Giuseppe Pagano

“Tento incomodá-lo o menos possível”. 40 anos depois, o amigo Beppe ainda chama Bob ao Papa

08 mai, 2026 - 06:15 • Ana Catarina André

O padre italiano Giuseppe Pagano conhece Robert Prevost há 40 anos. Em entrevista à Renascença, garante que se contém para não incomodar o amigo, que há um ano foi eleito Papa. O motivo? “Já percebi que lhe custa não conseguir responder-me de imediato.”

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Entrevista a Giuseppe Pagano
Entrevista a Giuseppe Pagano

Conheceram-se na década de 1980, em Itália. Na altura, Robert Prevost – hoje Papa Leão XIV – era um jovem sacerdote e Giuseppe Pagano estava ainda a terminar os estudos. Bob e Beppe, como ainda hoje se tratam, são amigos há mais de quatro décadas e membros da mesma ordem religiosa: a de Santo Agostinho.

Em 2013, estavam na Praça de São Pedro, no Vaticano, quando Francisco celebrou a missa de início de pontificado. “Quando o Papa Francisco passou ali, no papamóvel, viu [Prevost] ao longe e fez-lhe um gesto com o polegar. (…) Eu disse-lhe, tocando-lhe no braço, meio a brincar, que se tornaria bispo, em breve”, recorda, divertido, lembrando a emoção com que, 12 anos depois, viu o amigo tornar-se Papa.

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Desde a eleição, conversam com menos frequência, mas a amizade mantém-se. O ano passado, Giuseppe Pagano tornou-se presidente do Centro de Estudos Internacional do Papa Leão XIV que se propõe a acompanhar o Papa com estudos, formações e outras iniciativas. Aos 66 anos, é também prior da Basílica do Espírito Santo, em Florença.


Conhece o Papa há mais de 40 anos. É membro da Ordem de Santo Agostinho tal como ele. Que análise faz deste primeiro ano de pontificado?

Divido este ano em duas fases. Uma primeira fase que obviamente não foi uma escolha, e que consistiu em levar por diante a conclusão do Jubileu que já tinha começado [quando foi eleito]. Essa fidelidade tomou-lhe vários meses, até ao dia 6 de janeiro [data de encerramento do Jubileu]. Aí viu-se o seu modo de agir. Quis apostar na unidade e na comunhão na Igreja. O tema da paz estava evidentemente no seu coração, impulsionado também pelos acontecimentos, pelos conflitos que surgiram.

Depois há uma segunda fase, a partir da conclusão do Jubileu, mais conduzida por ele, pela sua personalidade, com viagens que mostraram claramente a sua forma de querer conduzir a Igreja, com a ida primeiro ao Líbano, depois a Monte Carlo [no Mónaco], que foi muito interessante, e depois a África.

O balanço é muito positivo. Creio que o que mais impressiona é a sua energia, tanto física como verbal. Parece uma pessoa que nunca se cansa, seja quando enfrenta situações externas à Igreja, que dizem respeito ao mundo inteiro, ao tema da paz e da pobreza, mas mudanças fundamentais no interior da Igreja.

Vemos um motor que funciona pouco a pouco e que, pelo menos daquilo que percebo estando de fora, faz tudo isso com uma certa serenidade. A sua expressão é sempre sorridente. Lembro-me do Angelus do último domingo: antes de começar vi esses sorrisos, que, na minha opinião, são sinal de quem vive com serenidade, abandonado à vontade de Deus.

O balanço é muito positivo. Creio que o que mais impressiona é a sua energia, tanto física como verbal

Ao longo deste ano, quais foram os traços da espiritualidade da Ordem de Santo Agostinho que lhe parecem ter sido mais visíveis na maneira como exerce o seu ministério petrino?

Vou falar dos elementos que enquanto agostinho encarnou muito bem. O primeiro é precisamente o da vida interior, que foi a escolha inicial de Santo Agostinho que, depois da sua conversão e batismo, decidiu retirar-se para um mosteiro para dedicar o seu tempo, juntamente com os amigos, à oração, ao trabalho e ao estudo da Sagrada Escritura.

Esta dimensão da interioridade vê-se muito claramente no Papa Leão. A 8 de maio, quando foi eleito Papa, as suas primeiras palavras foram: “A paz de Cristo ressuscitado esteja convosco”. Quis ter, no centro do seu ministério, Cristo ressuscitado que dá a paz. Isto está muito ligado à vida de Agostinho, que cuidou sempre da interioridade, como nas palavras famosas que escreve em De Vera Religione [A Verdadeira Religião]: “Não saias de ti mesmo; entra em ti mesmo, porque dentro de ti habita a verdade”. Tanto quando [Prevost] era jovem, como quando foi prior geral [da ordem], a dimensão espiritual do encontro com o Senhor — a oração comunitária e pessoal — é muito forte.

Outros aspetos muitos presentes na espiritualidade de Agostinho e na sua Regra [sobre a vida monástica] são a amizade e a comunidade. Por um lado, sabemos que a amizade e a fraternidade contribuem para viver a relação com Deus; por outro lado, a relação com Deus é a base para viver a vida comunitária. Estes são aspetos muito fortes no Papa. Vê-se isso em algumas das suas ações e ver-se-á também futuramente, nas reuniões com os cardeais, nos consistórios, precisamente para alcançar metas e conclusões através de um diálogo fraterno.

Este é um background que ele traz consigo há anos, porque, tendo sido prior geral durante 12 anos, teve de trabalhar em conjunto com o conselho geral e com as comunidades. Esta dimensão da escuta, que é muito forte, ajuda-o muito a construir comunidade e a fazer-se estimar, por assim dizer.

Numa atitude sinodal, digamos assim.

Sim, sinodal. Num dos seus discursos incluídos no livro “Livres sob a Graça”, [quando ainda não era Papa, Prevost] diz que, tendo vivido a experiência missionária no Peru, a atitude de caminhar juntos era já então natural.

Há também a atenção aos pobres, um aspeto forte na Regra de Santo Agostinho que nasce da experiência da primeira comunidade cristã. Não há uma condenação da riqueza em si. A riqueza deve ser partilhada, não para que uma comunidade se torne mais rica, mas para que seja possível ajudar aqueles que estão em necessidade. Tal como nos dizem os Atos dos Apóstolos: tudo era posto em comum e distribuído para que ninguém passasse necessidade.

Outro elemento é a importância de ser testemunha daquilo que se vive e daquilo em que se acredita, fazendo tudo com alegria, não como pessoas que vivem como escravas sob a lei, mas livres sob a graça, como o título do livre refere. Esta é outra dimensão, a da liberdade, muito evidente na forma de agir [do Papa]. Eu próprio experienciei isso nos anos em que convivemos, na Cúria Geral: esta dimensão de grande liberdade, porque é na liberdade que a pessoa cresce e se torna responsável.

Quando o então Cardeal Robert Prevost foi eleito, há um ano, a unidade da Igreja era um dos temas de que se falava, atendendo também à oposição interna com que o Papa Francisco teve de lidar. Como é que, na sua perspetiva, Leão XIV tem procurado construir essa unidade?

Na minha opinião, através do diálogo. Acredito que os cardeais viram nele uma pessoa capaz de conduzir esse diálogo. Não porque seja melhor do que o Papa Francisco – tem um carácter completamente diferente. Digo muitas vezes que [o Papa Leão], para alcançar a unidade e o diálogo, é capaz de dar um passo atrás, e até optar pelo silêncio, precisamente para não criar divisões. Acredito que, através do diálogo e do encontro, conseguirá recompor situações em que possa ter havido alguma fratura.

Há algum tempo, ele disse expressamente que não compreende a divisão entre conservadores e tradicionalistas. São duas palavras, dois termos que na Igreja não deveriam existir. Aqui também se manifesta o seu carácter agostinho e a referência ao que Santo Agostinho diz: “in pluribus unitas”, ou seja, a unidade nasce ao aceitar a diversidade do outro. Este será um aspeto que o Papa saberá comunicar bem. Não o assusta que alguém possa ser um pouco diferente ou pensar de forma diferente; pelo contrário, é nessa diversidade que pode nascer a riqueza.

Dizendo de forma muito direta: os sacerdotes que gostam de usar paramentos de certo tipo e aqueles que preferem usar apenas uma estola podem conviver juntos. Estes elementos não devem levar à divisão ou à rutura do diálogo, de modo nenhum, porque os valores comuns são muito mais profundos.

[O Papa Leão], para alcançar a unidade e o diálogo, é capaz de dar um passo atrás, e até optar pelo silêncio, precisamente para não criar divisões

Prevost escolheu o nome de Leão XIV pela associação à doutrina social da Igreja. De que modo se tem manifestado, neste início de pontificado, esta atenção à justiça social, aos trabalhadores e aos mais vulneráveis?

Não escondo que, quando foi pronunciado o seu nome como Papa, estava tão emocionado que não ouvi logo bem. Precisei de algum tempo para perceber o nome. Nós, como agostinhos, associámos imediatamente Leão XIV a Leão XIII, que esteve muito ligado à ordem e proclamou muitos beatos e santos, como Santa Rita e Santa Clara de Montefalco, durante o seu pontificado. Depois, quando ele falou com os cardeais e lhes explicou o motivo da escolha do nome Leão XIV, compreendi que era mais profundo e estava ligado à doutrina social da Igreja e aos problemas do mundo do trabalho: a questão dos salários, a exploração, novos aspetos como a inteligência artificial que pode provocar novas formas de desemprego, etc.

A questão social está também muito ligada a Santo Agostinho que esteve muito atento às necessidades dos outros. Santo Agostinho chegou a fundir vasos sagrados preciosos para socorrer os pobres e a resgatar um barco cheio de crianças que iam ser levadas para a escravatura. Portanto, esta atenção de Agostinho aos pobres está também no coração do Papa, como vimos na viagem a África.

Antes disso, esteve no Mónaco.

Houve quem criticasse essa viagem a Monte Carlo, dizendo que foi encontrar-se com os ricos. No entanto, o Papa teve coragem de falar aos ricos sobre pobreza e partilha.

Digo-o de forma simples: precisamos dos ricos para ajudar os pobres, porque quando queremos realizar projetos de grande dimensão, precisamos de recursos. Isso aconteceu com o Papa Prevost: quando era prior geral pedia ajuda às comunidades com mais possibilidades económicas para poder apoiar a missão em África.

Este equilíbrio parece-me muito bonito. Gostei muito dos discursos que fez em Monte Carlo e apreciei a forma como se relaciona com as crianças, com os doentes, com as pessoas com deficiência, com os pobres, etc. Acolhe todos, incluindo futebolistas e tenistas de renome. No outro dia, até brinquei com ele e disse-lhe: ‘A tua bênção ao Sinner [tenista italiano, número 1 do ranking mundial] continua forte’ [risos].

Uma das coisas que está a fazer — e que fará cada vez mais — é promover a convivência entre pessoas de diferentes condições sociais, porque a verdadeira paz e a verdadeira justiça só podem nascer deste encontro

O Papa falou da doutrina social da Igreja como instrumento de paz e diálogo. É à luz desta afirmação que podemos também olhar para a recente viagem a África?

Sim. Creio que é a leitura mais clara. O seu objetivo é precisamente que haja justiça social, para que quem tem mais, possa ajudar quem tem menos. Tudo isto com humildade, diria.

Há uma passagem muito bonita na Regra de Santo Agostinho que nos ajuda a compreender melhor o Papa, onde Santo Agostinho faz uma verdadeira revolução e dá a possibilidade a ricos, pobres e escravos de viverem no mesmo mosteiro. Aos pobres diz: ‘Não vos orgulheis por agora poderdes viver com pessoas de quem, no mundo, nem sequer vos podíeis aproximar’. E aos mais ricos lembra a importância de viver com humildade. A todos pede atenção “para que os mosteiros não se tornem lugares onde os ricos se humilham e os pobres se tornam soberbos’.

Esta é uma dimensão muito bela que o Papa, como agostinho, encarnou. Uma das coisas que está a fazer — e que fará cada vez mais — é promover a convivência entre pessoas de diferentes condições sociais, porque a verdadeira paz e a verdadeira justiça só podem nascer deste encontro.

Não recusa receber ninguém, tal como quando era prior geral. Dialoga com todos

O Papa tem sido assertivo nas suas declarações, nomeadamente no que diz respeito a regimes populistas, a líderes políticos com escrúpulos duvidosos. A assertividade será um dos traços do seu pontificado?

Creio que sim. Conto-lhe uma história. Como dizia, por norma ele é sempre uma pessoa de diálogo que prefere dar um passo atrás e ficar em silêncio do que criar divisões. No entanto, quando entende que é necessário, é assertivo. Nestas situações, costumava brincar com ele e dizia-lhe: “Agora, estás a fazer de americano”. Ou seja, quando [Prevost] percebe que uma situação representa um perigo ou há alguém a abusar do seu poder, torna-se assertivo. Quantas vezes já chamou a atenção para as crianças que estão a morrer? Foi muito delicado, por exemplo, quando lhe comunicaram que aquela criança com quem tinha falado no Líbano, tinha morrido. Esta sensibilidade e esta memória nascem de uma profundidade espiritual: ele não esquece ninguém.

Esta capacidade de diálogo não significa que se ofenda facilmente ou reaja de forma defensiva. Disponibilizou-se precisamente a receber o secretário de Estado dos Estados Unidos, não para atacar, mas para criar pontes e promover o diálogo. Não recusa receber ninguém, tal como quando era prior geral. Dialoga com todos.

Nas últimas semanas, temos assistido a uma polémica entre os Estados Unidos e o Vaticano: Donald Trump criticou o Papa por diversas vezes; o Papa afastou um cenário de tensão com o presidente dos EUA. Como é que, na sua opinião, Leão XIV vai gerir esta relação com a administração Trump, atendendo a que também os bispos americanos criticaram o presidente?

Acredito que este encontro com o secretário de Estado seja uma “ocasião de desgelo”, digamos assim. O Papa disse que os discursos [da viagem a África] foram escritos antes destes acontecimentos e que não havia uma referência pessoal [a Trump]. Mas se se criou alguma ambiguidade, esclareçamo-la. No fim, o Presidente dos Estados Unidos continua a ser o Presidente dos Estados Unidos. Na minha opinião, não se pode entrar num braço de ferro com ele. E creio que o Papa não o fez, nem o quer fazer. Acredito que este gesto dá continuidade à ideia de criar pontes e não muros. Tudo aquilo que possa de alguma forma favorecer a paz e o diálogo deve ser feito sem compromissos.

No discurso que fez aos jornalistas, no avião, o Papa disse que a instrumentalização se torna muito perigosa. Também aí demonstrou uma certa firmeza simpática. Sabemos que ele estima os jornalistas e o seu trabalho. Tem uma clareza em dizer as coisas com um traço muito humano: é simpático, dizendo as coisas de forma firme. Creio que seja assim com todos e, de modo particular, penso que com os governantes terá este tipo de atitude.

Neste sentido, admite que o Papa vá aos Estados Unidos?

Sim. Não creio que essa viagem esteja excluída, de modo nenhum. Não é o tipo de pessoa que crie este tipo de problemas, absolutamente.

Parece-lhe que com esta postura Leão XIV reforçou o seu posicionamento internacional como líder que dá voz aos mais frágeis e está empenhado na paz?

Sim. Naquela manhã, quando partiu para a África, acho que o “interesse” por ele cresceu muito. A simplicidade com que disse “Não sou um político” foi muito bela. Fez com que todos percebessem que ele é um líder espiritual, empenhado em lutar por todos. Não toma partido de ninguém. Por isso, cada pessoa sentiu-se, por assim dizer, próxima dele, isto tanto a nível popular, como a nível de responsáveis políticos. Creio que [aquelas declarações] ajudaram a entender o seu papel e isso parece-me importante. A sua popularidade cresceu muito positivamente, mas não para dizer: “As pessoas gostam de mim”. Não, não é isso! Mas, antes, porque pode ser uma referência para todos como alguém que procura a justiça e a paz.

Conheceram-se ainda estudantes, na década de 1980, numa altura em que o agora Papa já tinha sido ordenado padre. São amigos há mais de 40 anos. Como é que descreve a sua personalidade?

Eu tinha 23 anos, era ainda estudante. Ele é uma pessoa com quem sempre me dei bem, sobretudo pela franqueza com que fala. Dou-lhe um exemplo: se eu lhe perguntava algo e ele tinha de dizer-me que não, dizia. Esta sinceridade criou sempre um bom diálogo e uma grande confiança entre nós.

Ele tem, também, uma certa reserva na maneira de ser que aprecio muito. É profundo naquilo que comunica e diz aos outros. É uma pessoa de muita fé, que acredita que o Senhor o acompanha em tudo. Vive tudo o que lhe é pedido, tanto na Ordem como na Igreja, como um chamamento do Senhor. Por isso, a sua resposta torna-se muito natural e espontânea.

Mantém connosco, irmãos agostinhos, uma relação próxima. Creio que ele sabe que tem, em nós, sempre a sua comunidade, amigos. O papado não o afastou de nós, como se dissesse: “agora sou Papa, não quero saber de mais nada”. Podia ter acontecido esse distanciamento, mas não. Além disso, no dia da eleição, ele disse logo: “Sou filho de Agostinho”. Foi um sinal muito claro de que continua a ser quem era, e que essa dimensão, essa espiritualidade, marca o seu pontificado.

Bob e Beppe são os nomes pelos quais se tratam.

Sim, é verdade.

Pode contar-nos um ou dois episódios que tenham marcado a vossa amizade?

Falo-lhe de duas viagens. Eu era estudante e ele era responsável por nós. No intervalo entre os semestres letivos, fomos à região de Úmbria. Foi lá que cresci como seminarista, e depois como sacerdote, e por isso levei-o a conhecer aquelas terras. Éramos quatro e foi uma experiência muito bonita que nos aproximou bastante. Depois, quando fui aos Estados Unidos, ele fez gosto em estar comigo, mesmo eu estando em Villanova e ele em Chicago. Veio buscar-me e passámos alguns dias juntos, entre Chicago e uma casa perto do lago Oconomowoc.

Depois não houve uma relação contínua, digamos assim. Os tempos eram diferentes. Não havia internet, nem WhatsApp, etc. Cada um seguia a sua vida, o seu percurso, mas quando surgia a oportunidade de nos reencontrarmos em Roma, assim acontecia. Mais tarde, em 2004, reencontrei-o de forma inesperada quando ele era prior geral da ordem. Nessa altura, pediu-me que o ajudasse na área da secretaria e aí a amizade fortaleceu-se ainda mais, partilhando muitas coisas belas.

As primeiras palavras do Papa Leão XIV: um apelo à "paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante"
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Encontrei uma foto antiga da década de 1980 em que estão ambos numa manifestação pela paz, em Itália. A paz é desde sempre uma preocupação de Prevost?

Sim, foi no início [da amizade]. Participámos nessa manifestação com um cartaz bem visível: “Agostinhos pela paz”. Refletíamos muito sobre o tema, e estávamos ligados ao movimento Pax Christi. Foi um dos aspetos que nos uniu bastante. Como prior geral, falou sempre da paz nas ocasiões mais importantes. É um valor que traz dentro de si e do qual tem falado muito.

Não se trata apenas de uma paz política…

Exato. A paz política e a paz nas relações nascem, se acima de tudo essa paz estiver no coração de cada um.

Contou que no início do pontificado do Papa Francisco, estava com o então padre Robert Prevost na Praça de São Pedro, no Vaticano. Como é que foi esse momento?

Foi uma bela surpresa. Eu estava precisamente ao lado de Prevost, na Praça de São Pedro, na missa de início de pontificado do Papa Francisco. Foi a 19 de março, Dia de São José. Quando o Papa Francisco passou ali, no papamóvel, viu-o ao longe — estava bastante distante — e fez-lhe um gesto com o polegar. Lembro-me muito bem! E eu disse-lhe, tocando-lhe no braço, meio a brincar, que se tornaria bispo em breve [risos].

De facto, pouco depois, Prevost deixou de ser prior geral, foi escolhido pelo Papa Francisco como bispo de Chiclayo, [no Peru] e, mais tarde, voltou a Roma onde foi prefeito do Dicastério para os Bispos, tornando-se cardeal. Foi todo um percurso.

Sei também que entre eles havia uma grande estima. Por isso, quem vê um contraste entre os dois pontificados pode tirar isso da cabeça: têm personalidades diferentes, é certo, mas havia entre eles um diálogo muito próximo. Diria, talvez um pouco de forma ousada, que o Papa Francisco preparou o pontificado de Prevost, e, portanto, existe esta bela continuidade.

Costuma conversar com o Papa com frequência?

Com frequência não. Contenho-me muito para o incomodar o mínimo possível, porque percebo que tem muitas coisas na cabeça e não quero sequer fazê-lo sentir-se culpado. Já percebi que lhe custa não conseguir responder-me de imediato. Então procuro evitar, mesmo sendo um sacrifício para mim que estava habituado a falar com ele muitas vezes, até por telefone. Era um confidente. De qualquer forma, sei que a proximidade existe, a amizade existe e isso é o mais importante. Depois, Deus cria as situações e as ocasiões quando quiser [para nos encontrarmos].

Está à frente do Centro de Estudos Internacional do Papa Leão XIV. Pode explicar um pouco o trabalho que está a ser desenvolvido?

Sim, esta ideia nasceu precisamente porque o Papa escolheu o nome Leão XIV. Portanto, a partir da sua preocupação social, pensámos que poderíamos acompanhar o Papa com estudos que apoiem o seu ministério, sobretudo do ponto de vista social e político. Temos também em mente a formação de futuros responsáveis políticos e a formação social sobre alguns temas.

Já somos uma associação formalmente constituída. Fizemos algumas conferências sobre temas ligados a Santo Agostinho. Ao mesmo tempo, estamos a preparar um workshop sobre a pobreza, tendo como base a [exortação apostólica] Dilexit Te. Todos os estudos que fizermos serão enviados ao Santo Padre, a quem pediremos orientação, caso queira dar-nos indicações.

Ao mesmo tempo, estamos a trabalhar na organização de duas grandes assembleias para o final do próximo ano, sobre os temas da paz e do diálogo inter-religioso. Chamamo-nos Centro de Estudos Internacional do Papa Leão XIV sempre com a ideia de poder acompanhar o Papa no seu magistério e no seu ministério.

Depois de um primeiro ano em que Prevost se manteve de certa forma discreto, conhecendo melhor a cúria, ouvindo as pessoas, parece-lhe que a partir de agora tomará decisões mais visíveis do ponto de vista das mudanças que quer implementar?

Creio que ele já conhecia um pouco a situação, porque viveu muitos anos em Roma. Foi também prefeito do Dicastério para os Bispos e manteve contactos frequentes com o Papa Francisco.

Acredito que já deu passos importantes, também ao nível da renovação e da substituição de pessoas, sempre com fraternidade e diálogo. Penso que se orientará tendo em conta as exigências atuais da Igreja e do mundo. Por exemplo, a escolha para bispo [de uma diocese nos Estados Unidos] daquele migrante [o padre Evelio Menjivar-Ayala, natural de El Salvador] foi uma decisão muito bonita. Creio que fará muitas escolhas semelhantes, ou seja, colocará homens justos nos lugares certos. Será um trabalho feito com muita atenção, e por isso acredito que só poderá trazer benefícios para a vida da Igreja e do mundo.

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