REPORTAGEM

Padres influencers. "Não fui ordenado para a internet, mas para servir o povo que também habita a internet"

09 abr, 2026 - 07:30 • João Maldonado

Aposta na realidade digital tem crescido e há cada vez mais sacerdotes a destacar-se. São indicados perigos como o "vício", o "ego" e "padres maiores que a Igreja". Mas há também quem aponte que não se pode continuar "a responder com comunicados enviados por email numa época em que as pessoas consomem vídeos de 30 segundos e já sabem tudo".

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É na Igreja de Santa Maria dos Olivais que o vigário paroquial nos recebe. É o número dois tanto nesta paróquia como na dos Olivais Sul, tarefa a que junta a de capelão num hospital da CUF. O padre Pedro Figueiredo tem 34 anos e mais de 70 mil seguidores no Instagram. No TikTok conta com cerca de 25 mil, mas ao mesmo tempo tem vídeos a superar as 300 mil visualizações (sendo que cada utilizador pode ver o mesmo vídeo várias vezes). Pelo Facebook os números são mais modestos, mas mesmo assim bastante altos, especialmente para a realidade do clero português: cerca de 12 mil seguidores.

Em termos comparativos, o Patriarcado de Lisboa não chega aos 8 mil seguidores no Instagram e um movimento tipicamente de jovens como os jesuítas do CUPAV (Centro Universitário Padre António Vieira) regista cerca de 13 mil.

Baptizado “bem cedo”, admite que nem sempre foi católico. Filho de pais separados, cresceu "num ambiente não muito católico e até com algumas feridas expostas em relação à Igreja”. Estudou em colégios católicos, mas quando entrou na Universidade (Católica, curiosamente), dizia-se “um convicto ateu”. Uma morte de um familiar fê-lo começar a rezar e a Missão País acabou por ser o ponto de viragem. Acompanhado na Igreja de São Nicolau, acabou por entrar para o seminário depois de concluir um curso de gestão que já não lhe “preenchia o coração”.

Admitindo que já tinha uma “vontade enorme de fazer vídeo”, foi para promover uma festa paroquial que gravou as imagens que o lançaram no mundo digital. “Decidi fazer um vídeo na brincadeira para convidar as pessoas. Sabia que o algoritmo ia pegar na localização e ia enviar o vídeo às pessoas daqui e, de facto, a festa teve o dobro da receita operacional, ou pelo menos o dobro das vendas, do que costuma ter. Há de ter sido porque já era o terceiro ano da festa – portanto há um crescimento natural daí –, mas acreditamos que houve alguma exponenciação a partir do trabalho no digital”.

Ficou com o “bichinho”, foi “perdendo a vergonha” e daí começou a fazer vídeos “sobre curiosidades da missa, da confissão”, juntando-lhes “um bocadinho de catequese e algum humor”. Agora tem rubricas que tenta respeitar, como a «homilia express» (“uma mini homilia por semana sobre os textos de domingo” que é normalmente colocada no final do dia “para não impedir que as pessoas vão à missa”, mas ao mesmo tempo fiquem “com um complemento” ao que levaram da eucaristia dominical).

A nível de periodicidade das publicações “idealmente para agradar ao algoritmo produzia vídeos todos os dias”, mas há alturas, assume, em que se tenta desligar. “No verão estive um mês e meio sem publicar nada. Também não me quero tornar escravo disto”, sublinha. E se ab initio os vídeos que filmava eram editáveis, hoje em dia, por questões de tempo, “pego na câmara, gravo, meto na aplicação, legendas e mais nada – escolho só a capa, às vezes posso meter alguma descrição, mas tem sido isso muito simples”.

Se há publicações com ímpeto claramente católico, outras são indubitavelmente momentos de humor. “Às vezes podem ser só peripécias. Houve uma missa em que entrou um periquito, houve uma senhora que fez ali uma trafulhice com a água benta. Outras pego numa pessoa mais idosa ou nos jovens. Tento que não seja sobre mim. O objetivo é levar as pessoas a Cristo.”

Sempre apontado como um dos grandes riscos das redes sociais, o “ego” é, concorda o padre Pedro Figueiredo, um dos grandes perigos que também o afeta. “Mexe muito comigo, é difícil, é um desafio grande. O objetivo não é sermos influencers de nós mesmos, é sermos influencers de Deus”. Com o crescimento exponencial dos números nas redes sociais, vão também aumentando os likes, os comentários e as mensagens privadas. A muitas não responde, não por mal, mas porque não quer "que as pessoas fiquem agarradas" a si.

“Tento sempre ter esta batalha de não fazer de mim um avatar, um ídolo, mas que o trabalho que faço seja para Deus”. Ainda assim, admite, acaba por criar “lixo digital que se acumula”, arrependendo-se de vídeos que criou e que “não tiro porque senão o algoritmo mata-me”. Como exemplo, refere um vídeo em que diz às pessoas: “se tu me segues e não vais à missa mais vale não me seguires”. Foi “provocatório” e admite que tenha havido quem ficou “magoado”.

O padre Pedro Figueiredo acredita que era bom ter uma equipa a trabalhar consigo, mas, enquanto não a possui, vai pedindo opiniões à família, ao seu prior nos Olivais e aos grupos de jovens que orienta. “Não faço a mínima ideia de como é que se mede o sucesso. Consigo ver o número de likes, consigo ver o número de partilhas e consigo ver o número de comentários, mas às vezes não vai em meu favor. Há vídeos em que ponho palhaçadas e aquilo viralizou só porque é um padre a dizer tontices ou a partilhar coisas engraçadas que aconteceram”.

Sobre o contacto com os colegas padres, admite que tenta não abordar muito esta sua presença digital. “Evito um bocado, porque tenho algum receio”. Garante não saber, em geral, o que dizem sobre si – se gostam ou não do que vai publicando. Contudo, entre os mais próximos vai recebendo também alguns conselhos. Por vezes, são seguidos. Noutras, ignorados.

“Acho que é importante procurarmos termos uma presença digital para chegarmos às pessoas, porque é onde as pessoas estão. Muitas vezes penso: não fui ordenado para a internet, mas fui ordenado sacerdote para servir o povo, que também habita a internet”, reflete, negando que todos os padres tenham de fazer o mesmo caminho que tem desbravado. “Se não têm jeito e não se sentem à vontade, não precisam”.

Não obstante, o reflexo que tem visto é positivo. “Aquilo que procuro é semear. Acredito que as pessoas pelo menos vão saber as horas, o que está a acontecer, vai ser pelo menos um reminder, um gancho para tentar puxá-las e ser a rede que nós atiramos em mar alto para depois vir ao porto de abrigo que é as paróquias”.

No final da entrevista, há ainda uma pergunta que se impõe colocar. Um padre pode também ser viciado nas redes sociais? A resposta é dada sem hesitar. “Tenho vício”. À noite, também a consumir conteúdo que aprecia, admite ficar cerca de uma hora no telemóvel. “Passo bastante tempo, tenho de reconhecer, e procuro combatê-lo – é muito difícil”.

Vindo do Algarve rumo aos estúdios da Renascença, aproveitando uma vinda a Lisboa para gravar esta entrevista, o padre Miguel Lopes Neto é o indicado, através de múltiplos contactos, para nos falar sobre esta temática. É que quando soarem as primeiras 12 badaladas do dia 22 de abril, hora de Espanha, na Universidade de Huelva apresentar-se-à este doutorando para conseguir de lá sair doutorado na área de Literacia Mediática.

Focando-se no clero português o estudo que erigiu reflete sobre como “conseguimos transpor para o ambiente digital aquilo que é a presença dos valores judaico-cristãos”, que também pode ser lidos, refere, de uma forma mais “abrangente”, como “valores humanistas”.

Depois de ultrapassado o “não podemos demonizar nem idolatrar as redes sociais”, a primeira conclusão apresenta-se como óbvia para o investigador. “Nós não temos competências mediáticas. Eu brincava muito no início. Antes de começar a tese já sabia qual era a primeira resposta. Claramente nós não temos competências mediáticas”, resume, referindo a necessidade urgente de mais formação neste tópico. Formação essa que pode começar nos seminários, através de uma maior aposta, acredita, no plano de estudos universitários que é seguido pelos aspirantes a padres em Portugal. E formação essa que pode também ser dada pela Igreja, argumenta, a leigos que queiram inserir os valores propostos pelo catolicismo no mundo digital.


Com quase três milhões de seguidores no Instagram, o padre Paulo Ricardo, brasileiro, é um dos casos de maior presença católica nas redes sociais.


Não se tratam, diz, de “competências do ponto de vista de software e hardware” ou de “competências de edição de vídeo”. A formação que propõe tem a ver “com o conteúdo” e com a “maneira como lidamos com o conteúdo”. Para isso, será necessário compreender todo o sistema de funcionamento num mundo online.

“É preciso algo tão simples como quais são as fontes de informação, o que é que está em causa com as redes sociais, o que é que se comercializa com as redes sociais. Como é que funciona os algoritmos, a retenção, a atenção. O que são bolhas de filtro. Como funciona a comunicação enviesada. Posso ter um bom telemóvel topo de gama, posso ter um estúdio enorme de edição de vídeo para fazer um minuto no TikTok, mas eu como cristão tenho que saber como é que faço o conteúdo cristão para aquela plataforma”, sublinha.

Entendendo que cada plataforma tem uma maneira distinta de funcionamento e de propagação do que é publicado, o padre Miguel Lopes Neto defende que, entre o clero, “todos devíamos ter redes sociais e saber usá-las”.

Aos críticos destes meios de comunicação digital, que os veem como munidos de um mal intrínseco, a resposta surge em forma de metáfora: “Não são os carros que têm a culpa dos acidentes rodoviários. O carro é guiado por uma pessoa. O carro pode estar em mau estado, a pessoa pode ter excesso de velocidade, pode estar embriagada, pode estar ao telefone. A máquina em si não tem culpa do acidente. Mesmo que não tenha pastilhas de travão, a pessoa tem que cuidar”.


A Paróquia da Lourinhã tem aumentado nas últimas semanas a presença nas redes sociais. Este é um dos vídeos de maior sucesso.


Para apelar a uma “equiparação” entre o trabalho que é desenvolvido nas paróquias com a comunidade e o trabalho online, o padre Miguel lembra as indicações dadas pelo Vaticano em 2023 num documento intitulado “Rumo à Presença Plena”. Em resumo, diz que “cabe à Igreja transpor os valores humanistas, os valores cristãos, nas redes sociais e tentar esclarecer as pessoas, tentar dar exemplo, tentar ser cristão como nós somos num ambiente físico num ambiente digital”.

Apontando ao exemplo sul-americano, o sacerdote doutorando reforça a existência do que considera ser boas e más práticas. Se, por um lado, há um bispo na Colômbia que convida os jovens para as atividades publicando curtos vídeos no Instagram e no Tik Tok. Por outro, há também “um perigo muito grande” que chega principalmente do Brasil – “em que o padre é maior que a paróquia e para conseguir likes e seguidores, para haver o chamado engagement, diz aquilo que as pessoas querem ouvir”.

Nestes casos, prossegue, “os seguidores daqueles padres só veem aqueles padres, o que aquele padre diz é que é a verdade absoluta” – sendo assim “maiores que a sua comunidade” e, quiçá, maiores do que o Papa (que neste raciocínio corre o risco de perder a centralidade devida na fé católica para os influenciadores).


O cardeal Américo Aguiar (bispo de Setúbal) é entre os bispos portugueses dos que mais tem optado por uma estratégia de presença ativa nas redes sociais.


À Igreja em Portugal o apelo que é deixado é de uma “estratégia de comunicação no ambiente digital, porque numa época de Tik Tok não se responde às necessidades com comunicados enviados por email”. Criticando um clero que “navega a duas velocidades”, o padre Miguel Lopes Neto lembra que “continuamos a responder com comunicados enviados por email numa época em que as pessoas consomem vídeos de 30 segundos e já sabem tudo”.

Não querendo entrar em detalhes acerca de dioceses específicas, reforça, terminando a sua intervenção, que “se nós não ocuparmos esse espaço vai ser ocupado por outras entidades que vão dar respostas ou más ou péssimas ou usar a atenção das pessoas para o que não é cristão” – falhando assim o objetivo “de estar onde estão as pessoas para mostrar a imagem de Jesus Cristo”. Em suma, nesta opinião, se a Igreja não estiver presente online, os fiéis “vão procurar outro tipo de respostas”.


Frei Gilson é um dos maiores fenómenos da internet ao nível eclesial. Conta com milhões de seguidores.


A Igreja é toda ela, desde o magistério, favorável a que se tenha a esfera do digital como um território legítimo de evangelização”, começa por esclarecer o padre António Jorge, da Diocese de Viseu. No entanto, para este secretário da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios (que é também reitor do Seminário Interdiocesano de Gondomar), ao nível da formação “há muito mais a fazer”.

O nome indicado pela Conferência Episcopal Portuguesa para nos falar sobre este assunto explica que a formação de seminaristas para a realidade digital “não é residual”, mas “ainda há uma certa reserva”, acentuando-se “mais nos perigos do que nas vantagens”. É que apenas no sexto ano “da formação das disciplinas ministeriais” existe o “cuidado de haver um módulo sobre comunicação social e evangelização”.


O padre jesuíta Paulo Duarte, sediado em Braga, conta com mais de 38 mil seguidores no Instagram.


Para o padre António Jorge a formação deve passar a ser “gradual” para se conseguir “tirar partido das redes sociais para o futuro Ministério Sacerdotal”. É hoje “muito urgente”, reforça. O principal perigo que destaca advém da “hiperconexão” que rouba tempo e energia para a verdadeira formação. “Hoje o grande perigo, que é aquele que é também denunciado pelo Santo Padre em relação aos sacerdotes, é os próprios padres se autoproclamarem influencers. A formação sacerdotal tem que ajudar a crescer neste equilíbrio, senão um dia o que é que temos? Não temos pastores, temos influencers. Isso já não é imitar Jesus”.

Tal como “Jesus e os apóstolos usaram todos os meios que estiveram à disposição”, também a Igreja valida assim o uso destes meios. Contudo, “em todas as áreas o seu a seu dono”, salienta o padre do departamento responsável pela vocações na Igreja, apelando a que os sacerdotes se foquem nas suas missões essenciais.

“Aos sacerdotes cabe refletir o conteúdo. Cabe ajudar a discernir o horizonte e a meta da comunicação. Aos técnicos cabe ajudar-nos a encontrar a melhor linguagem, imagem, som para divulgar aquilo que a Igreja quer divulgar em termos de evangelização. Corremos o risco, os sacerdotes, de querer fazer tudo. De dispensar os meios técnicos e os profissionais e quando chega a hora de cuidarmos dos conteúdos já estamos cansados ou corremos o risco de ser superficiais”, sublinha, enquanto pede um trabalho de equipa entre padres e profissionais da comunicação neste aspeto.

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