Mulheres na Igreja
"Espero ainda em vida assistir à ordenação sacerdotal de mulheres"
20 mar, 2026 - 18:37 • Liliana Carona
No mês de março, tradicionalmente associado à reflexão e à luta pelos direitos das mulheres, também no interior do país surgem vozes que questionam os limites ainda existentes na Igreja Católica quanto à plena participação feminina. Na Serra da Estrela, um padre missionário, com larga experiência pastoral em Portugal e em Moçambique, defende que a Igreja deve refletir seriamente sobre a igualdade de género e considerar a possibilidade de as mulheres acederem ao sacerdócio, reconhecendo o papel central que já desempenham na vida e na missão das comunidades cristãs.
As estufas, os campos verdes onde vacas e ovelhas pastam tranquilamente, as flores, o anfiteatro e a arquitetura marcante do Seminário de Gouveia, compõem uma paisagem bucólica para quem vive na cidade. Mas o que permanece menos visível, e “assim deve ser”, sublinha o padre Carlos Manuel Jacob Foitinho, é o trabalho que ali se desenvolve diariamente junto de quem mais precisa.
Longe da exposição pública, o seminário tornou-se um espaço de acolhimento e de apoio social, onde chegam pessoas marcadas por histórias difíceis: vítimas de violência doméstica, pessoas em situação de sem-abrigo, cidadãos com dificuldades de inserção social e até casos de exploração ou escravidão.
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Carlos Manuel Jacob Foitinho tem 66 anos, completados a 5 de fevereiro, e conserva uma energia que parece contrariar o peso das décadas. O sorriso fácil e a curiosidade permanente dão-lhe, muitas vezes, “uma alegria de menino”, como quem continua a olhar o mundo com surpresa.
Para além de reitor do Seminário de Gouveia, celebra todas as quartas-feiras missa no lar da Santa Casa da Misericórdia. “Telefonam-me se eu me atraso”, conta, entre o humor e o sentido de responsabilidade pastoral. É também pároco de Melo, Nabais, Nabainhos e São Paio, funções que encara com naturalidade. Ainda assim, relativiza o volume de trabalho atual: “É pouco trabalho para quem chegou a ter 120 paróquias em Moçambique”, recorda o padre missionário.
O protagonismo feminino nas comunidades
A experiência pastoral acumulada ao longo dos anos, tanto em Portugal como em África, levou-o a reconhecer o papel decisivo das mulheres na vida concreta das comunidades cristãs. Ao recordar o seu percurso, refere que essa presença feminina sempre fez parte do quotidiano da Igreja. “Tive experiências riquíssimas no campo da evangelização, da pastoral e também no acompanhamento e na formação de jovens”, conta, explicando que, no próprio seminário, o contributo das mulheres sempre foi fundamental.
“Aqui nesta casa sempre houve mulheres, não só freiras, mas também leigas, professoras que davam aulas no seminário e que acompanhavam os alunos. As irmãs sempre fizeram parte da história desta casa, portanto o lado feminino sempre esteve presente.”
Havia mulheres que eram verdadeiramente as agentes pastorais máximas da comunidade
Essa realidade tornou-se ainda mais evidente durante os anos de missão em Moçambique, onde testemunhou comunidades profundamente sustentadas pela dedicação das mulheres. “Vi realmente que as mulheres desenvolveram um trabalho extraordinário”, afirma, descrevendo o papel que muitas assumiam no quotidiano pastoral: “Eram animadoras das comunidades, responsáveis pela catequese, pela liturgia e, muitas vezes, pela própria organização da comunidade.”
Em vários contextos, recorda, eram elas quem assegurava a continuidade da vida eclesial. “Havia mulheres que eram verdadeiramente as agentes pastorais máximas da comunidade.” Por isso, quando se coloca a hipótese de mulheres no sacerdócio, a ideia não lhe provoca estranheza. Pelo contrário, entende que essa possibilidade poderia fortalecer a própria Igreja. “Para mim, haver mulheres sacerdotisas não me aflige, antes pelo contrário, seria uma mais-valia para a Igreja”, afirma, lembrando um dado que considera evidente na prática religiosa: “Se olharmos para uma igreja, a maior parte das pessoas que lá estão são mulheres.”
Mulheres que marcaram a história da Igreja
Na sua perspetiva, o debate não é apenas contemporâneo, mas encontra raízes na própria história do Cristianismo. O sacerdote recorda que a presença feminina esteve desde o início ligada ao percurso de Jesus e à construção das primeiras comunidades. “A própria vida de Jesus Cristo mostra que várias mulheres andaram com Ele”, refere, lembrando que o Evangelho revela uma proximidade constante entre Cristo e muitas figuras femininas. Também ao longo da história da Igreja surgem exemplos de mulheres cuja influência foi determinante em momentos cruciais. O padre Jacob recorda o episódio da conversão do imperador Constantino e o papel desempenhado pela sua mãe, Helena. “Basta olharmos para a conversão do imperador Constantino. Foi uma mulher, Helena, que conseguiu modificar as coisas e, a partir daí, a Igreja deixou de ser perseguida”, observa.
Na sua leitura, estes episódios mostram que o contributo feminino atravessa toda a história eclesial. “Não estou a falar apenas de santas ou de mártires”, esclarece, mas de mulheres que tiveram “um papel extremamente relevante na organização, no desenvolvimento e no funcionamento da Igreja, bem como na própria evangelização”.
“Somos fruto de uma sociedade profundamente machista”
Quando a conversa chega diretamente à questão da ordenação sacerdotal de mulheres, o padre missionário não esconde a sua posição. “Eu não vejo nenhum problema na ordenação sacerdotal de mulheres”, afirma, acrescentando que, “numa época em que tanto se fala de igualdade de género, a Igreja não pode deixar de refletir sobre esse caminho”.
Na sua leitura dos Evangelhos, a atitude de Jesus aponta precisamente para uma lógica de inclusão e de acolhimento. Recorda que Cristo nunca excluiu ninguém, nem mesmo aqueles que eram marginalizados pela sociedade. “Jesus nunca excluiu ninguém, mesmo as pecadoras, por maiores que fossem”, afirma, evocando episódios em que Cristo acolheu mulheres condenadas pelos outros.
Se olharmos bem para quem pratica a religião, são as mulheres. Porque é que elas não devem ser também as líderes?
Também a relação de Jesus com Marta e Maria surge como exemplo dessa proximidade. “Ele gostava de se encontrar na casa de Lázaro, de Marta e de Maria, e os episódios importantes que encontramos no Evangelho são com Marta e Maria, não com Lázaro”, recorda. Ainda assim, reconhece que muitas das resistências existentes têm raízes culturais profundas. “Somos fruto de uma sociedade profundamente machista”, afirma, admitindo que é esse contexto que explica o desconforto que certos temas ainda provocam dentro e fora da Igreja.
Apesar disso, considera que a realidade concreta das comunidades revela um dado difícil de ignorar. “Se olharmos bem para quem pratica a religião, são as mulheres. Porque é que elas não devem ser também as líderes?”, questiona.
Na sua própria experiência pastoral, acrescenta, o contributo feminino revelou-se determinante para o funcionamento das paróquias. “Quando hoje se fala tanto em igualdade de género ou emancipação, temos de dar passos de gigante”, afirma, reconhecendo que também os homens beneficiam desse reconhecimento. “Se eu não tivesse mulheres em algumas comissões fabriqueiras, seria muito mais pobre”.
“Estar atentos às realidades contemporâneas”
Questionado sobre a possibilidade de ainda vir a assistir à ordenação sacerdotal de mulheres, o padre Jacob responde com esperança. “Espero que sim”, diz, acrescentando com humor que, tendo a sua mãe 101 anos, talvez ainda tenha tempo para testemunhar mudanças profundas.
“O próprio Concílio Vaticano II já foi uma grande atenção aos sinais dos tempos”, afirma, lembrando que esse momento histórico representou um esforço de diálogo com a realidade contemporânea.
Por isso, defende que também hoje é necessário manter essa capacidade de discernimento. “Nos tempos que correm devemos fazer esse esforço de estar atentos às realidades contemporâneas.”
Apesar do debate existente em vários contextos teológicos e pastorais, a Igreja Católica não permite atualmente que mulheres recebam a ordenação sacerdotal. O Vaticano considera a tentativa de ordenar uma mulher um delito grave, que pode conduzir à pena de excomunhão segundo o direito canónico. Ainda assim, a discussão sobre o lugar das mulheres na Igreja continua presente em diversos setores da reflexão eclesial, num contexto mais amplo de questionamento sobre a participação feminina na vida e na missão das comunidades cristãs.













