Religião

Nova carta pastoral. Patriarca diz que é preciso “escutar” aqueles que se afastaram da fé e convida a mudar “o que for preciso”

05 abr, 2026 - 13:00 • Ana Catarina André

“Experiência de fé pouco significativa”, “escândalos que feriram a credibilidade eclesial” e “formalismo nas comunidades” são alguns dos aspetos indicados por D. Rui Valério para explicar a diminuição da prática religiosa. Numa Carta Pastoral, divulgada este Domingo de Páscoa, o bispo propõe “um grande movimento missionário”. “Não podemos ficar de braços cruzados, esperando que os afastados voltem por si."

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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, publicou este Domingo de Páscoa uma carta pastoral em que pede uma “reflexão profunda e sincera”, perante a diminuição de fiéis das últimas décadas, e convida a Igreja a mudar “corajosamente o que for preciso”.

O documento, intitulado “Levanta-te, Igreja de Lisboa e resplandece em Cristo”, assinado este domingo, no final da missa, na Sé de Lisboa, destaca a necessidade de “escutar aqueles que se afastaram, compreender as suas dúvidas e críticas legítimas” e convoca a um “grande movimento missionário de retorno às fontes e de saída ao encontro de todos”.

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“Não podemos ficar de braços cruzados, esperando que os afastados voltem por si mesmos. A Igreja deve ir ao encontro deles”, escreve o Patriarca, sublinhando, ainda, a importância de purificar aquilo que no clero e nos leigos “não foi fiel ao Evangelho” e acabou por desanimar os que atualmente estão mais longe.

D. Rui Valério cita o Papa Francisco, que preferia uma “Igreja acidentada e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento”, para fazer o mesmo pedido à sua diocese. “É melhor arriscar-se e sair ao encontro das pessoas, do que permanecer numa bolha de autopreservação”, escreve.

“Experiência de fé morna” e “rigidez e formalismo” nas comunidades

Na carta sobre a missão da Igreja de Lisboa, o bispo considera que é preciso “revisitar” o que levou a um afastamento da “prática regular da fé”, mais notório sobretudo depois da pandemia da Covid-19. “Muitas comunidades notaram uma diminuição significativa na participação e um certo arrefecimento de vida de fé”, alerta o prelado.

Como explicação para este fenómeno, D. Rui Valério aponta “fatores mais profundos”, como “um crescente secularismo”, “escândalos que feriram a credibilidade eclesial”, “uma experiência de fé morna ou pouco significativa que não convenceu muitas almas”, a par de “ritmos de vida que deixam pouco espaço para Deus”. No âmbito mais específico da vida da Igreja, como forma de aproximação dos fiéis mais distantes, o bispo indica a necessidade de “superar a rigidez e o formalismo que, por vezes, transformam as comunidades num espaço frio” e salienta a importância de os cristãos terem “uma vida coerente” que “fala por si” a quem está mais longe, além de uma capacidade de escuta “sem julgar”. “Muitas vezes, alguém pode reaproximar-se porque encontrou um rosto amigo e acolhedor que lhe mostrou o rosto de Cristo misericordioso”, refere.

Segundo D. Rui Valério, o clericalismo, "a liturgia mal preparada ou sem vida", homilias pouco ligadas à vida são "posturas eclesiais que, em vez de atraírem, repelem".

Crise nas relações, no trabalho e no mundo

Logo no início do documento, D. Rui Valério começa por fazer um diagnóstico do atual contexto “de grande complexidade” e enumera diversas crises que marcam o mundo, a sociedade e a Igreja: uma delas “no coração humano resultante de um vazio interior e de um analfabetismo espiritual”; outra nas relações que leva ao “egocentrismo e individualismo” à construção de identidades “desvinculadas da história e da natureza”, como a “ideologia de género”.

“Do ponto de vista macro, vive-se a situação da guerra, que se alastra por muitas geografias, o que ativa um clima de insegurança e medo, deixando sempre um rasto de pobreza e crise social, porque o preço da guerra reflete-se no aumento do custo de vida”, acrescenta. Ao longo do texto, D. Rui Valério detém-se, ainda, sobre o contexto social em Portugal, onde o trabalho “continua a ser muitas vezes desvalorizado, como o revelam os níveis salariais de tantos trabalhadores”.

“Persistem, por isso, condições de vida marcadas pela precariedade em numerosas famílias, agravadas pelo aumento sensível do custo da alimentação e da energia, bem como pela persistente dificuldade de acesso a uma habitação digna”, diz, referindo ainda o envelhecimento da população, “o acentuar das assimetrias territoriais que fragilizam a coesão social” e o fenómeno da solidão “presente, de forma transversal, em toda a sociedade contemporânea”.

Ao caracterizar a realidade social em Portugal, D. Rui Valério aborda “a crescente dependência da inteligência artificial” e o “clima de polarização, que distancia as pessoas e dificulta a aproximação, o entendimento e a colaboração”. “A muitos níveis, falta disponibilidade para escutar o outro”, afirma. E diz: “Um dos excessos típicos da nossa sociedade é a articulação da sua convivência quase exclusivamente nas redes sociais, o que obriga, cada um, a uma desenfreada competição, tornando-se difícil reconhecer a validade contida na experiência, nas opiniões, nos percursos dos outros.”

Catequese “mais séria” e mudança de mentalidade sobre a Confissão

No documento, em que sublinha, por diversas vezes, que “só Cristo salva o homem” e propõe um itinerário que liga o Jubileu de 2025 e o Jubileu da Redenção em 2033, D. Rui Valério aponta vários caminhos a seguir. Como prioridade, pede “uma catequese séria e profunda” e afirma ser urgente “renovar a fé eucarística” nas comunidades. “Muitos católicos participam da Missa dominical talvez de modo habitual, como quem cumpre um rito de tradição, sem se darem plenamente conta do que ali acontece”, admite, frisando, ainda, como outro ponto, a importância de “reacender o amor à Palavra de Deus”. “Que se criem círculos bíblicos, grupo de reflexão, homilias mais bíblicas”, sugere.

Ainda sobre a participação na vida da Igreja, D. Rui Valério reconhece que “muitos católicos” abandonaram a Confissão, seja por terem “uma visão deturpada a seu respeito, seja por vergonha”, seja por considerem este sacramente “desnecessário”. “Precisamos de mudar esta mentalidade”, enfatiza o prelado, recomendando que haja maior “disponibilidade de horários de confissão” e momentos públicos litúrgicos de penitência.

Além da Eucaristia, da Palavra e da Confissão, o bispo pede que se conheça melhor a doutrina sobre a Virgem Maria e que se dê mais atenção aos pobres. “Deve ser claro para todos nós que não podemos amar a Deus sem amar aqueles que Ele ama de modo especial: os pequenos, os excluídos e os sofredores”, diz.

Uma tarefa para todos os batizados

Para concretizar estas propostas, D. Rui Valério propõe iniciativas de evangelização nas comunidades, paróquias e vigararias. “Seria importante que se promovessem momentos fortes de ação evangelizadora, como as missões populares – seja por altura das visitas pastorais, seja noutras ocasiões, como visitas da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, nos círios tradicionais, ou nas festas e solenidades dos padroeiros locais. Também momentos de peregrinação a algum santuário são oportunidades de fazer ressoar o chamamento à vida divina”, menciona.

No fundo, diz o Patriarca, “cada paróquia deve tornar-se uma ‘comunidade em missão’, criativa em buscar os distantes”, o que pode passar por “visitas familiares, escuta dos que se sentem magoados ou indiferentes” e até “uma presença mais próxima no mundo digital e nos ambientes da cultura”. “Precisamos de ir às «periferias existenciais», onde há sede de Deus, mesmo quando não é consciente. Pensemos nos jovens desiludidos, nos lares feridos, nos pobres materiais e espirituais, nos doentes e nos que estão sós”. Uma missão, remata o bispo, que não é apenas do clero e dos “agentes pastorais oficialmente designados”, mas de todos os batizados, cada um “com uma missão insubstituível”.

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