ENTREVISTA
Papa em África. "Vai ser uma visita com muita alegria, muita festa, muita vida"
11 abr, 2026 - 08:20 • Ângela Roque
Padre Tony Neves, conselheiro geral dos missionários espiritanos, analisa na Renascença as etapas da viagem pastoral que vai levar Leão XIV a quatro países africanos muito diferentes entre si. Num continente marcado por “vários tipos de violência”, prevê que a preocupação com a paz estará “no coração das intervenções do Papa”.
O padre e jornalista Tony Neves conhece bem o continente africano, onde já foi missionário e, nas atuais funções de conselheiro geral dos espiritanos, acompanha e dá assistência aos que estão no terreno em vários países. Em entrevista à Renascença, olha para as várias etapas da viagem pastoral que, de 13 a 23 de abril, vai levar o Papa a quatro países.
Da difícil realidade na Argélia – onde os cristãos são “tolerados”, mas já quase não existem –, passando pelos Camarões – onde há “muita vontade de acolher o Papa –, e por Angola – que “tem os seminários cheios” e está a multiplicar dioceses –, terminando na Guiné Equatorial – o único país africano de língua espanhola, mas que integra os PALOP, e onde a Igreja Católica “está muito forte” , o sacerdote antecipa uma visita marcante.
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O Papa vai a quatro países africanos: Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Como podemos ler a escolha destes destinos, entre tantos outros países possíveis em África?
Eu só percebo o início da viagem, pela Argélia. O Papa é agostiniano e vai especificamente a Annaba, antiga Hipona, onde Santo Agostinho foi grande bispo. Estará também em Argel, o que é normal, é a capital, mas claramente ele vai à Argélia por causa de Annaba.
É um espaço importante em termos da história inicial da Igreja, porque até ao século V era uma Igreja muito florescente, chegou a haver três Papas originários daquela área que hoje é a Argélia. Agostinho foi um dos expoentes máximos da filosofia e da teologia, e era bispo em Hipona - Annaba atualmente. Mas, depois, houve as invasões vindas da Península Arábica, e em muito pouco tempo o cristianismo foi quase desfeito.
Argélia. “Muitos vão ver um cristão pela primeira vez”
E hoje é um país maioritariamente muçulmano.
Sim, quase 100% muçulmano, com muito pouca liberdade religiosa. A liberdade de conversão é nula. A Igreja Católica hoje é residual, faz um exercício belíssimo de presença e diálogo inter-religioso, e pouco mais pode fazer.
É muito difícil obter vistos para trabalhar lá. Nós, espiritanos, estamos lá - não na diocese de Argel, mas na Diocese de Oran – há mais de 50 anos. Alguns missionários nasceram ali, no tempo colonial francês.
Mas, é uma área complicadíssima, e é uma presença que temos de reequacionar sempre, porque há quem saia e depois não tem visto para regressar, os vistos para os novos são concedidos a conta gotas e com muita dificuldade, e há regras muito rigorosas: nós só podemos trabalhar com estrangeiros. Aliás, a Igreja Católica só é tolerada para poder acompanhar espiritualmente as pessoas que não são argelinas e estão ali a trabalhar, e sendo de origem cristã, o governo ainda tolera que haja um acompanhamento espiritual destas pessoas.
A situação é complicada. Todos nos recordamos do filme que foi feito sobre os monges de Tibhirine, que foram barbaramente assassinados (em 1996), só escapou um porque estava escondido. Isso deu origem ao filme "Dos homens e dos Deuses", que teve muita repercussão, foi muito visto e analisado. Mas, a verdade é que a situação na Argélia vai continuar a ser uma situação de puro e duro diálogo interreligioso como nós, cristãos, o concebemos. Porque para a Argélia, enquanto Argélia, e para o governo argelino, a nossa presença só incomoda.
Nesse sentido, esta é uma etapa corajosa desta viagem?
Sim, é corajosa. Recebi bastante informação, sobretudo de França, sobre esta viagem e sobre a Argélia, e uma das coisas que li e achei muito interessante é que esta visita é sobretudo importante para os argelinos – que nas redes sociais, ou se as televisões estatais transmitirem, vão ver um cristão pela primeira vez. Há uma enorme geração de argelinos que não sabe que existem cristãos, e com a ida do Papa irão ver um cristão pela primeira vez na sua história.
E um cristão especial, que os representa.
O chefe da Igreja Católica.
Nesse sentido, é uma etapa simbólica?
É simbólica e é importante. Mas, claro, para o Papa é, sobretudo, uma ida às suas raízes, à sua fonte, enquanto monge agostinho de origem.
Camarões. “Vi muita pessoas com uma vontade enorme de fazer tudo para acolher o Papa”
A viagem prossegue nos Camarões, onde o padre Tony Neves esteve em missão já este ano, em janeiro.
Sim, um mês inteiro. É uma realidade completamente diferente. Apesar de ser um país desequilibrado, porque tem uma parte francófona que manda, e uma parte anglófona que se quer tornar independente, tem também uma parte maioritariamente cristã e outra que é de maioria muçulmana.
É um país que se está a estruturar. O Papa é muito prudente nas escolhas que faz, porque vai à capital política, Yaoundé, onde passei boa parte do tempo em que lá estive, sobretudo nas periferias, onde os espiritanos têm diversas paróquias e missões; vai a Douala, que é a grande cidade económica, o grande porto, e depois vai a Bamenda, que é a maior cidade do espaço anglófono.
Tive oportunidade de visitar o leste e extremo norte do país. Maroua foi muito falado, em relação à hipótese do Papa não ir, por questões de segurança. Com os ataques do Boko Haram, a partir de 2014, a cidade e a região, que era muito turística e visitada mesmo por europeus, neste momento está completamente parada. As embaixadas dos países europeus e norte-americanos obrigaram os seus missionários a abandonar a região, porque houve o rapto de três missionários, foi muito complicado. Eu, nos cinco dias em que lá estive, só vi um rosto branco, e visitei diversas missões. E porquê? Porque só um espiritano espanhol que está lá há 40 anos, que fala fulfulde, que é a língua local, e fala o árabe. Está na casa do encontro, que é um espaço onde islâmicos, católicos e protestantes acolhem muitos jovens e têm uma grande biblioteca. É um centro para promover o diálogo e a paz, e ele, o padre Juan Antonio, um basco, todo forte, está lá há 40 anos e diz que não sai, embora a embaixada de Espanha o tivesse exigido.
É o único estrangeiro que reside ali. Mesmo os chineses, que tinham lá muitas lojas, todos abandonaram aquela área, porque o Boko Haram quando entra é para a destruição total. É uma área pouco segura, é complicado.
O Papa não irá aí, vai a Yaoundé, Douala e Bamenda, mas naturalmente que essa área estará nas preocupações do Papa, e os Camarões vão ter de ajudar a resolver este problema.
Houve alguma prudência nas etapas escolhidas para o Papa ir.
Sim, vai a sítios onde se pode ir, mas, ao mesmo tempo, equilibra os dois braços, o anglófono e o francófono.
Acho que vai ser uma visita muito boa.
Sentiu que era uma visita já esperada e desejada pela população?
Vi muitas pessoas com uma vontade enorme de fazer tudo para acolher o Papa. Os camaroneses com quem falei – e falei com muitos, em muitas geografias do país – sentiam-se muito honrados com esta escolha, e querem, obviamente, estar com o Papa! E vão fazer missas vivíssimas, uma festa enorme de acolhimento, porque sentem que esta visita os honra e pode ajudar a construir paz e a abrir o futuro.
Para a Igreja Católica é importante, porque sairá fortificada na sua relação de forças com outras igrejas, com o Islão e com a sociedade mais laica.
“Acredito que Angola vai ganhar muito com esta viagem”
Segue-se Angola, um país que o padre Tony Neves conhece muito bem, que está a celebrar 50 anos de independência. Que importância poderá ter esta deslocação num contexto tão especial?
Antes de mais, é uma honra enorme o Papa ter escolhido Angola para a primeira viagem [a África]. Podia ter escolhido outros países, se calhar mais florescentes a nível católico. Mas, Angola está muito forte, tem os seminários cheios, muitas vocações e está a multiplicar as suas diocese - neste momento há quatro ou cinco em preparação, além das três ou quatro últimas que nasceram.
De facto, desde que João Paulo II percorreu o país, em 1992, foi feito um longo caminho, o mais importante foi o da pacificação de Angola.
A guerra acabou em 2002, o Papa Bento XVI esteve lá em 2009 – e acho que foi enganado, pois ainda era José Eduardo Santos o presidente, e mostrou-lhe a maquete do Santuário de Nossa Senhora de Muxima, que o governo ia fazer para respeitar a vontade do povo, mas não fizeram nada. Agora, crê-se que sim, que as obras da Basílica vão começar. Prepararam um grande terreno onde vai acontecer a visita.
Um dos aspetos mais interessantes da visita, para mim, está nas escolhas. O Papa João Paulo II esteve uma semana, praticamente, eu fui comentador para a Rádio Nacional de Angola, era ainda um jovem padre e fui requisitado para isso. Tive a alegria de o acompanhar, e até fui a São Tomé. Mas, nesta visita, Leão XIV vai à Muxima, província de Bengo, é uma nova província, mas pertence à diocese de Viana. Nenhum Papa foi ainda a Viana, é a primeira vez que um Papa se desloca a esta diocese e a esta província.
Depois, com o patrocínio do presidente da Conferência Episcopal, D. José Manuel Imbamba, vai a Saurimo, capital da província de Lunda sul, encostada ao Congo - Kinshasa, uma área que tem tido escaramuças por causa da exploração de diamantes. João Paulo II não visitou aquela zona, e Leão XIV vai.
São, mais uma vez, etapas escolhidas a dedo?
A dedo, e com novidade. Porque, mesmo em Luanda, a grande Missa vai ser no Quilamba, que é uma urbanização nova, uma nova cidade de Luanda. Pertence à área metropolitana, mas chama-lhe uma "nova centralidade". É lá que o Papa vai celebrar. Depois escolhe quatro sítios que são praticamente obrigatórios, por questões protocolares: Nunciatura, Palácio presidencial, na Senhora de Fátima e, curiosamente, vai utilizar o velho aeroporto 4 de fevreiro, que está já desativado. O Aeroporto Internacional de Luanda agora é o Aeroporto Agostinho Neto, que fica em Viana, já foi de lá que voei para diversos sítios. Mas, o Papa Leão ainda vai aterrar no velho aeroporto, que é muito mais central, quer para ir para a Nunciatura, quer para o Palácio do presidente. E mesmo para voltar a Roma, depois de Nossa Senhora de Fátima, é muito mais central.
Há duas ou três coisas que podem marcar esta visita: primeiro, os 50 anos da independência de Angola, como referiste, mas estamos também a comemorar os 450 anos da fundação da cidade de São Paulo de Luanda, como lembra a mensagem da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST).
Uma coisa engraçada, os bispos tentaram puxar por galões históricos, alguns com ligação clara ao colonialismo: a CEAST diz que Angola 'foi o primeiro país a acolher o Evangelho', que foi lá que aconteceram 'os primeiros batismos cristãos', que 'o primeiro bispo negro da história, no século XVI, é angolano', e que de Angola chegou a Roma, em 1608, o primeiro embaixador da África subsaariana' - são tudo coisas do tempo colonial, mas que a Conferência Episcopal quis agarrar como elementos importantes para a história. E diz também que 'há um crescimento evidente do catolicismo em Angola'.
Tenho seguido muito a comunicação social e as redes sociais angolanas, fala-se muito da relação entre dinheiros públicos, doações, dinheiros de Igreja, quem é que paga o quê, tem-se dito muita coisa. Outra coisa tem a ver com o Santuário de Muxima. Habitualmente os santuários são feitos pela Igreja, mas, neste caso, o governo quer construir o santuário. Isto acontece um ano antes das eleições.
D. José Bettencourt, anfitrião português de Leão XIV: "O Papa quer entrar na profundidade e no coração de África”
“Desde o Rio dos Camarões e Angola à Ilha de Ferna(...)
O que é que isso pode significar?
Pode haver aí algum aproveitamento político por parte do atual governo.
Outro dado, a que sou particularmente sensível, é que quando João Paulo II foi a Angola, eu próprio estive no palácio presidencial, e o Papa encontrou-se com todos os líderes da oposição, incluindo Jonas Savimbi. Desta vez, não está previsto nenhum encontro, nem sequer com os líderes partidários que têm assento na Assembleia Nacional. Bastava o Papa ir à Assembleia Nacional para se encontrar com eles...
E isso acontece porquê, em sua opinião?
Ninguém consegue explicar. Penso que o próprio regime angolano terá imposto alguns limites ao programa. Não sei. De qualquer forma, nas redes sociais, nos meios de comunicação mais livres e menos afetos ao governo, fala-se disso.
Um último aspeto a referir é o grande investimento que a Igreja fez nos últimos tempos em saúde e educação. Não é só a Universidade Católica. Irmãs, dioceses, paróquias, investiram muito em escolas secundárias, colégios, e esse enquadramento às vezes não é muito óbvio, em termos de sociedade civil.
O mesmo se diga em termos de saúde, há muitos hospitais, clínicas e dispensários que a Igreja foi construindo, sobretudo nas missões, e o enquadramento legal destas instituições ainda não é muito claro.
E a visita do Papa pode ajudar? Pode dar força à Igreja, nesse sentido?
Espero que sim. Porque eu acho que Angola só tem a ganhar com uma Igreja forte, interveniente, que tenha a preocupação com os vulneráveis e com os pobres.
O problema, não só em Angola, é quando a Igreja começa a ter uma postura muito social... por exemplo, a Igreja angolana há algum tempo lançou o grande Congresso da Reconciliação, organizada pela Comissão Justiça e Paz, e a presidência da república demarcou-se. O presidente foi convidado, disse que sim, até mudaram as datas para o presidente aparecer, e não apareceu, nem ninguém ligado ao governo. E o Congresso era sobre a reconciliação nacional, obviamente, que o governo para a reconciliação é importante, joga um papel decisivo. Não apareceu.
Há outras situações em que não aparece, ou aparece e desaparece. Parece que tem medo que a Igreja ganhe protagonismo, porque a Igreja denuncia violações dos direitos humanos, irregularidades...
Os bispos angolanos são interventivos e frontais?
Sim, têm uma longa história de intervir quando é preciso intervir, em defesa das populações, e por mais justiça, mais paz, mais ecologia e mais respeito pelos direitos humanos. Às vezes parece que estas intervenções da Igreja são recebidas com alguma suspeita, e é pena.
Mas, esta visita do Papa será importante para a Igreja, para os católicos, e para os angolanos em geral?
Espero que seja para todos. Uma visita do Papa é, obviamente, pastoral, é uma viagem apostólica, direcionada particularmente à comunidade católica no terreno, mas palavras como as que habitualmente um Papa diz nas suas viagens, que são palavras de humanidade, de paz, de justiça, de respeito pelos direitos humanos, são importantes para o conjunto da sociedade. E a mensagem que ali deixará, o testemunho que transmitirá, é fundamental para criar uma sociedade mais justa e democrática.
Guiné Equatorial. “É o único país africano de língua espanhola. A Igreja é muito forte”
A última etapa será a Guiné Equatorial, onde se situa uma das maiores basílicas de África, e que é um país que desde 2011 faz parte dos PALOP. É relevante esta deslocação?
Eu fiquei muito na dúvida sobre as verdadeiras razões que levam o Papa lá. Eu já aterrei em Malabo, uma ilha lindíssima [ilha Bioko] – vi só da janela do avião, não pisei território da Guiné Equatorial.
Temos lá confrades, e os relatórios chegam-nos. É o único país africano de língua espanhola, a Igreja é muito forte, ali à volta há uma série de países muito islâmicos. Não é o caso da Guiné Equatorial.
Em termos de desenvolvimento, é o melhor da região. Tem boas estradas e infraestruturas, em termos de saúde e educação, funciona razoavelmente bem. Mas, há aspetos menos bem-sucedidos: o país tem um presidente há muitos anos, a democracia é muito frágil e os direitos humanos muitas vezes não são respeitados, dizem as organizações não governamentais que operam no terreno. Estas perspectivas são sempre contestadas pelo governo, que diz que tem um país próspero, feliz, desenvolvido, onde as pessoas têm toda a liberdade.
O Papa vai a três sítios: Malabo, Mongomo e Bata, entre 21 e 23 de Abril. Será, apesar de tudo, uma presença significativa. É verdade que é um país que se afirma muito, muito católico, e esperemos que a passagem do Papa ajude a desenvolver áreas sociais, que se calhar não estão assim tão fortes, no momento.
Esta viagem pastoral a África é uma viagem de risco elevado para o Papa?
Não creio. Acho que o Papa corre mais o risco de tropeçar, cair e partir uma perna, do que propriamente sofrer um atentado. Se calhar os ataques mais perigosos podem acontecer em Roma, onde ele sai sempre de peito aberto às balas, não anda num carro blindado.
É preciso calcular os riscos e os departamentos de segurança fazem esses estudos. Não acho que sejam viagens arriscadas.
Acho que vai ser uma visita pastoral como todas as outras, com muita alegria, muita festa, muita vida, e sobretudo com palavras muito contundentes do Papa, para ajudar o mundo a melhorar e a Igreja a ser verdadeiramente testemunha do Evangelho.
A paz tem sido uma preocupação constante de Leão XIV. Poderá esta visita ser um sinal de comunhão e diálogo entre religiões, entre povos com culturas diferentes?
O Papa Leão tem dado uma continuidade claríssima àquelas que foram as grandes opções do Papa Francisco, tudo o que tenha a ver com justiça, paz, ecologia integral, diálogo inter-religioso, diálogo ecuménico, diálogo intercultural.
As suas intervenções a favor da paz são óbvias. Quando lemos o que o Papa Francisco disse, vemos que não houve nenhuma intervenção, ao longo dos anos do seu pontificado, em que ele não falasse de paz. Sempre falou. Porquê? Porque tivemos sempre também grandes focos de violência. Agora com mais razão!
O Papa Leão tem feito o mesmo.
Tem feito, e promoveu para este sábado, 11 de abril, uma Jornada de Oração pela Paz, com grande adesão no mundo inteiro.
Li em muitas redes sociais bispos, cardeais, padres e movimentos laicais a dizer que estão com o Papa a rezar pela paz.
Naturalmente que em África, um continente que, infelizmente, continua a ser muito marcado por violências de muita espécie, a sua mensagem de paz estará no coração das intervenções do Papa.













