Leão XIV

Papa na cidade da Camorra elogia "o profundo coração de Nápoles" que acolhe migrantes e refugiados

08 mai, 2026 - 17:58 • Aura Miguel

Nesta cidade, marcada por grandes contrastes sociais, Leão XIV lamentou as desigualdades e pobreza, as fracas perspetivas de emprego, de infraestruturas e de serviços adequados, a criminalidade generalizada, o abandono escolar e outras situações que pesam sobre a vida de muitos.

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A beleza e os contrastes de Nápoles, com os seus cansaços e feridas foram esta sexta-feira referidas pelo Papa num encontro festivo com milhares de cidadãos, muitos jovens e representantes do governo local, reunidos na Praça do Plebiscito. “Irmãos e irmãs, nesta cidade flui um anseio de vida, de justiça e de bondade que não pode ser sufocado pelo mal, pelo desânimo e pela resignação. Por isso, é necessário que nós — não sozinhos, mas juntos — nos questionemos: o que é que realmente importa?”, afirmou.

Nesta cidade, marcada por grandes contrastes sociais, Leão XIV lamentou as desigualdades e pobreza, as fracas perspetivas de emprego, de infraestruturas e de serviços adequados, a criminalidade generalizada, o abandono escolar e outras situações que pesam sobre a vida de muitos.

“Perante estas realidades, que por vezes assumem proporções preocupantes, a presença e a atuação do Estado são mais necessárias do que nunca, para garantir segurança e confiança aos cidadãos e eliminar o espaço para o crime organizado”, pediu o pontífice.

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O Santo Padre elogiou os napolitanos que tentam redimir do mal esta cidade e curá-la das suas feridas e reafirmou a disponibilidade da Igreja em reforçar os esforços e aspirações de muitos a favor de uma Nápoles melhor, mais bela e justa. “Unam as vossas forças, trabalhem e caminhem juntos — instituições, Igreja e sociedade civil — para elevar a cidade, proteger os vossos filhos das armadilhas das dificuldades e do mal e devolver a Nápoles a sua vocação de ser uma capital da humanidade e da esperança”, pediu.

Leão XIV animou esta cidade a redescobrir a sua antiga vocação: ser uma ponte natural entre as margens do Mediterrâneo. “Nápoles não deve permanecer um mero ‘postal’ para os visitantes, mas sim tornar-se um estaleiro de obras a céu aberto, onde se constrói uma paz concreta, verificável no quotidiano das pessoas”, frisou.

A paz começa no coração humano, passa pelas relações, cria raízes nos bairros e nos subúrbios e expande-se para abraçar toda a cidade e o mundo. Por isso, consideramos urgente trabalhar, em primeiro lugar, dentro da própria cidade. Aqui, a paz constrói-se promovendo uma cultura alternativa à violência, através de gestos quotidianos, programas educativos e escolhas práticas de justiça. Sabemos, de facto, que não há paz sem justiça e que a justiça, para ser autêntica, nunca poderá ser separada da caridade”.

Num encontro muito participado, com testemunhos e música, o Santo Padre elogiou o “profundo coração de Nápoles” ao acolher migrantes e refugiados, “vividos não como uma emergência, mas como uma oportunidade de encontro e enriquecimento mútuo”. E também destacou o trabalho da Cáritas diocesana, que transformou o Porto de Nápoles “de um simples ponto de desembarque num sinal vivo de acolhimento, integração e esperança”. E concluiu com um apelo: “Irmãos e irmãs, Nápoles precisa desta onda, desta energia explosiva de bondade, da coragem evangélica que nos permite renovar tudo. Que seja o compromisso de todos: assumam essa responsabilidade e levem-na avante juntos! Façam-no especialmente com os jovens, que não são apenas recetores, mas também protagonistas da mudança”.

A Camorra não mata só quando dispara

O cardeal Domenico Battaglia, arcebispo de Nápoles, ao saudar o Papa, pediu “paz e justiça contra a Camorra, que não é apenas crime, mas uma mentira educativa, uma falsa promessa, uma religião do dinheiro, um roubo de futuros”.

Interrompido por aplausos, incluindo do próprio Papa, o cardeal recordou que “a Camorra não mata apenas quando dispara, ela mata quando convence uma criança de que ser digno significa estar no comando, quando as faz acreditar que o respeito se compra com medo, quando preenche o vazio deixado pela solidão, pela falta de adultos de confiança, pela fragilidade das comunidades”. Por isso, “Nápoles hoje precisa de afirmar, com nova clareza, que nenhuma criança nasce perdida; nenhum bairro nasce condenado; nenhuma família deve ser deixada sozinha para lutar contra algo maior do que ela própria”, sublinhou o cardeal.

Este encontro com a população incluiu também testemunhos de vítimas da violência que existe na cidade. Fabio Varrella, 34 anos, engenheiro, contou que, em 2023, numa estação de serviço onde parou para abastecer a sua mota, foi atacado por dois rapazes que disparam vários tiros, ferindo-o gravemente. “Santidade, os rapazes já foram presos, mas no meu coração não há ódio, nunca os odiei porque percebi que aquele gesto não nascia deles, mas da realidade em que cresceram e das condições em que se formaram”, disse Varrella, que hoje faz voluntariado junto de jovens com antecedentes criminais.

Rebecca Rocco, 24 anos, apresentou-se ao Papa como “filha de um bairro onde a beleza aprendeu depressa a conviver com a dor”. A jovem testemunhou o medo que sentiu durante a adolescência e como foi resgatada por uma amizade nova e esperançosa num Centro de trabalho ligado ao Museu Diocesano de Nápoles que desenvolve projetos de trabalho para jovens em crise.

No final do encontro, onde não faltaram as famosas canções napolitanas e muita alegria, o Papa agradeceu o caloroso acolhimento e consagrou a cidade e toda a diocese de Nápoles a Nossa Senhora.

“Não tenhais medo nem desanimem!”, pediu o Papa aos católicos

Horas antes deste encontro, o Papa reuniu-se na Catedral com representantes do clero, consagrados e representantes da diocese. “Escutem-se uns aos outros, caminhem juntos e sejam missionários ao encontro da vida concreta das pessoas”, pediu Leão XIV. “Numa cidade marcada pela desigualdade, pelo desemprego jovem, pelo abandono escolar e pela fragilidade familiar, o anúncio do Evangelho não pode existir sem uma presença concreta e solidariedade, envolvendo cada um de nós: sacerdotes, religiosos e leigos. É uma missão que exige o contributo de todos”, frisou. “Não tenhais medo, não desanimeis e sede, por esta Igreja e por esta cidade, testemunhas de Cristo e semeadores do futuro!”

O pontífice venerou a relíquia com o sangue de S. Genaro e definiu Nápoles como uma cidade de mil cores, onde a cultura e as tradições do passado se misturam com a modernidade e a inovação, uma cidade onde uma religiosidade popular espontânea e efervescente se entrelaça com inúmeras fragilidades sociais, com muitas faces da pobreza” e “marcada por muito sofrimento e até ensanguentada pela violência”.

O Papa convidou a Igreja napolitana a preservar e assumir o método do Sínodo: “um exercício de escuta mútua, um envolvimento que não excluiu ninguém, uma sinergia humana, pastoral e espiritual entre paróquias, associações, pessoas consagradas e leigos, procurando dar voz mesmo àqueles que geralmente permanecem à margem”. Leão XIV pediu uma atitude de escuta que traga à luz “as expectativas, as feridas e as esperanças, dando-vos a imagem de uma Igreja chamada a emergir de si mesma, a converter o seu modo de vida, a encarnar-se no povo como luz de esperança”.

O Santo Padre regressou de helicóptero ao Vaticano, após um dia intenso de encontros e celebrações, não só em Nápoles mas também de manhã, no Santuário de Pompeia, onde celebrou missa e consagrou o seu pontificado à Virgem do Rosário.

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