Procissão do Senhor dos Passos da Graça
D. Rui Valério sobre conflito no Médio Oriente: "Falta uma voz de ponderação e de apelo à calma"
02 mar, 2026 - 01:51 • Marisa Gonçalves
Patriarca de Lisboa receia o escalar do clima de tensão no Médio Oriente e manifesta preocupação com o impacto que este conflito vai ter no preço dos combustíveis.
O Patriarca de Lisboa, Dom Rui Valério, receia o escalar do clima de tensão no Médio Oriente, após o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão.
O responsável pela Diocese de Lisboa lamenta que sejam ultrapassadas linhas vermelhas e diz que se abriu uma porta para a incerteza.
“Aquilo que eu verifico é que, dentro da lei internacional e também da história que nós já temos e dos acontecimentos dramáticos que já vivemos no passado e num presente recente, eu estava convencido que havia linhas vermelhas que já estavam bem delineadas, bem firmadas. Afinal de contas, num dia normal de fim de semana, eis que de repente há um ataque. Pode haver razões que os estrategas podem ter, mas o meu receio é civilizacional. Estamos agora a colocar ao arbítrio da incerteza aquilo que vai ser o amanhã, exatamente pela quantidade de países e de nações que já estão implicadas no conflito”, aponta.
O Patriarca de Lisboa acrescenta que mais do que vozes de condenação, são necessárias vozes de ponderação.
“Faz falta uma voz de ponderação e de apelo à calma. Todas as nações do mundo vão padecer consequências disto. E pergunto eu, mas os outros governantes, as outras entidades, a Europa, os responsáveis europeus e de outros países estavam ao corrente? Nós não estávamos preparados para isto”, declara.
Dom Rui Valério manifesta também preocupação com o impacto que este conflito vai ter no preço dos combustíveis, em Portugal.
“Eu como cidadão falo, uma das coisas que nós vamos começar a sentir no imediato é, quando formos agora a atestar o depósito de gasolina ou de gasóleo, os preços já vêm por aí acima. Portanto, é uma voz profética de ponderação que é preciso ter, com muita calma e muita paciência”, sublinha.
Dom Rui Valério falava à Renascença, no dia em que Lisboa assistiu à procissão do Senhor dos Passos da Graça, uma procissão que o Patriarca afirma ter decorrido no “espírito de solidariedade”, com aqueles que sofrem em cenários de guerra e violência.
"Se a guerra já era estrondosamente grande, agora é ainda maior"
O Patriarca de Lisboa diz olhar para este secular cortejo religioso, que se repete por ocasião da Quaresma, com um sentimento de gratidão e de oportunidade para alertar para os conflitos do mundo.
“Nós católicos, assim o como o Patriarcado de Lisboa, não separamos esta caminhada do Senhor dos Passos da intensificação dos ataques. Se a guerra já era estrondosamente grande, agora é ainda maior. O caminho que fazemos hoje, no espírito de paz, comunhão e oração, quer dizer que nós aqui, acompanhando aquele que sofre, que é Jesus Cristo, nessa paixão e sacrifício de Jesus reencontramos o sofrimento de quem está a viver debaixo do pavor dos mísseis, das bombas e da guerra”, adianta.
A procissão é organizada pela Real Irmandade dos Passos da Graça, com o apoio da Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa, evocando a Paixão e a Morte de Jesus Cristo. Teve início junto à Igreja de São Roque, no Largo Trindade Coelho, e terminou na Igreja da Graça, depois de passar pela Igreja de São Domingos, próxima do Rossio.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, marcou presença na missa que se seguiu à procissão.
No final, foi convidado a assinar o denominado “Livro das Pessoas Reais”, da Real Irmandade dos Passos da Graça, onde constam os nomes de vários reis e duquesas de Portugal, para além de Patriarcas e outras figuras da Igreja.
O Chefe de Estado passou a constar no livro como “Irmão de Honra”.
Quaresma 2026
"Vale a pena participar". Procissão do Senhor dos Passos da Graça acontece desde 1587
O provedor da Real Irmandade da Santa Cruz e Passo(...)
Em declarações à Renascença recorda: “Eu há vinha a esta procissão há muitos anos, ainda antes de ser eleito Presidente”.
Marcelo Rebelo de Sousa destaca o significado histórico das irmandades, um pouco pelo país.
“Têm uma obra com mais de cinco séculos, não só em Lisboa. As irmandades continuam a ter um importante papel educativo, formativo, de apoio social e nalguns casos de apoio sanitários e financeiro em comunidades pobres. Isso tem um valor imenso e esta é uma dessas irmandades. É ainda mais importante pelo que pode significar em termos de papel comunitário na sociedade portuguesa”, remata.
O provedor da Real Irmandade dos Passos da Graça, Francisco Mendia, considerou que a tradição religiosa ficou, mais uma vez cumprida, neste segundo domingo da Quaresma.
“Vale a pena trazer Jesus à rua e imitar Jesus. Isso vê-se no rosto das pessoas. Não é a irmandade que reúne. É Jesus que reúne. Desde 2013 que iniciámos a procissão original, como sempre foi, desde a Igreja de São Roque até à Graça. Valeu a pena”, afirma à Renascença.
Com origem em 1587, a Procissão do Senhor dos Passos da Graça convida os fiéis a percorrer os diversos “passos” da Paixão de Cristo, pelas ruas da capital.









