Um ano de Leão XIV
André Azevedo Alves. “Papa tornou-se referência global num vazio de lideranças políticas”
08 mai, 2026 - 07:15 • André Rodrigues
Entre a tensão com Donald Trump, a crise da ordem internacional e o papel moral da Igreja na mediação de conflitos, André Azevedo Alves, professor da Universidade Católica e especialista em políticas públicas considera que o Papa soube compreender os limites da sua influência global. Que tem de ser complementada pela ação das lideranças políticas.
André Azevedo Alves considera que os líderes mundiais “têm muito a aprender” com a diplomacia do Leão XIV que cumpre um ano de pontificado. Em entrevista à Renascença, este economista e docente da Católica considera que o Papa “ocupa um vazio que a Europa não conseguiu preencher”, o que faz com que a autoridade moral de Leão XIV seja um fator com peso geopolítico. Mais ainda no contexto da escalada verbal com Donald Trump, que “acentuou o protagonismo internacional do Papa”.
Vou começar por uma afirmação de um convidado recente da Renascença que disse que Leão XIV é, neste momento, talvez, a grande referência para as lideranças europeias, no contexto dos conflitos e na relação transatlântica — incluindo na forma como se defende das investidas verbais de Donald Trump. Revê‑se nessa caracterização?
Revejo‑me, mas faria uma modificação: substituía “lideranças europeias” por “lideranças mundiais”, talvez com maior ênfase no contexto ocidental. A Igreja é global, tem um peso histórico próprio e isso também é refletido pelo Papa. E, nas circunstâncias atuais, esse peso tem relevância geopolítica.
O que é que explica esse “peso geopolítico” de Leão XIV neste primeiro ano de pontificado?
Há elementos de continuidade: o apelo à paz, a centralidade do diálogo, a tentativa de mediar e de promover a resolução de conflitos. Mas há também elementos específicos do tempo que vivemos. E aqui o contexto transatlântico é decisivo.
Quando diz “contexto transatlântico”, a que fatores concretos se refere?
Dois fatores, essencialmente. O primeiro é a especificidade da atual liderança nos Estados Unidos, que não tem favorecido o caminho da paz e da resolução de conflitos — em alguns momentos, bem pelo contrário, infelizmente. Isso ajuda a explicar a tensão com o Papa. O segundo fator é a ausência de lideranças europeias fortes e credíveis, com verdadeira projeção internacional. Há uma desorientação que já vem de trás, mas que se acentuou. Esse vazio não pode ser ocupado totalmente pelo Papa, porque ele não é um líder político no sentido estrito. Mas faz com que a sua voz ganhe destaque e funcione até como incentivo às lideranças europeias.
Foi curioso ver como [Giorgia Meloni], apesar de politicamente próxima de Trump, se distanciou claramente na questão das tensões com Leão XIV
E como avalia a reação das lideranças europeias ao que o Papa tem dito e feito? Há ligação entre as duas esferas ou estão desligadas?
São esferas diferentes, e por isso a liderança do Papa não substitui os problemas de liderança europeia. O que pode acontecer — e isso depende dos líderes europeus — é aproveitar o impulso do Papa para perceber que existe um vazio por preencher. O Papa pode ser um aliado em dimensões decisivas: a resolução de conflitos e a preservação de uma ordem internacional minimamente regulada por regras e instituições, graças à sua autoridade moral, ao discurso e à ação. Mas há um trabalho que só pode ser feito por lideranças políticas europeias.
Vê algum líder europeu a perceber melhor essa oportunidade?
Destacaria Giorgia Meloni. Foi curioso ver como, apesar de politicamente próxima de Trump, se distanciou claramente na questão das tensões com Leão XIV. Foi um momento relevante. Dito isto, no conjunto das lideranças europeias, ainda há um longo caminho para aproveitar essa dinâmica que o Papa tem colocado em marcha. Ainda há muito a aprender e o Papa tornou-se referência global num vazio de lideranças políticas.
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Quando Leão XIV foi anunciado, houve quem concluísse: “até nisto Trump pagou para ter um Papa próximo”. Mas, ainda como cardeal, Prevost já tinha feito publicações críticas da orientação da administração norte‑americana. O Papa tem sido coerente nessa linha, por exemplo na imigração?
Tem sido coerente e, diria, equilibrado. Ele próprio tem “muito mundo”: é norte‑americano, mas também é peruano, com uma trajetória muito diferente. Na imigração, tem sublinhado várias dimensões: o acolhimento e o tratamento humano dos migrantes, mas também a necessidade de olhar para os países de origem e tentar resolver as causas que empurram os fluxos migratórios. E acrescenta algo importante: não existe uma capacidade ilimitada de receber e integrar. É um discurso consistente, prudente e integrado.
Mas esse discurso não acaba por ser, na prática, uma oposição a Trump e à linha dominante em Washington?
Eu não lhe chamaria “oposição”. Não me parece ser a postura do Papa, nem isso seria desejável. Aliás, ele próprio deixou claro que não tem intenção de entrar em confronto direto ou num debate com o Presidente dos Estados Unidos. O que há é um papel próprio do líder da Igreja Católica: afirmar princípios. Ao mesmo tempo, agir com prudência, reconhecendo que há limites — há decisões de políticas públicas que não cabem ao Papa determinar. O essencial é aplicar princípios às circunstâncias concretas de forma equilibrada.
Intercalares nos EUA. "Pode haver eleitores católicos que se sintam desmobilizados"
Acredita que este posicionamento — e até o confronto verbal com Trump — pode influenciar a opinião pública norte‑americana, por exemplo na dinâmica eleitoral? Pode ser forte o suficiente para mudar o rumo político nos Estados Unidos?
As previsões eleitorais são sempre arriscadas. Pode haver eleitores católicos que se sintam desmobilizados, sobretudo depois de polémicas e declarações dirigidas ao Papa. Mas também pode haver um efeito inverso: mobilização de eleitorado mais conservador que veja nesses choques uma confirmação das suas razões para apoiar Trump. O que me parece é que certos desenvolvimentos recentes podem gerar desmobilização em parte do eleitorado católico conservador. Trump aumentou muito a votação católica no Partido Republicano; isso foi um dos seus grandes trunfos. Se uma parte desse eleitorado se sentir menos motivada, isso pode ter impacto — mais por abstenção do que por mudança de voto em massa.
E o que é que o confronto com o Papa pode significar para a estratégia de Trump a partir daqui?
A forma como Trump se dirigiu pessoalmente ao Papa não ajudou. E há sinais de tentativa de minimizar danos, como será o caso desta visita de Marco Rubio ao Vaticano, procurando baixar a tensão e recuperar terreno, também no plano comunicacional. Mas Trump já mostrou, no passado, capacidade de sair por cima em termos comunicacionais. Por isso, mesmo que agora haja fragilidade, não excluiria que parte desses danos pudesse ser recuperada até às intercalares.
Depois deste primeiro ano de Leão XIV, que lições ficam para o futuro, olhando para a incerteza global e para a vertente diplomática do pontificado?
A primeira lição é a centralidade do papel da Igreja Católica e do Papa na procura de caminhos para a paz global. Mas há também um desafio enorme: o mundo em que uma ordem internacional mais baseada em regras existia, mesmo que imperfeita, parece estar a colapsar. A questão é como é que a Igreja e o Papa se posicionam neste novo contexto: reafirmar princípios, mas ao mesmo tempo ter um papel prático e positivo na resolução de conflitos que se prolongam e em novos conflitos que emergem. Aqui regressamos ao ponto do equilíbrio: ser referência moral e indicar um caminho, mas reconhecer que há uma parte decisiva do caminho para a paz que depende das lideranças políticas concretas. O Papa pode inspirar, pode pressionar moralmente, pode abrir portas. Mas há limites e o Papa Leão XIV parece ter compreendido isso muito bem.













