REPORTAGEM

As ramificações no Islamismo. O que é o xiismo e o sunismo?

13 mar, 2026 - 08:12 • João Maldonado

A Renascença falou com fiéis de ambas as variantes islâmicas para tentar entender as divisões no mundo árabe e as ligações à geopolítica do Médio Oriente (e em específico do Irão). Em Portugal poderá haver mais de 100 mil crentes.

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As ramificações no Islamismo. O que é o xiismo e o sunismo?
O Islamismo tem duas ramificações principais: o sunismo (maioritário) e o xiismo (a minoria). Ouça a reportagem de João Maldonado. Foto: Filipe Amorim/Lusa

É junto ao El Corte Inglês, em Lisboa, que nos recebe a comunidade ismaelita, “uma das comunidades de interpretação dentro do Islão”. Estamos na sede mundial do Ismaili Imamat — o cargo hereditário de liderança religiosa seguido por esta minoria xiita com cerca de oito mil fiéis estimados em Portugal.

“Sua Alteza”, como é conhecido o príncipe Rahim Aga Khan V, é o 50.º herdeiro daquele que é considerado o primeiro imã (o genro e primo de Maomé). “A única comunidade xiita que conseguiu, de alguma forma, manter o imã vivo e em descendência desde a altura do profeta Maomé e do primeiro imã Ali, é a comunidade ismaili, que conseguiu manter esta linhagem”, explica o diretor-executivo da delegação ismaelita em Portugal, em declarações à Renascença.

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Rahim Kassam salienta que se trata de “uma comunidade muito bem integrada na sociedade portuguesa, que procura contribuir ativamente para o desenvolvimento do país”. Características, garante, que fazem parte de “uma identidade religiosa comum” seguida por 12 a 15 milhões de crentes (números da instituição). A rede Aga Khan para o Desenvolvimento trabalha “em áreas tão diversificadas como o desenvolvimento económico, a educação, a saúde, a cultura”, sempre mantendo “esse compromisso com a dignidade humana, com procurar fomentar sociedades mais plurais”.

Por cá, descreve Rahim, “a comunidade é, sobretudo, originária da Índia, com uma passagem por Moçambique e que depois, no processo de independência, vieram, juntamente com outras comunidades de ascendência indiana, estabelecer-se em Portugal”.

Em resumo, tremendamente simplista dada a complexidade da teia islâmica, trata-se de uma corrente dentro de um ramo dentro de uma religião: uma minoria dentro de uma minoria com milhões de seguidores a nível planetário.

O que é o xiismo?

É necessário que recordemos a sempre tão importante História para entendermos as divisões que governam o mundo. “À semelhança do que aconteceu com outras religiões que têm por base um profeta, o profeta quando está vivo é reconhecido pela comunidade como uma pessoa que não só recebe a mensagem divina, mas que sobretudo consegue e tem a capacidade, reconhecida pelos crentes de a interpretar e de articular essa mensagem divina para as condições de governança, as várias dimensões dos contratos da sociedade, na dimensão da justiça, na dimensão da educação”, começa por referir o diretor-executivo.

“Quando o profeta morre, e isto aconteceu em todas as grandes religiões, incluindo no Islão, a comunidade de crentes pergunta-se quem tem a autoridade para interpretar a mensagem divina e para articulá-la com as condições da sociedade”. Tendo surgido várias respostas e comunidades de interpretação, a divisão mais conhecida, “que contrariamente ao que se pensa não surgiu imediatamente, mas foi evoluindo ao longo dos tempos”, passa por um binómio composto por sunismo e xiismo.

Quando o profeta morre a comunidade pergunta quem tem autoridade para interpretar a mensagem divina

Enquadrando-se no xiismo, Rahim Kassam explica que ainda em vida “o profeta designou o seu genro e primo Ali para ser o primeiro imã da comunidade”. Na perceção xiita da palavra “imã significava uma instituição”. Neste caso uma instituição que cumpre dupla função: “por um lado interpretar a mensagem divina e por outro lado articular essa mensagem divina com as condições da sociedade”.

“As três principais correntes são: os xiitas duodecimanos, que são a grande maioria, contam cerca de 85% da comunidade mundial, estão sobretudo localizados no Irão e em outras regiões próximas; os ismailis, que se encontram espalhados um pouco por todo o mundo, não têm um território em si; e os zaidis, que são ainda menores, e que estão sobretudo localizados no Iémen”, explana o membro da comunidade ismaelita referindo-se a um “grande mosaico de comunidades de interpretação”.

Existindo diferenças acerca de quem seguir na interpretação da mensagem, existem também naturais discrepâncias representadas em “alguns, preceitos, ritos e rituais”. O que os junta? O traço comum de todas as comunidades muçulmanas é “a afirmação da unicidade de Deus, à semelhança de outras religiões de tradição abraâmica e, sobretudo, a ideia de que o profeta Maomé foi o último mensageiro de Deus enviado à Terra”, termina Rahim, que deve o nome da comunidade a que pertence ao quinto imã da linhagem: “Ismaili”.

Os sunitas em Portugal

Na Mesquita Central de Lisboa somos recebidos pelo sheik David Munir, imã da comunidade sunita — que também recebe xiitas nas instalações, mesmo sendo “pouquíssimos os que vêm, porque a própria comunidade em Portugal é muito reduzida”.

Em termos materiais, “nós fazemos cinco orações” (diárias) e “os xiitas têm uma forma ligeira”. Ou seja, regra geral, “em vez de fazerem cinco, fazem três, mas juntam”. Quanto à oração em si, “a prática e o gesto que se faz na oração” é também “ligeiramente diferente”, relata o líder sunita.

As expressões sunita e xiita, que se referem aos dois ramos, “são palavras árabes”. Enquanto “suna quer dizer tudo aquilo que o profeta Maomé fez ou disse”, "xia” tem duplo significado: “é aquele que se separou, afastou, e é aquele que apoia, os partidários de Ali”.

Explica o sheik que "tirando o Irão, o Iraque e uma pequena comunidade significativa no Bahrein, a maioria é tudo sunita” (no Médio Oriente e também no globo). Criticando “conflitos desnecessários e ações de agressividade” entre muçulmanos de diferentes espécies que “cria mais ódio e afastamento”, o imã clarifica que no caso iraniano “o líder supremo dos que seguem aquela corrente é como se fosse o Papa para os católicos”. A corrente a que se refere é o xiismo duodecimano, a doutrina maioritária que segue “doze imãs” originais, tal como líderes que atingem um grau “para governar politicamente e religiosamente”.

Não obstante, pelo conhecimento de que dispõe, e referindo-se ao regime dos Aiatolás, “aos dias de hoje nem todos os xiitas veem aquele senhor como o líder supremo”, porque “ao misturar com a parte política pode ser o nosso líder religioso, mas não é o nosso líder político”.

O que é o sunismo?

“A palavra Islão significa submissão voluntária a Deus, o muçulmano é aquele que se submeteu voluntariamente”, acreditando no Deus único e em Maomé como seu último mensageiro.

Para os sunitas, Maomé “sabia que um dia iria deixar este mundo”, mas “não nomeou ninguém diretamente” como seu sucessor. “Ele quis que as pessoas nomeassem”, explica o imã. E, de acordo com a tradição do sunismo, os muçulmanos assim nomearam: primeiro Abu Bakr, depois Omar, Ousmane e por fim Ali. Sim, o mesmo Ali que para sunitas é o quarto califa representa para xiitas o verdadeiro sucessor de Maomé, como seu genro e primo.

Mesmo seguindo uma corrente distinta do xiismo, o sheik David Munir, que representa a jurisprudência sunita hanafi, salienta que “Ali tem uma posição enorme no Islão mesmo entre os sunitas — há um respeito enorme por Ali, há um exemplo que as pessoas tentam seguir”.

Comparando estas divergências doutrinais com outras religiões: “Quando se fala do Cristianismo é só um. Todos são cristãos, isto é universal. Mas há uns que são católicos, outros são protestantes, outros são adventistas. Também surge no Judaísmo, no Hinduísmo”.

O retrato do Islamismo pelo mundo

Ao Observatório do Mundo Islâmico a Renascença pediu um retrato da difícil teia de relações que representa o Islamismo (não apenas hoje mas há 1.400 anos), com cerca de 2 mil milhões de seguidores. “São mais difíceis para não dizer mais tensas, também depende dos contextos, porque há guerras entre esta fraternidade que é o mundo muçulmano, mas há dissensões dentro do xiismo e dentro do sunismo”, sublinha o presidente-executivo do organismo português.

Numa viagem pelo Islão, João Henriques explica que o nascimento da religião é atribuído ao ano 610 no que é hoje terreno da Arábia Saudita. Por aí, tendo Maomé nascido em 570, “foi tocado pela divindade”, e recebido, conta a tradição, “instruções sobre aquilo que deveria fazer junto da sua comunidade”.

A partir daí, “Mohamed”, como é conhecido, “começou a entrar em confrontação com o poder instalado em Meca”, combatendo “o politeísmo” e tendo fugido “no ano 622 de Meca para Medina”, criando “forças comandadas por ele”. Reforça o especialista que “era um guerreiro e ao mesmo tempo político”.

“Hoje há uma grande rivalidade entre os dois principais ramos do Islão, que deram lugar a outras correntes dentro de cada um destes”. Com a morte de Maomé, em 632, “começa a história da fratura entre os fiéis”, que se materializa especialmente na divisão entre sunitas, “que correspondem atualmente a 85/90% de toda a comunidade mundial e sempre se opuseram à sucessão dinástica”, e xiitas, “10 a 15% que acreditam que a sucessão deve ser dinástica”.

O Irão, com cerca de 90 milhões de habitantes e por estes tempos conturbados em especial foco, tem uma maioria xiita expressiva (95-97% segundo o Observatório). “O aiatolá, este termo só existe no xiismo, é ao mesmo tempo político, comanda toda a vida política, e é o líder espiritual. À parte do grande rigor da natureza religiosa que é ostentado e que é imposto até aos nossos dias pela liderança religiosa e política no Irão, que começou com a deposição do Xá em 1979, foi imposta a teocracia iraniana. Os ministros seguem a linha ortodoxa do xiismo que é representada pela figura máxima que é o aiatolá. A teocracia significa que há um poder acima do político, que é o religioso, e que tudo emana da vontade de Deus”, sublinha.

Em Portugal, de acordo com os últimos Censos de 2021, mais de 36 mil residentes com 15 ou mais anos de idade dizem-se muçulmanos. Seria o equivalente a 0,4% da população. No entanto, contas do Observatório, o número total, sempre volátil pelas entradas e saídas de pessoas que o país regista, poderá ser superior a 100 mil fiéis.

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