Entrevista

D. Tolentino Mendonça: “Não pode ser a IA a guiar a revolução. Tem de ser o pensamento humano”

01 jun, 2026 - 08:00 • Ana Catarina André

Em entrevista à Renascença, o cardeal defende que sem impor limites à inteligência artificial, “corremos riscos de uma involução”, em vez de uma evolução e afirma que "vivemos numa sociedade de informação, pouco informada". Num mundo marcado pelo “ressentimento” e pela “reivindicação exasperada de autoritarismos e de interesses”, o também poeta diz é preciso ativar os recursos espirituais.

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“Não pode ser a IA a guiar a revolução", afirma D. Tolentino Mendonça

D. José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, considera que a encíclica do Papa Leão XIV “Magnifica Humanitas, apresentada recentemente, é um “texto histórico”, “de tomada de consciência”. “Não é apenas a Igreja a falar para dentro, mas é a Igreja como parceira de um diálogo que tem de chegar a todos”, sublinha.

Em entrevista à Renascença, na sequência do encontro que assinalou os 50 anos das Equipas de Jovens de Nossa Senhora, em Portugal, o cardeal e poeta destaca o papel da educação na proteção da liberdade humana e diz que a recente contestação à participação da Rússia e de Israel na Bienal de Veneza “é reflexo do mundo presente”.

O Papa Leão apresentou recentemente a sua primeira encíclica Magnifica Humanitas em que fala da necessidade de desarmar a inteligência artificial (IA). Que leitura faz desta encíclica e como é que se pode fazer um uso humano, digamos assim, da IA?

A encíclica é um texto histórico, porque faz um ponto de situação do que estamos a viver e usa uma linguagem e tem um desejo de comunicar com todos. Não é apenas a Igreja a falar para dentro, mas é a Igreja como parceira de um diálogo que tem de chegar a todos.

A encíclica é um grande texto de tomada de consciência, porque hoje nós vivemos numa sociedade de informação, mas pouco informada. A profundidade e o dramatismo da transformação que está em ato é tão grande que não pode ser a inteligência artificial a guiar esta revolução, mas tem de ser o pensamento humano.

Que riscos há?

O maior perigo é pensar a inteligência artificial não como um instrumento. É precioso o contributo da inteligência artificial e será, sem dúvida, um instrumento extraordinário, uma expressão também de genialidade humana, porque, no fundo, só a magnífica humanidade do homem podia pensar um instrumento tão sofisticado, tão novo como a inteligência artificial, mas, ao mesmo tempo, não pode aqui entrar uma lógica de substituição, mas numa lógica verdadeiramente de serviço.

No centro, tem de estar a pessoa humana. Para isso, nós precisamos de uma educação. E o Santo Padre diz, por exemplo, que as crianças, os adolescentes, não podem estar expostos demasiado cedo ao impacto das redes sociais, porque não têm ainda os mecanismos críticos para poderem maturar a própria liberdade. No fundo, é uma proteção da liberdade humana e a liberdade humana precisa do limite.

De que forma?

Se nós não nos reconciliamos com a ideia de limite, com a ideia de que algumas coisas são possíveis, mas não são boas, e algumas coisas são boas para umas pessoas, mas não são para o todo da comunidade, e que o bem comum é uma regra importante para manter os equilíbrios sociais e globais, [há riscos]. Sem essa ideia do limite, sem uma consciência crítica e sem uma ativação democrática das nossas sociedades que tenham verdadeiramente uma palavra a dizer, nós corremos, como diz a encíclica, riscos não de uma evolução, mas de uma involução em termos da vida social. Se pensarmos, por exemplo, no impacto que a inteligência artificial terá no mundo do trabalho: muitas profissões desaparecerão. É verdade que outras nascerão com a inteligência artificial, como aconteceu com a anterior Revolução Industrial, mas tudo isso tem de ser muito bem acompanhado, politicamente, socialmente, culturalmente, para evitar os desequilíbrios que são geradores de sofrimento, de desigualdade e de exclusão.

O pavilhão do Vaticano na Bienal de Veneza deste ano, comissariado por si, fala justamente do silêncio, deste tempo para estar, para ser. Foi pensado como contraponto, não digo necessariamente à inteligência artificial, mas ao mundo em que vivemos?

Nós hoje vivemos uma espécie de cacofonia. É um momento que se deixa levar muito pelo ressentimento, pelo grito, pela fragmentação, pela reivindicação exasperada de autoritarismos e de interesses. Precisamos de dar talvez um passo atrás e recolher ao próprio coração, porque o Homem tem em si, o ser humano tem em si os recursos. Precisamos de ativar os recursos espirituais.

Um recurso espiritual é o silêncio. Escutar o próprio coração, fazer uma reflexão mais madura, discernir com critérios que não sejam apenas os do próprio interesse, mas sejam os critérios do bem comum, os critérios da vida. Nós temos na cultura, nas artes, tantos mestres, tantos profetas, como diz o Papa Leão nesta sua encíclica, Magnífica Humanidade. Essa profecia cultural pode ajudar-nos a encontrar caminhos, a encontrar possibilidades e, sobretudo, a gerar encontro.

A Bienal ficou também marcada pela contestação à participação da Rússia e de Israel, o que se opõe a esta ideia de silêncio. Como é que entende a polémica gerada?

A Bienal é um evento extraordinário porque nos oferece a possibilidade de uma visão do mundo, das suas tendências, de uma espécie de diagnóstico do presente e do futuro que vem aí. A arte tem esse poder de antecipar, de prever. E, por isso, a Bienal, seja a da arquitetura, seja a arte, mas também a Bienal do cinema, tem um papel muito importante, mas não é um recinto isolado. Os contrastes e as dificuldades ao diálogo que hoje se vivem a nível generalizado também se vivem dentro destes eventos. Por isso, a agitação que atravessou esta Bienal é um pouco o reflexo do mundo presente.

Ainda assim, é possível ter um olhar de esperança perante o atual contexto marcado pela instabilidade, pela guerra, pela cacofonia, como referia há pouco?

Temos de ter um olhar de esperança. Nós estamos hipotecados à esperança, chamados à esperança e temos de olhar o mundo com outra perspetiva. E é um mundo em chave cristã. O mundo em chave cristã é um mundo que foi redimido, que foi salvo por Jesus. Estamos perto de 2033, quando celebraremos 2.000 anos da Páscoa de Jesus, 2.000 anos da redenção. Penso que é à luz desta experiência fundamental, que está no centro da fé cristã, que somos chamados a olhar o mundo e a vida.

E a poesia como é que se vai conjugando com a sua vida no Vaticano? Tem escrito?

Para mim, dos meus cinco sentidos aquele que é mais próximo da poesia e que é uma entrada da poesia na minha vida, no meu trabalho também como poeta que é a porta deste laboratório verbal que é a poesia, é o ouvido. Antes da escrita há a escuta, a hospitalidade do mundo. E aí posso dizer que a escuta caracteriza cada dia da minha vida. E nesse sentido sinto-me ligado a esse olhar mais profundo sobre a vida que a poesia me pede.

É a escuta que o inspira?

Posso dizer que é a escuta o despoletador da experiência poética.

Termino com o motivo que o trouxe aqui, a esta missa que assinala os 50 anos das Equipas de Jovens de Nossa Senhora. Que olhar tem sobre o envolvimento dos jovens na pastoral e a pastoral que se faz em Portugal?

É interessante dar uma palavra sobre o Movimento das Equipas Jovens Nossa Senhora, que nasceu associado à grande intuição do Servo de Deus, Padre Henri Caffarel, para a pastoral familiar. Mostra bem como as famílias são não apenas o alicerce da vida social, mas também são a grande locomotiva da vida da própria Igreja. Quando as equipas de casais começaram, depois surgiu muito naturalmente um movimento, com um formato semelhante, mas adaptado ao mundo juvenil, que pudesse também ser uma proposta de descoberta da Igreja e de vivência comunitária do Evangelho.

Devo dizer que este é um movimento internacional, mas desde o princípio Portugal teve sempre um papel muito importante. Foi sempre o país com maior número de equipistas. Em grande parte destes 50 anos, os órgãos internacionais eram portugueses: os casais, os padres, os diretores dos diversos secretariados.

Então podemos dizer que é um movimento internacional, mas há uma espécie de idioma português, talvez sem dúvida pela influência ou impacto de Fátima, que mostra bem quanto aposta nos jovens e na pastoral juvenil. Os jovens tornam-se verdadeiramente protagonistas da vida da Igreja, porque as equipas são os jovens que estão no secretariado, que fazem o caminho, que são os primeiros missionários dos outros jovens. Este rosto e esta experiência de uma Igreja onde os jovens são protagonistas, penso que é exemplar e pode ser inspirador também para outras realidades.

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