Um ano de Pontificado
Um ano de Leão XIV. Entre guerras e risco de cismas, Papa insiste na paz fora e dentro da igreja
07 mai, 2026 - 18:25 • Aura Miguel
O carácter de Leão XIV revela-se também no seu estilo educado e certo daquilo que quer dizer: com poucas palavras, vai sempre direto ao assunto. Passado um ano da sua eleição, a instabilidade no mundo agravou-se com novos focos de violência e guerra. Apesar dos seus constantes apelos à paz, as suas palavras não têm pretensões políticas. Mas incomodam e irritaram Donald Trump.
Leão XIV celebra o seu primeiro ano como Sucessor de Pedro junto à Virgem do Rosário, no Santuário mariano de Pompeia. Naquela tarde de 8 de maio de 2025, acabado de eleger com larga maioria de votos, pelos cardeais reunidos em Conclave, Robert Prevost referiu-se à coincidência das datas: “Hoje é o dia da Súplica a Nossa Senhora de Pompeia. Maria, nossa Mãe quer caminhar sempre connosco, estar próxima e ajudar-nos com a sua intercessão e o seu amor”.
Ainda comovido, pediu a todos que rezassem juntos pela sua nova missão, pela Igreja e pela paz no mundo. Foi então que brotou da multidão reunida na da Praça de São Pedro, e ruas circundantes, uma uníssona “Ave Maria”, em união com o novo Papa.
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Passado um ano, Leão XIV decide assinalar a data no referido santuário mariano, onde vai celebrar missa e proferir a Súplica à Santíssima Virgem do Rosário, uma oração escrita pelo Santo italiano Bartolo Longo, em 1883, em resposta à encíclica do Papa Leão XIII, habitualmente rezada para pedir graças em situações difíceis.
Entre as preocupações de Leão XIV, estão certamente a comunhão na Igreja e a paz no mundo. Ele mesmo o revelou, no passado domingo, a propósito da importância de rezar o terço todos os dias, durante o mês de maio. “Confio-vos as minhas intenções, em particular pela comunhão na Igreja e pela paz no mundo”, pediu no final do Regina Coeli, na Praça de São Pedro.
A paz de Leão XIV
Com efeito, passado um ano da sua eleição, a instabilidade no mundo, agravou-se com novos focos de violência e guerra. Apesar dos seus constantes apelos à paz, “desarmada e desarmante” (na sua primeira intervenção na varanda da Basílica de São Pedro, referiu nove vezes a palavra “paz”) e insistências a favor do diálogo e da negociação, ao convidar os beligerantes a depor as armas e a cultivar frutos de paz e fraternidade, sem mais injustiças, ao serviço do bem comum e não de interesses particulares, as suas palavras, “saídas do Evangelho de Jesus” como ele mesmo explica, não têm pretensões políticas. Mas incomodam.
“A missão da Igreja é pregar o Evangelho, pregar a paz, em nome de tantas vítimas inocentes. Se alguém quiser criticar-me por pregar o Evangelho, espero simplesmente ser ouvido pelo valor das palavras de Deus”, disse recentemente a propósito de infelizes comentários de Donald Trump.
Nas viagens apostólicas que já realizou, primeiro à Turquia e ao Líbano e, mais recentemente, a quatro países africanos, a questão da paz e reconciliação marcou grande parte dos seus discursos e reflexões.
A aposta do Papa no diálogo com responsáveis políticos e líderes religiosos é uma constante. Com os muçulmanos, em Beirute, conseguiu juntar as duas fações, xiita e sunita, para uma conversa privada na nunciatura e, em Argel, ao visitar a maior mesquita da cidade, disse rezar pelo povo argelino e por todos os povos da terra, “para que a paz e a justiça do Reino de Deus se tornem presentes também entre nós; e para que todos nós estejamos cada vez mais convencidos da necessidade de sermos promotores da paz, da reconciliação, do perdão e daquilo que é verdadeiramente a vontade de Deus para toda a sua criação”.
E, noutro contexto africano, denunciou que “o Santo nome de Deus não pode ser profanado pela vontade de domínio, pela prepotência e pela discriminação; acima de tudo, não deve nunca ser invocado para justificar escolhas e ações de morte”.
Poucos dias após a eleição, Leão XIV disse aos representantes das principais religiões: “Estou convencido de que, se estivermos de acordo e livres de condicionamentos ideológicos e políticos, poderemos ser eficazes em dizer ‘não’ à guerra e ‘sim’ à paz, ‘não’ à corrida ao armamento e ‘sim’ ao desarmamento, ‘não’ a uma economia que empobrece os povos e a Terra e ‘sim’ ao desenvolvimento integral”. E, mais tarde, aos diplomatas: “A paz constrói-se no coração e a partir do coração, erradicando o orgulho e as pretensões e medindo a linguagem, pois também com as palavras se pode ferir e matar, não só com as armas”.
No meio da instabilidade deste mundo, Leão XIV confiará, certamente, os seus anseios de paz à Virgem do Rosário de Pompeia, sem esquecer o destino de largos milhares de vítimas inocentes que continuam a sofrer os horrores da guerra e da violência.
Rezar pela comunhão na Igreja
Leão XIV foi eleito durante o Jubileu da Esperança, assumindo assim a agenda definida pelo Papa Francisco.
Neste período, além das celebrações e audiências previstas, foi publicada a Exortação Apostólica “Dilexit te”, sobre o amor aos pobres, preparada durante o pontificado anterior. Maior destaque mereceu a celebração dos 1700 anos do Concílio de Niceia e a Carta Apostólica “In unitate fidei” que Leão XIV publicou, antes da viagem, de carácter ecuménico, que realizou à Turquia, a convite do Patriarca ortodoxo Bartolomeu, “para encorajar em toda a Igreja um renovado impulso na profissão da fé, cuja verdade – que há séculos constitui o património comum dos cristãos – merece ser confessada e aprofundada de maneira sempre nova e atual”.
Nesta ocasião, Leão XIV convidou os seus parceiros cristãos a caminharem de olhos fixos no grande Jubileu da Redenção, em 2033, com o sonho de se realizar um grande encontro ecuménico em Jerusalém.
Em 2026, no dia seguinte ao encerramento do Jubileu da Esperança, Leão XIV inaugurou um novo estilo de governo. Cumprindo uma promessa feita aos cardeais que o elegeram no Conclave, convocou um Consistório extraordinário, para 7 e 8 de janeiro, com o objetivo de se “crescer em comunhão para oferecer um modelo de colegialidade” e, assim, “apoiar e aconselhar o Papa na grave responsabilidade do governo da Igreja universal”.
Prevost disse ainda, aos 170 cardeais com ele reunidos, que o Consistório “é um tempo muito importante também para mim, porque sinto, experimento a necessidade de poder contar convosco: fostes vós que chamastes este servo para esta missão! Então, penso que é importante trabalharmos juntos, discernirmos juntos, procurarmos o que o Espírito nos pede”. Por decisão do Santo Padre, a regularidade destes encontros deverá ser bianual.
O próximo consistório já está marcado para 26 e 27 de junho.
Entretanto, Leão XIV pede aos fiéis que rezem, neste mês de maio, pela comunhão na Igreja. No horizonte eclesial vislumbram-se dois percursos que, certamente, preocupam o Sucessor de Pedro. São percursos de tendência oposta que se arriscam a ferir a comunhão na Igreja: um na Alemanha, o outro na Suíça.
O Caminho sinodal alemão (Der Synodale Weg) tem gerado um braço de ferro com a Santa Sé desde 2019, porque propõe um conjunto de reformas relacionadas com as formas de poder na Igreja, com a moral sexual, o papel das mulheres (incluindo a ordenação) e o celibato sacerdotal. Polémica é também a criação de um “Conselho Sinodal”, estrutura permanente que deverá incluir leigos e bispos com capacidade decisória superior à autoridade dos bispos diocesanos.
A Santa Sé criticou (ainda durante o pontificado de Francisco) os processos de reforma propostos pelo Caminho sinodal alemão, esclarecendo que este percurso não pode impor novas doutrinas, nem estruturas hierárquicas que contrariem a autoridade da Igreja universal. A falta de acordo, poderá levar a um extremar de posições com graves consequências cismáticas.
Em sentido oposto, numa outra realidade da Igreja ligada à missa tridentina e aos tradicionalistas lefebvrianos, o risco de cisma é quase certo, uma vez que os responsáveis da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (fundada, em 1970, pelo arcebispo Marcel Lefebvre e em situação canónica irregular), teimam em avançar para a ordenação de novos bispos, sem autorização pontifícia e apesar das admoestações do Dicastério para a Doutrina da Fé. Estas ordenações estão agendadas para o próximo dia 1 de julho.
Missionário 100%
Ao longo deste ano, Leão XIV também revela o seu estilo de ser Papa. Com um currículo notável, formado em matemáticas e em direito canónico, poliglota, com uma grande experiência missionária e 12 anos de governo mundial à frente da Congregação Agostiniana a que pertence, conhecedor de uma realidade de igreja espalhada por mais de 50 países que visitou pessoalmente, a vida de Prevost é inseparável da sua vocação missionária.
E é com esta experiência que agora conduz a Igreja universal.
Americano descontraído e “filho de emigrantes”, como um dia se apresentou, vemo-lo sempre sereno, discreto e atento. Leão XIV cativa pela sua afabilidade, é simpático com a multidão, com os simples e com os chefes de Estado. Mas a sua preferência vai para as crianças e para os bebés que, muitas vezes, pega ao colo e embala antes de dar a bênção.
O carácter de Leão XIV revela-se também no seu estilo educado e certo daquilo que quer dizer: com poucas palavras, vai sempre direto ao assunto. Vimo-lo recentemente em sucessivas declarações aos jornalistas sobre questões de atualidade.
Por decidir estão ainda muitas nomeações para os Prefeitos de grande parte dos Dicastérios e lugares-chave dentro da Cúria Romana. Com algumas exceções, Leão XIV não se apressa e demonstra uma calma semelhante aos maratonistas que têm à sua frente um longo caminho a percorrer.
Interessante é também a sua opção em sair do Vaticano para encontrar as comunidades cristãs dentro de Itália. A sua agenda inclui, neste mês de maio, deslocações a várias dioceses e realidades italianas. A celebração desta quinta-feira é uma dessas ocasiões. Ou seja, o Papa poderia ter optado por centrar o primeiro aniversário do seu pontificado “apenas” no Santuário de Pompeia, mas o seu zelo apostólico leva-o até Nápoles onde, durante toda a tarde, manterá encontros com a população e com a dura realidade napolitana.
Além do mês de maio, o Papa também visitará a Espanha, em junho e, tudo indica que vai a França, nos finais de setembro.
No fundo, Leão XIV está a pôr em prática o que proclamou na sua primeira homilia, ainda na Capela Sistina, a 9 de maio 2025, quando lembrou aos cardeais o compromisso irrenunciável para quem, na Igreja, exerce um ministério de autoridade: “Desaparecer para que Cristo permaneça, fazer-se pequeno para que Ele seja conhecido e glorificado, gastar-se até ao limite para que a ninguém falte a oportunidade de O conhecer e amar.”











