ENTREVISTA
Contar histórias de embalar à noite a crianças internadas? Nuvem Vitória foi pioneira e já o faz há 10 anos
20 mar, 2026 - 17:03 • Ângela Roque
Associação criada em 2016 tem 1.300 voluntários em 15 pediatrias, mas prepara-se para alargar a resposta a mais enfermarias em Lisboa, e chegar a mais hospitais no país: IPO do Porto, Guarda, Barreiro e Évora deverão ser os próximos. A Renascença conversou Fernanda Freitas, presidente executiva da Nuvem Vitória, sobre a história e o funcionamento do projeto que é a "menina" dos seus olhos.
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"Mãe; voluntária; comunicação e conteúdos; doida por gatos, viagens e livros". É assim que Fernanda Freitas se apresenta no seu perfil no Facebook. Bem conhecida do grande público, entrou na casa dos portugueses durante vários anos com o programa televisivo Sociedade Civil, na RTP, com qual ganhou vários prémios, tornando-se embaixadora nacional das causas sociais europeias.
Em 2011, presidiu ao Ano Europeu do Voluntariado, tendo sido agraciada com a Ordem do Mérito Civil, em 2013. Três anos depois fundou a Nuvem Vitória, uma associação de voluntariado que leva histórias de embalar a enfermarias pediátricas à noite, pela qual foi reconhecida com o Prémio Cidadão Europeu 2023, do Parlamento Europeu.
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Em entrevista à Renascença, que publicamos neste Dia dos Contadores de Histórias, Fernanda Freitas fala do projeto que espera alargar ao longo de 2026, Ano Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável, focado na Agenda 2030, na qual o trabalho se enquadra nos objetivos ligados à saúde.
Como e quando é que nasceu este projeto?
A Associação Nuvem Vitória foi criada em 2016, como um projeto de total inovação social. Fomos responder a um problema que estava entre o esquecido e o negligenciado nos hospitais. Não sabíamos - nem nós, nem profissionais de saúde - a que horas é que as crianças realmente iam para a cama, quando é que desligavam os televisores, quando é que deixavam de brincar, porque não havia propriamente uma rotina igual à que há nas nossas casas, em que chega uma certa hora, depois do jantar, e se diz "xixi, história, cama". Não havia essa parte.
Eu sempre fui voluntária em ambiente hospitalar pediátrico durante o dia, mas desde que abri a minha empresa deixei de ter disponibilidade para fazer este voluntariado, como contadora de histórias. Um dia, numa conversa, pensei: "mas porque é que eu não posso ir contar histórias à noite, que é quando os miúdos mais gostam, e quando a maior parte das pessoas, se calhar, tem tempo?". E foi assim, com esta ideia, que fomos, literalmente, bater à porta da direção do Hospital de Santa Maria. Eu conhecia bem a professora Maria do Céu Machado, que era na altura a diretora, e ela achou uma ótima ideia, mas tinha de se ver como é que seria aceite, tanto pelos pais, como pelas equipas de enfermagem, segurança, etc. Porque era a primeira vez ao longo da história hospitalar, no mundo inteiro, que entravam estranhos à noite, depois das horas de visita.
Fizemos um projeto piloto durante seis meses, com 12 camas e 24 voluntários. Posso dizer que o sucesso foi imediato. Começámos só nessas camas, no 6.º piso do Hospital de Santa Maria, e passados nem dois, três meses, já tínhamos os outros pisos que também têm pediatria, a pedirem-nos para também irmos contar histórias.
Fizemos o projeto-piloto todo, validámos o conceito, criámos um manual que agora é usado religiosamente em todos os hospitais onde estamos, e em 10 anos o balanço é este: começámos com 12 camas e 24 voluntários, agora estamos em 15 pediatrias de norte a sul do país, e somos 1.300 voluntários.
Chamamo-nos "Nuvem Vitória", porque as histórias acabam sempre da mesma maneira: '"Vitória, vitória, acabou-se a história".
Um crescimento enorme em dez anos. Isso prova que era, de facto, um projeto que fazia falta?
Sim. Por vezes a inovação social tem esta magia, aparece um projeto que é quase um ovo de colombo - porque é que nunca ninguém pensou nisto? Porque é que nunca ninguém olhou para as crianças à noite, que é a altura onde, se calhar, surgem mais receios, não estão tão acompanhadas, nunca há propriamente calma e silêncio como em nossa casa? Nunca ninguém pensou que se calhar era interessante as crianças terem um período de adaptação, para poderem dormir mais sossegadas, fosse com uma história de embalar, fosse com outra coisa. Aconteceu ser as histórias de embalar, e chamamo-nos "Nuvem Vitória", porque as histórias acabam sempre da mesma maneira: "Vitória, vitória, acabou-se a história".
A Fernanda tinha uma sensibilidade especial para esta área, tendo em conta que já era voluntária em saúde, e também com crianças…
Sim. Eu fiz a minha formação em voluntariado hospitalar pediátrico como contadora de histórias por volta do ano 2000, 2002, já tinha muita experiência na área. Inclusive, os primeiros voluntários eram quase todos pessoas que eu conhecia dessa época, desse projeto hospitalar em que trabalhávamos, sobretudo de manhã, no Hospital de Santa Maria e no IPO, em Lisboa. Foi com base nessas ideias iniciais que adaptámos todo o projeto com a nossa equipa de formação, para contar histórias à noite, que é completamente diferente de contar histórias durante o dia. É isso que fazemos.
A nossa formação, que foi desenhada há dez anos, foi sofrendo pequenas adaptações, mas continua igual para todos os hospitais. As pessoas são obrigadas a fazer a formação, não há forma de entrar na "Nuvem Vitória" sem isso, é obrigatória durante um fim de semana, e têm de entregar o registo criminal, assinar contrato.
Há uma série de procedimentos que são obrigatórios para fazer parte da "Nuvem Vitória", que fui também apreendendo ao longo da minha vida, não só como voluntária, mas também como presidente do Ano Europeu do Voluntariado, em 2011. Aprendi muitas coisas boas, mas também onde é que andam os vícios do voluntariado, e isso nós cortamos logo pela raiz, não há hipótese. Criámos um Manual mesmo à prova de bala, para que todas as pessoas que entrem na Nuvem tenham balizas, saibam o que é que podem e o que é que não podem fazer cada vez que entram num quarto de hospital.
Pode-se ajudar com o IRS. "A verba que recebemos da consignação do IRS de Portugal vai dar para abrir, pelo menos, mais três hospitais"
O voluntariado em saúde não é para todos. Têm tido dificuldade em arranjar voluntários?
Não, não temos dificuldade em arranjar voluntários, temos mais dificuldade em arranjar apoios financeiros, porque as pessoas acham que por ser voluntariado não é preciso nenhuma verba. Muito pelo contrário, nós para termos este nível de profissionalismo dentro dos hospitais temos, obviamente, que fazer investimentos, nomeadamente os seguros, as t-shirts que os nossos voluntários usam apenas para fazer as ações, a formação, que é obrigatória. Tudo o que diz respeito a essa formação, desde o aluguer de espaço a refeições, é tudo patrocinado pela Associação Nuvem Vitória, os voluntários entram com o seu tempo. Para ter noção, para abrir um hospital nós precisamos de cerca de 10 mil euros, isto garante a formação de cerca de 60 a 70 voluntários, e um ano de ações.
Cada hospital tem a sua coordenação, que não é voluntária, porque obriga a que a pessoa que coordena o núcleo tenha horário de trabalho, apesar de ser muito reduzido, mas é um horário de trabalho, o que não pode ser feito em regime de voluntariado.
Não temos dificuldade em arranjar voluntários porque há muito passa-a-palavra, as pessoas que já fazem parte da Nuvem estão sempre alerta para quando há vagas e avisam os amigos, e normalmente quando vamos abrir inscrições já temos pessoas muito interessadas. A única coisa é que às vezes não tenho dia da formação disponível e não podem entrar logo.
Quando fazemos formação é quando surge, por exemplo, um prémio, uma verba, um sponsor, uma empresa madrinha, como nós gostamos de chamar. Por exemplo, abrimos agora inscrições para Lisboa, e em breve também para o Porto e para a Vila Nova de Gaia, graças a prémios que ganhámos, mas também à consignação do IRS. E é importante nesta altura, em que as pessoas estão a começar a preencher o seu IRS, verem como é que isto se faz e para que é que serve: 1% do valor que daríamos ao Estado, damos diretamente a uma associação da nossa escolha. Do ano passado para este ano, a verba que recebemos da consignação do IRS de Portugal vai dar para abrir, pelo menos, mais três hospitais, isto só para as pessoas terem noção da importância que é consignar este 1% um por cento, seja à Nuvem Vitória, seja a outra instituição qualquer.
Estão a pensar abrir ainda este ano mais hospitais?
Sim, sim. É claro que dependemos sempre da autorização superior, porque apesar de já termos dez anos, e já estarmos em 15 pediatrias diferentes, cada hospital tem as suas regras, os seus indicadores de segurança e qualidade, e não podemos chegar de manhã e dizer: "pronto, hoje vamos começar a fazer no IPO do Porto", por exemplo. Não. Há regras, temos de ter reuniões. Mas, vamos abrir no IPO do Porto depois de muito trabalho feito, no sentido de garantir que tudo corre da melhor maneira e que não há qualquer problema para as crianças que estão internadas, muito menos para os seus cuidadores, ou para os voluntários que também lá vão estar durante aquelas duas horas em que contam histórias.
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Entre os novos hospitais, um deles é o IPO do Porto, é isso?
Sim. Este ano contamos alargar o trabalho que estamos a fazer em Lisboa, porque o Hospital da Estefânia e o Hospital de Santa Maria estão a pedir-nos mais voluntários, porque têm mais enfermarias a precisar de histórias de embalar. Depois vamos abrir também o IPO do Porto, alargar a equipa do Porto em geral, e a equipa de Vila Nova de Gaia. E este ano vamos querer, ainda, alargar o Hospital de Braga, e já estamos em contacto com o Hospital de Barreiro, da Guarda e de Évora que, à partida, serão os próximos. Mas ainda não estão assinados os protocolos, só depois de assinados.
E este ano também é especial para fazer isso.
Este ano para nós é duplamente importante: é o ano em que a Nuvem Vitória celebra 10 anos de vida - e parece que foi ontem -, e também é o Ano Internacional do Voluntariado, sobretudo para o voluntariado muito virado para os ODS, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, e o nosso está claramente enquadrado nos ODS ligados à saúde, porque é aquilo que temos vindo a fazer: há estudos que provam que estas crianças que ouvem a história ficam com menos cortisol, menos hormona do stress, aumentam as hormonas boas, nomeadamente a melatonina, que é aquela que nos faz dormir, e a chamada hormona da felicidade.
Está comprovado bioquimicamente - com um estudo feito no Brasil com a saliva de crianças antes e depois de ouvir histórias - que as crianças quando ouvem estas histórias, de facto, ficam com menos stress, mais felizes, mais calmas, e também mais recetivas a qualquer tipo de tratamento que possa acontecer.
Temos uma regra muito simples para a questão da escolha dos livros: têm de ter uma história que o voluntário goste de contar, seja feliz a ler
Este é um projeto solidário que humaniza os serviços de saúde, que já impactou certamente muitas crianças e famílias. Há quem tenha, por exemplo, recebido este apoio e agora também seja voluntário? Ou pais, que tenham passado a ser voluntários para ajudarem outras crianças?
Eu dou uma parte da formação, e acontece imensas vezes, quando chegamos à formação, olhar para algumas pessoas e dizer: "eu conheço esta cara de qualquer lado", e a pessoa durante o "coffee break" vem dizer: "estou aqui porque vocês visitaram o meu filho que estava internado no hospital em Braga, ou Leiria, e agora também quero retribuir". Em Setúbal temos pela primeira vez um dos meninos a quem lemos histórias, quando era mais pequenino, que agora já tem 21 anos e é nuvem! É absolutamente extraordinário quando isto acontece!
Há alguma história que queira partilhar, que nestes 10 anos a tenha marcado mais?
Cada um de nós, enquanto "nuvem" - nós designamo-nos por "nuvens" - tem certamente um leque de histórias extraordinárias para contar. Eu tenho variadíssimas. Há uma história que me marcou sempre, que é a história de uma menina que tinha imensa dificuldade em respirar à noite, queriam pôr-lhe uma máscara de oxigénio e ela não aceitava a máscara. Ela era muito pequenina, e a enfermeira disse "pode ser que com uma história ela serene um bocadinho, para pôr-mos a máscara". Eu e a minha colega - vamos sempre em dupla - começámos a inventar uma história com personagens que ela adorava, ela gostava de fadas, de golfinhos, de princesas e de purpurinas. Então começámos a contar a história com estas personagens, e sempre que dizíamos qualquer coisa que ela gostava muito - como ' e depois chegou o golfinho, casou com a princesa' -, ela fazia "Aaah", estava a inspirar! E o que é certo é que ela, nessa noite, não precisou de máscara para dormir, e a mãe, os médicos e os enfermeiros, vieram trabalhar um bocadinho connosco no sentido de contar estas histórias que acabavam por designar como histórias inspiradoras, porque ela inspirava!
Ainda hoje recebemos uma mensagem de uma adolescente que está internada e que nos dizia: "é incrível o trabalho que estas pessoas que não me conhecem de lado nenhum vieram fazer aqui à hora que deviam estar a jantar com os filhos"
E isso é, de facto, inspirador. E as histórias, como é que são escolhidas? Têm uma seleção já pré-definida, como é que funciona?
Temos uma regra muito simples para a questão da escolha dos livros: têm de ter uma história que o voluntário goste de contar, seja feliz a ler. Porque nós não podemos impôr histórias de dragões a quem gostar mais de águias ou leões, por exemplo. Mas, o que é certo é que essa é a regra. Por isso é que nós não damos os livros aos nossos voluntários, nós sugerimos parcerias, sítios onde podem comprar livros com mais descontos, mas não impomos livros, damos sugestões.
Por norma são livros bem dispostos, livros simpáticos, e livros que não trazem aquela moral, e agora a criança vai ficar a pensar nisto a noite toda. São livros descomplicados, porque os pais é que têm de educar e saber que tipo de leitura é que querem fazer no resto da vida das crianças. Nós estamos com elas uma noite, duas no máximo, se tudo correr bem.
Não lemos banda desenhada, porque não nos aproximamos das crianças, não lemos histórias 'e amanhã contamos o resto', que tenham continuidade, porque a nossa esperança é que aquela criança saia do hospital, portanto, não há histórias em capítulos. E levamos sempre livros ilustrados, sem grande história, porque às vezes encontramos crianças que não conseguem ouvir, ou que não sabem português, inglês e francês. Às vezes, apanhamos crianças que vêm do Oriente, não percebem uma única palavra, mas conseguem imaginar a história connosco.
Estas regras são todas ensinadas na formação, por isso é que a formação é mesmo obrigatória.
Relativamente aos prémios, referiu há pouco que são importantes, como financiamento. Um deles foi o Prémio Cidadão Europeu (2023). Foi um reconhecimento além fronteiras do vosso trabalho?
Sim, o Parlamento Europeu teve a amabilidade de distinguir o nosso projeto como um dos melhores projetos de cidadania em Portugal. Ficámos muito orgulhosos, obviamente, mas estamos a falar de ter recebido também prémios de Fundações, como a Fundación Moeve, ou a Fundação La Caixa BPI. Temos uma série de prémios, felizmente. Mas, correndo o risco de soar a cliché, o melhor prémio é mesmo aquela mensagem que recebemos ao fim da noite com os pais a agradecer porque o filho adormeceu, porque foi a primeira vez que o viram sorrir desde que está no hospital. Esse é mesmo, mesmo um grande prémio!
Ainda hoje recebemos uma mensagem de uma adolescente que está internada e que nos dizia: "é incrível o trabalho que estas pessoas que não me conhecem de lado nenhum vieram fazer aqui à hora que deviam estar a jantar com os filhos", e agradecia imenso. E é daquelas meninas que eu tenho quase a certeza - podia apostar - que daqui a uns anos vai ser nuvem.













