E isso foi uma mudança extrema para todos os grandes santos. E Santo Antônio, o que fez? Foi alguém que viveu o Evangelho em radicalidade. Por isso, não me vou cansar de propor que escutemos a Palavra de Deus.
Não lhe parece que sempre que os cristãos estão em minoria, ou atravessam tempos de sofrimento, há uma coragem maior para viver a fé, enquanto o bem-estar e uma vida mais burguesa a amolecem?
Certo, mas nós, na Europa, temos uma coisa a nosso favor: existe já uma grande religiosidade. Precisamos de evangelizar essa religiosidade. Porque se ficamos somente com uma religiosidade externa, a secularização acaba com a fé. É preciso fazer com que o Evangelho, a Palavra de Deus, ilumine a nossa vida. Quer dizer, eu enfrento esta nova missão, não como um trabalho, mas para partilhar uma experiência de Deus. Ninguém é capaz de dar aquilo que não tem. Por isso, a minha primeira responsabilidade é eu próprio fazer uma experiência de Deus. E, a partir daí, partilhar o que se vive.
Portanto, já não maioria, mas uma minoria esclarecida.
Claro. Não interessam os números. Nosso Senhor nunca se importou com os números. É claro que isso exige uma conversão. E isso não é fácil. Nosso Senhor também não conseguiu com os seus… Na hora da dificuldade, fugiram. Ficou um só de 12.
Agora, em relação a Portugal, que tem uma história e uma tradição que admiro e respeito, quero partir disso para caminharmos juntos. Em tudo o que eu puder, vou seguir o que o Papa está a fazer: propor o Evangelho “sine glosa".
Sabemos que é muito ativo nas redes sociais. Quer explicar o porquê desta opção?
Isso foi o resultado de uma conversão na minha vida. Eu era núncio apostólico no Panamá quando, em 2009, 2010, chegou o tema do Papa Bento para a jornada das comunicações sociais. O tema era “As redes sociais nova fronteira da evangelização”.
Eu torci o nariz. Não estava muito convencido. Entretanto, alguns padres jovens convidaram-me para celebrar uma missa e explicar o tema na homilia. Falei sobre aquilo que o Papa propunha mas, no final da missa, disse aos padres para não perderem tempo com essas coisas estúpidas e dedicarem-se mais a escutar as pessoas.
Portanto, pregou uma coisa e depois disse outra coisa aos padres…
Sim. Mas, quando cheguei a casa, tive escrúpulos por ter dito o contrário do que o Papa propunha. Resolvi, então, criar contas no Twitter, no Instagram e no Facebook. Três ou quatro meses depois vou ver o resultado. Mensagens: zero. Seguindo: zero.
Seguidores: 300. Perguntei ao secretário, “o que é isto?” E ele explicou que 300 pessoas veem tudo o que eu quiser escrever. Foi assim que comecei… Agora tenho uns 70 mil seguidores. São pessoas que “tenho que alimentar todo dia” (risos). Tento partilhar aquilo que vivo e também colocar mensagens que talvez não sejam propriamente cristãs, mas que são de um humanismo que faz bem a todos.
Só que, agora tenho um problema, porque estas contas são em espanhol e não sei se devo criar uma conta em português. Não sei. Teremos que ver.
Se abrir uma conta em português, vai ter mais seguidores…
Não me preocupa atingir fama, isso não me interessa. O que me interessa é partilhar uma vida e procurar proximidade com as pessoas.