REPORTAGEM

"Estes meninos são maravilhosos." Chega ao fim a 23.ª edição da Missão País

11 mar, 2026 - 06:00 • João Maldonado

Projeto católico de universitários decorreu em 75 localidades de norte a sul do país, com mais de quatro mil participantes voluntários a nível nacional e milhares em lista de espera. No Poceirão fala-se numa "lufada de ar fresco" que chegou à pequena comunidade situada no concelho de Palmela. Jovens ajudam em escolas, lares e na reabilitação de locais degradados.

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Reportagem Renascença de João Maldonado

Típico da Missão País são os cafés naturalmente eleitos pelos missionários para as horas de maior descontração entre as tarefas que desempenham com enorme alegria. Pedem-se expressos, alguns mais cheios, sumos, pães, uns bolinhos ou uma cerveja para acompanhar um cigarro fumado nas mesas de plástico estacionadas junto ao vidro dos estabelecimentos prediletos.

"Foi dinâmico aqui numa pequena freguesia, nós temos pouca gente, pessoas mais idosas. Ver um grupo carismático aqui em nossa volta, com a sua missão mais religiosa, a dar mais atenção às pessoas mais velhas foi bastante interessante. Para nós no negócio foi giríssimo", resume com um gigante sorriso João Miguel Feliciano, dono do "Botânico Café" — onde à hora desta conversa muitos jovens desfrutam dos ares da terra de que se fizeram parte durante oito dias.

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É neste café que encontramos Miguel Amaral, líder da comunidade que esteve a animar a escola local, com alunos entre o primeiro e o quarto ano. "Inicialmente, o plano era irmos só para os intervalos, mas no primeiro dia a diretora gostou muito de nós e convidou-nos a ficar também nalgumas aulas. No fundo, estávamos nos intervalos a animar os miúdos, a brincar, a saltar à corda, a jogar futebol e depois nas aulas", descreve o atual estudante de terceiro ano da Clássica. Nas aulas de Cidadania o grupo teve a oportunidade de expôr "dinâmicas morais e dilemas" aos mais novos. "Acho que faz muita diferença eles ouvirem algumas coisas que ouvem dos professores, mas de uma malta mais nova e a que não estão habituados".

Da sede da missão, um pavilhão onde tomam banho e dormem os participantes, pegamos no carro e são nem 10 minutos até chegarmos à Casa do Povo de Palmela. "Aqui fomos inundados, no bom sentido, por estes jovens magníficos. Eles ainda não foram embora e já estamos cheios de saudades deles. Vieram promover realmente muita atividade, muita humanidade e muita boa disposição. Foi aqui uma lufada de ar fresco", respira Mónica Duarte, diretora técnica deste centro social em Lagameças.

Na prática, durante a semana os jovens adstritos a este local ajudam no trabalho do dia-a-dia de uma instituição deste género. "Nem que seja só a simples atenção e conversa com os mais velhos". Entre atividades, jogos e horas de falatório, tratam-se de tarefas simples mas impossíveis de realizar pela falta de tempo no preenchido quotididano dos funcionários que põem em marcha o funcionamento da casa diariamente.

Entro os 40 utentes, a que se juntam outros 10 beneficiários de apoio domiciliário, encontramos Maria Fernanda Vieira. "Saudades vou ter. Muitas vezes estou na cama e já estou a pensar neles. A semana foi ótima, foi muito boa. Estes meninos são maravilhosos. Foi a primeira vez que os vi e adorei logo a simpatia que eles tiveram para com a gente. São muito simpáticos, muito amorosos. Gostei imenso deles. A gente gosta desta juventude linda", diz rodeada de missionários — agora amigos — junto à entrada onde se abrem portas para o salão principal desta casa, a esta hora também ocupado por jovens estudantes de Direito.

Um deles, Pedro Fernandes, de 20 anos, a completar o terceiro ano de faculdade e já com três missões no bolso, conta que chegam todos os dias pelas 10h00 da manhã, almoçam e lancham por aqui. "É basicamente conversar com eles, jogar com eles, cantar com eles. Foi uma semana muito rica. Acho que aprendemos muito aqui com estas pessoas. Acho que saímos com mais do que viemos. Muitas vezes viemos aqui para ajudar e dar e recebemos muito mais", sublinha.

Uma das comunidades mais tradicionais é também o "porta-a-porta". "Começamos no sítio mais perto de onde estamos e vamos batendo em todas as portas. Às vezes, batem-nos com a porta na cara e dizem não obrigado, já tenho tudo o que preciso. Outras vezes ouvem-nos, umas vezes oferecem bolinhos", conta-nos Xavier Costa Jorge, com ar realizado, depois de mais um preenchido dia.

"É sempre uma graça poder falar de Cristo, que é o centro da nossa vida. O centro é mesmo Jesus, porque nós estamos cá uma semana e vamos-nos embora. Portanto, se estas pessoas não tiverem alguma coisa que permanece, enfim, é preciso dar Jesus Cristo a conhecer e isso é o porta-a-porta", reforça.

Todas as missões têm um padre a acompanhá-las. Neste caso, o padre Bernardo Aranha, experimentadíssimo nestas andanças. Tem visto o grupo alterar-se, ano após ano, desde 2012. Um percurso nesta missão da "FDUL 2" (já que a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa tem duas missões) que já passou por Manteigas, Vieira de Leiria, Santiago do Cacém, Moimenta da Beira, Sernancelhe e agora Poceirão.

Mais dedicado à chamada "missão interna", garante o apoio espiritual ao participantes (estando igualmente disponível para os habitantes locais). "Prego o Evangelho, celebro missa, confesso, falo horas e horas sem fim com missionários, vou atrás deles às várias comunidades", resume, sublinhando que "esta missão dá a esta terra o que a Missão País dá, um grupo de jovens animados por Cristo a servir, a amar e a derramar bondade à sua volta".

A comunidade "Just a Change", numa referência a um outro projeto solidário que apoia a reconstrução de casas, trabalha diretamente com a junta de freguesia e associações locais para "sinalizar edifícios ou situações de precariedade", conta Vasco Costa Cabral e responsável por este grupo em particular.

"Estamos perante uma casa que tinha, acho que é o termo, tralha. Muita coisa, lixo, animais mortos. Um conjunto de imundidade que não dava para ninguém viver aqui". Mas a verdade é que vivia. Uma idosa, entretanto retirada após uma visita domiciliária.

Ao chegarmos ao local onde estão a trabalhar o cheiro a lixívia é bastante intenso. Tanto que somos obrigados a usar uma máscara na cara. O trabalho, esse, é brutal. O antes e o depois mostra duas casas completamente diferentes. Ainda assim, sendo este um grande ponto de partida, é difícil acreditar que sem uma intervenção ainda mais profunda, alguém possa viver em permanência e com condições dignas nesta habitação.

"Não dava para andar na casa como deve ser, sem estar a pisar terra. Havia batatas que ela tinha posto debaixo de armários para abafar o cheiro que tinha de decomposição", relata o missionário de 21 anos. Além desta intervenção, o grupo auxiliou ainda no restauro de uma parede de um centro de dia e de uma delegação da junta com problemas de humidade.

Todas as missões são organizadas por uma equipa composta por quatro duplas: dois chefes-gerais; dois chefes de serviço; dois chefes de oração; e dois chefes de teatro.

José Esteves da Silva e Marta Couto Ferreira são os responsáveis maiores deste grupo. Têm, respetivamente, 19 e 20 anos. O primeiro está no segundo ano de Arquitetura no Técnico de Lisboa, a segunda no terceiro ano de Direito. A situação destes dois chefes-gerais ilustra bem que a Missão País, sendo específica de cada faculdade, acolhe também membros, se assim se quiserem inscrever, de outras — ultrapassada, claro, a longa lista de espera para participar.

A estes líderes coube este ano a escolha do local. As missões funcionam com ciclos de três anos. Para a FDUL 2, Poceirão inaugura a tríade. O espaço foi escolhido depois de um pedido de uma família para a organização nacional do projeto católico. "Fomos muito bem acolhidos pela comunidade, houve uma onda de solidariedade mesmo muito grande. Vinham cá trazer comida, donativos, coisas que nos ajudaram bastante", diz José Esteves da Silva, já aliviado por ter corrido "tudo bem graças a Deus".

Sendo a maioria dos participantes católicos, há também quem escolha vir sem o ser. "Temos muita gente de sítios diferentes da Igreja, de pensamentos diferentes, formas diferentes de viver a fé, mas depois também temos pessoas que, de facto, são estes os primeiros contactos com a fé". Inclusivamente, dois dos missionários mostraram vontade de "querer ser baptizados".

Marta Couto Ferreira, com a tranquilidade e responsabilidade de quem aos 20 anos ajuda a organizar uma missão com cerca de 60 estudantes, sublinha que "no geral foi fácil", com "muita logística, muita oração" e a "tentar antecipar as necessidades dos missionários".

Meses de preparação levam o barco a este momento. O momento de no terreno dividir os participantes em pequenos grupos (ou comunidades). Logo no primeiro dia são apresentadas e todos votam, "por ordem de preferência", onde gostavam de ficar durante a semana. "Nós tentamos conciliar, tentamos atender às necessidades dos locais concretos e também tentar desafiar um bocadinho os missionários a fazerem aquilo que os aproxima mais de Jesus".

Ao leme da oração estão dois estreantes nestas voltas. Francisco Pinto e Mariana da Cunha fazem pela primeira vez Missão País e logo incumbidos de organizar, em conjunto com o padre responsável, a parte espiritual destes dias. "O padre vai-nos ajudando muito para preparar as orações no geral e dar-nos ideias. É bom porque somos de partes diferentes da Igreja, de movimentos muito diferentes e acabamos por nos completar muito um ao outro, o que é uma coisa muito engraçada e muito bonita", destaca Mariana.

Como chefes de oração são responsáveis pelas orações da manhã e da noite, tal como pelo terço e missas diárias. "Além do nosso papel enquanto chefes ser ajudar os outros a rezar também nos ajuda a nós a rezar. Termos esta responsabilidade de levar os outros à oração implica que nós próprios tenhamos uma vida de oração, então também nos ajuda a nós próprios", reforça Francisco, explicando que além da preparação que antecede estes dias as reflexões vão sendo trabalhadas e adaptadas enquanto a semana acontece.

Todas as missões fecham com um teatro com portas abertas para a comunidade. O guião é o mesmo a nível nacional, mas cada equipa tem liberdade para o adaptar, dentro da mensagem que se pretende passar. O desta missão acontece no Parque Mário Bento, uma instalação da Junta de Freguesia do Poceirão. "Conta a história de uma família que está a passar um bocado difícil" e como vão evoluindo as personagens — tudo se relacionado com o Evangelho —, descreve Maria Ramos, co-chefe de teatro, em segundo ano de missão.

Quem fica com esta responsabilidade tem uma semana tremendamente diferente de todos os outros. É que em vez de andar pelas ruas, está fechado a ensaiar para garantir que o espetáculo decorre da melhor forma possível no final da semana, como se de um presente para a comunidade se tratasse. "A missão é um bocado mais de humildade, de serviço à comunidade. Temos que ser muito pacientes uns com os outros, porque, especialmente agora no final, é muito normal estarmos um bocadinho mais stressados. O serviço parte muito daí, de sabermos que com alegria, com riso, no final do dia tudo corre bem", resume Maria, que trabalha em conjunto com Tomás Costa nesta empreitada.

Tomás descreve um "culminar de toda a semana dos missionários". Um garante para "acabar em grande". "Estamos uma semana a preparar o teatro para retribuir à comunidade tudo aquilo que nos deram e a forma como nos acolheram. Estamos com uma expectativa enorme", afirma horas antes de entrar em palco o finalista de Direito.

E como se garante comida para tantos jovens com apetite? Se os almoços são em geral garantidos nos locais das comunidades, entre lares e escola, o pequeno-almoço e o jantar são preparados pelos dois chefes de serviço. Carmo Caiado, de 22 anos e já licenciada no curso jurídico, acentua que "a maior dificuldade não é propriamente cozinhar para 60 e tal pessoas". "É muito mais conseguir olhar para cada um, porque muito facilmente se torna só um bando homogéneo de missionários que me estão sempre a perguntar onde é que estão os copos lavados, ou se podem ir buscar água à cozinha. É um desafio muito bom", diz entre risos.

Carmo trabalha com David Cardigos, de 21 anos. "Temos um conjunto de receitas que vem da Missão Nacional. Nós fizemos umas adaptações, tentámos melhorá-las, no caso pôr mais temperos e, no fundo, fazer com que a comida parecesse mais de casa. Fizemos coisas como chili, bolonhesa, salsichas à brás, massa com atum e com quantidades mesmo, muito grandes", relata enquanto começam, em dupla, a preparação de mais um jantar.

A Missão País de 2026 chega ao fim com mais de quatro mil participantes e 11 mil voluntários em lista de espera. “A paz seja convosco” foi o lema desta 23.ª edição, decorrendo “do apelo do Papa Leão na Varanda da Basílica de São Pedro”: logo no momento em que foi eleito. Interpretando as “vozes do tempo”, como explica Maria Belo Braga, chefe nacional deste ano, foi escolhida esta frase, olhando “ao que está a acontecer no mundo, nas nossas vidas, na nossa geração”.

Se levar a paz “a todas as localidades” foi um dos grandes objetivos, entre as 75 terras missionadas houve este ano desafios novos proporcionados pelo vendaval de tempestades que atravessou janeiro e fevereiro. “Foi um bocadinho uma missão em que demos dois passos atrás, mas olhámos onde é que é preciso servir e fomos. Não houve missões canceladas, mas houve missões adaptadas”, explica.

Maria trabalhou durante os últimos meses com Bernardo Carpinteiro, também ele chefe nacional do projeto universitário católico. “A Mãe Peregrina acaba por ser um símbolo que nos acompanha e que é mesmo muito importante. Nós acabamos por levá-la ao colo a todas as portas que batemos, todos os lares, escolas, mas na verdade é ela que nos carrega a nós ao colo e é que nos vai guiado, acompanhando e protegendo”, reflete sobre a imagem de Nossa Senhora de Schoenstatt que está presente desde o início em todas as missões e é levada a todos os locais.

A nível de contas, como é hábito, “cada missão pede um valor aos seu próprio missionário e com esses valores consegue cobrir os custos de alojamento e de alimentação, mas muitas vezes têm muitas ajudas locais”, explica Bernardo acerca do projeto que nasceu em 2003 na Universidade Nova de Lisboa e que tem crescido a olhos vistos.

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