Entrevista

"O Papa não vai às Canárias para repreender a Europa. Vai dizer: ‘Aqui há um problema, trabalhemos juntos’"

05 jun, 2026 - 06:15 • Ana Catarina André

A um dia do início da viagem de Leão XIV a Espanha, Yago de la Cierva, coordenador-geral da visita, diz que o país precisa de uma mensagem que fomente o diálogo e a construção de pontes e lembra que a rota migratória atlântica, no centro da atenção do Papa nesta viagem, é uma das mais perigosas do mundo.

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Quinze anos depois da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que levou Bento XVI a Madrid, Espanha volta a receber a visita de um Papa. Leão XIV chega ao país no sábado, dia 6, para uma viagem de sete dias que passará por Madrid, Barcelona e pelas Ilhas Canárias.

O programa inclui um inédito discurso do Papa no Parlamento espanhol (no dia 8), a inauguração da Torre de Jesus Cristo, na Basílica da Sagrada Família (no dia 10), em Barcelona, e um encontro com migrantes, nas Canárias (no dia 11).

Em entrevista à Renascença, Yago de la Cierva, coordenador-geral da visita, especialista em comunicação de crise e professor universitário, diz que a sociedade civil espanhola “precisa de receber uma mensagem de serenidade” e afirma que, com esta viagem, talvez as pessoas sem formação cristã no país possam considerar a proposta da Igreja.

“Menos de metade das crianças que nascem em Espanha são batizadas; menos de 15% dos casamentos são celebrados pela Igreja”, afirma, sublinhando também outros pontos positivos, como a redescoberta da fé por parte de um número crescente de jovens.

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Yago de la Cierva, que tem experiência na organização deste tipo de eventos (foi diretor executivo da JMJ de Madrid), defende, ainda, que Leão XIV “nunca fez política”. “Não falo apenas de Trump, mas há muitos presidentes que não aceitam uma visão cristã da vida e da sociedade”, diz, acrescentando que, na recente viagem a África, o Papa não enfrentou o Presidente dos Estados Unidos. “No máximo, poder-se-ia dizer que foi Trump quem não aceitou a proposta do Papa.”


O Papa está prestes a iniciar esta visita a Espanha. Para a Igreja espanhola, o que será uma viagem bem-sucedida?

Para a Igreja em Espanha é um privilégio que o Santo Padre tenha escolhido o país como primeiro destino na União Europeia. O próprio Papa contou que a viagem começou com uma herança do Papa Francisco, que tinha decidido ir às Ilhas Canárias precisamente para colocar no centro das atenções a rota migratória atlântica. A rota migratória mediterrânica é mais conhecida, mas a atlântica é mais letal, mais perigosa. Há mais máfias. Tal como foi a Lampedusa, no início do seu pontificado, o Papa Francisco queria terminar o seu pontificado indo às Canárias. Depois adoeceu e não pôde concretizar esse desejo.

Foi assim que começou a viagem. Depois, [o Papa Leão] aceitou também a visita a Barcelona para a inauguração da Torre de Jesus da Sagrada Família e disse ao cardeal Cobo que queria vir a Madrid. Porquê? Porque estava à procura de uma grande metrópole europeia para transmitir grandes mensagens, não apenas para Espanha, mas para toda a União Europeia. E daqui isso podia ser feito. Por isso, vem a Madrid. Além disso, a Diocese de Madrid está cheia de vitalidade cristã. Há igrejas em construção, muita prática religiosa, muitos movimentos, muita vida. Para a Igreja espanhola é uma verdadeira honra e esperamos estar à altura.

É preciso esperar que o Papa diga quais são as suas prioridades

O que é que a atual Espanha, marcada por polarizações e tensões, precisa de ouvir do Papa?

A sociedade civil precisa de receber uma mensagem de serenidade, uma mensagem associada à construção de pontes, ao diálogo social. Precisa de trabalhar em conjunto pelo bem comum, de pensar a longo prazo e não apenas nos curtos prazos eleitorais. Neste momento, a polarização que existe em Espanha, que infelizmente não acontece apenas aqui, mas também noutros lugares, afeta a vida política. Basta ler os jornais: estão cheios de ataques e de questões relacionadas com processos judiciais em curso. Desde a sua eleição, o Papa tem falado em construir pontes, em estender a mão ao adversário e em trabalhar em conjunto, e esperamos que esta seja uma mensagem para a sociedade civil.

Depois, haverá também outra mensagem para a Igreja. Como fazem todos os Papas quando visitam um país, esperamos que esta viagem fortaleça a fé dos católicos: àqueles que já praticam a sua fé [que os incentive] a continuarem e a melhorarem; aos católicos mais mornos, que de alguma forma abandonaram a prática da fé, a regressarem a casa; e àqueles que nunca receberam formação cristã, porque Espanha está numa fase de descristianização, que considerem a mensagem cristã como um caminho mais direto para a felicidade. A vida cristã não é outra coisa senão os planos que Deus tem para que os homens sejam felizes. E é isso que esperamos que o Papa diga a todos.

Como disse, Espanha é um país que segue uma tendência de descristianização comum a outros países europeus. Parece-lhe que esta é uma prioridade do pontificado de Leão XIV, este olhar para a velha Europa?

É preciso esperar que o Papa diga quais são as suas prioridades. O pontificado tem um ano e quase três semanas, e talvez por isso esta visita seja tão interessante, porque nos vai ajudar a conhecer melhor os planos do Papa Leão para a Igreja Universal. Recentemente, tivemos a oportunidade de ler a encíclica [Magnifica humanitas], que é maravilhosa. Pensamos que, durante a visita, provavelmente o Papa irá desenvolver o que disse na encíclica, concretizando mais as suas ideias, para nos ajudar a aproximar de Deus, que é o objetivo último da sua vinda.

O Papa Leão nunca fez política

Espanha tem, neste momento, um governo que, nas suas palavras, é hostil à Igreja. Nesta viagem, Leão XIV vai encontrar-se com os Reis e discursar perante o Congresso e o Senado. Que mensagem pode levar?

O encontro com as autoridades políticas e o corpo diplomático é algo protocolar que todos os chefes de Estado fazem, quando vêm a Espanha. O Papa também o faz. O que é diferente é o discurso do Papa ao parlamento espanhol, com as duas câmaras, o Congresso e o Senado. É algo que muito poucos Papas fizeram. Fê-lo o Papa Bento XVI, na Alemanha; fê-lo também no Reino Unido, e o Papa Francisco fez o mesmo no Congresso dos Estados Unidos. Agora temos o Papa Leão a falar perante um Parlamento.

O que é que eu gostaria? Gostaria que toda a sociedade, e em particular o setor político, prestasse muita atenção ao que ele diz, e que o visse como um representante dos cidadãos. O Papa é uma autoridade moral universal, e conhece Espanha porque já lá esteve muitas vezes, fala a língua, mas vem de fora. Por isso, ouvir alguém que vem de fora e que não está envolvido na luta política pode ser muito benéfico para todos, para trabalharmos, como dizia antes, pelo bem comum e para nos integrarmos como sociedade, porque os problemas sociais só se resolvem verdadeiramente quando trabalhamos juntos – pessoas que pensam de forma diferente.

É isso que espero que aconteça com a visita do Papa. Desejo que todas as forças políticas tenham essa visão universal para o escutar, e que isso seja um novo ponto de partida, de tal forma que as palavras do Papa tenham realmente impacto na vida política espanhola.

Ainda no plano político, Espanha tem sido um dos países mais críticos da administração Trump. Parece-lhe que neste aspeto, há alguma proximidade às posições manifestadas pelo Papa?

Creio que o Papa Leão nunca fez política e ele próprio precisou isso mesmo na viagem a África. Quando fala, fala de temas morais, de antropologia, da dignidade do ser humano. Não fala de política. Não falo apenas de Trump, mas há muitos presidentes que não aceitam uma visão cristã da vida e da sociedade e do progresso, e de como fazer com que toda a sociedade se integre. Se algum político não entende isso, é um problema seu.

O Papa Leão não tem medo do confronto – já o testemunhámos. No entanto, não procura o confronto, nem fala num plano político de propostas concretas; fala num plano moral, sobre os princípios e as prioridades que os governantes deveriam ter. O Papa deixou isso muito claro: não enfrentou Trump. No máximo, poder-se-ia dizer que foi Trump quem não aceitou a proposta do Papa Leão.

Esta visita inclui um encontro com os jovens e um encontro com os voluntários, o que lembra a última vez que um Papa esteve em Espanha – Bento XVI, em 2011, para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Nos últimos tempos, tem-se assistido a um novo interesse dos mais jovens pela Igreja. O objetivo deste momento é cimentar este crescimento?

A visita do Papa não é uma JMJ. No nosso caso, foi durante a Jornada Mundial da Juventude de 2011, com Bento XVI, que um Papa veio a Espanha. Muitos dos que trabalhámos na JMJ estamos, também agora, a trabalhar nesta visita.

É o seu caso.

Sim. Sou uma pessoa que tropeça várias vezes na mesma pedra [risos]. Nesta visita, o Papa vai ao parlamento, ao Palácio Real. Tem muitos encontros com pessoas vulneráveis. Terá um encontro com o mundo empresarial e desportivo, com as universidades e com os professores, ou seja, com pessoas que não são necessariamente jovens. Procurámos que esta visita às cinco dioceses espanholas tenha unidade. Portanto, o Papa fala com todos.

Agora, evidentemente, os jovens são uma prioridade da Igreja. Por um lado, há dados que sugerem uma descristianização: menos de metade das crianças que nascem em Espanha são batizadas; menos de 15% dos casamentos são celebrados pela Igreja. São dados negativos. Mas, ao mesmo tempo, há muito mais batismos de jovens e adultos. Existe um novo interesse pela Igreja, talvez porque muitas pessoas não receberam qualquer formação cristã e agora, depois de terem verificado que as propostas ateias ou agnósticas não as satisfazem, recorrem à Igreja.

E aqui, o que a Igreja gostaria é que esta visita do Papa fosse a entrada para casa. Gostaríamos que esta visita ajudasse as pessoas a não ficarem apenas no átrio, mas a entrarem até à sala, à cozinha, para compreenderem melhor a mensagem do Evangelho – a entrarem e a permanecerem.

A ida às Canárias assume-se central no que toca ao tema das migrações. A Rota Atlântica das Canárias é uma das mais perigosas do mundo. Era intenção do Papa Francisco, aliás, fazer esta visita, como referiu. Espera-se que seja o momento em que a voz do Papa tenha mais impacto?

Espero que sim, porque, nas viagens, a última etapa costuma ser a mais importante. Os meios de comunicação acompanharam a visita e os cidadãos também a seguiram.

Por isso, será muito importante aquilo que ele disser ali. Nas Canárias fará duas coisas. Em primeiro lugar, colocará o foco da atenção nessa rota migratória que é verdadeiramente mortal. Mas também fará outra coisa: destacar as boas ações de muitos católicos que acolheram e integraram imigrantes. O Papa não vai às Canárias para repreender a Europa. Vai dizer: “Aqui há um problema; trabalhemos juntos”. E creio que também irá felicitar aqueles que cuidaram de tantos milhares de pessoas e as ajudaram, por vezes até mais do que as próprias estruturas públicas. Foram generosos, ajudaram estas pessoas a encontrar trabalho e facilitaram a reunificação familiar. Penso que o Papa irá lá para dizer: “Fizeram muito bem; podemos fazer ainda melhor”. Todos devíamos estar a preparar-nos para acolher todos os imigrantes como seres humanos, com muito respeito e dignidade.

Este é um momento também para sanar tensões, atendendo a que o tema das migrações desperta posições muito díspares no seio da sociedade espanhola?

Há problemas de segurança, de crimes e de terrorismo, e por isso nenhum deles pode ser ignorado. Penso que, como disse o Papa Leão na sua viagem a África, os princípios da doutrina social cristã são claros: primeiro, os Estados têm direito a regular a imigração; segundo, toda a pessoa deve ser tratada com dignidade. É necessário enfrentar o problema da migração, porque são pessoas que vêm em busca de melhores condições de vida para as suas famílias, o que é algo digno e merecedor de respeito.

São dois princípios que apenas o equilíbrio e o diálogo permitem conciliar: integrar estas pessoas – são pessoas e não ameaças –, e ao mesmo tempo estabelecer os controlos necessários para impedir a entrada do crime organizado e evitar que a abertura de fronteiras a todos não facilite a atuação de máfias dedicadas ao tráfico de seres humanos. Um responsável político aqui, em Espanha, dizia-me que a maioria dos imigrantes em situação irregular não chega de barco, mas de avião: aterram num aeroporto, entram como turistas e depois permanecem ilegalmente no país. Esse é o grupo mais numeroso dentro da imigração irregular. Por isso, é preciso prestar especial atenção à imigração mais vulnerável, aquela que está controlada por máfias que obtêm enormes lucros explorando pessoas extremamente pobres.

Creio que, se trabalharmos em conjunto e analisarmos quais devem ser os controlos adequados, entendendo também que não se trata apenas de controlar, mas também de integrar posteriormente quem chega, poderemos avançar. Espanha, tal como Portugal e outros países europeus, atravessa uma situação de natalidade extremamente baixa. Nesse sentido, a imigração não é apenas um benefício para quem chega; também é um benefício para as nossas sociedades, que sem imigração poderiam enfrentar um grave declínio demográfico numa única geração. Por isso, o fenómeno migratório é muito complexo e deve ser abordado de forma conjunta. As ideologias extremas, venham de um lado ou de outro, apenas dificultam a procura de soluções.

O Papa é uma ponte entre a Europa e a América

Prevê-se também um momento de encontro com as vítimas de abusos? É um tema que causou enorme desgaste público à Igreja em Espanha.

Sabemos que o Papa Bento e o Papa Francisco o fizeram em todas as suas viagens. Aqui, se houver esse encontro, fará parte da agenda privada. Quando o Papa recebeu vítimas, sempre o fez em privado. A Santa Sé nunca o anunciou antecipadamente, comunicou-o depois, e não utiliza isso para tirar proveito. Fá-lo simplesmente para colaborar com os processos de cura dessas pessoas e, muitas vezes, para lhes pedir perdão em nome da Igreja. Por isso, não sabemos. Se esse encontro acontecer, saberemos depois.

Olhando globalmente para esta visita, parece-lhe que trará também uma mensagem para a América Latina, atendendo à própria ligação do Papa com a região (tem nacionalidade peruana) e também à ligação histórica de Espanha com estes países?

Esperamos que sim. Madrid é uma cidade muito aberta. Há muitos madrilenos que vêm de países da América Latina e esta ligação vai destacar-se, não só em aspetos simbólicos (o primeiro grande encontro do Papa será na Praça de Lima), mas também pela presença de muitas pessoas da América Latina que participam como peregrinos, que fazem leituras [na missa], que dão testemunho. Como o Papa é uma ponte entre a Europa e a América e entre as duas Américas, também queremos que esta visita represente aquilo que ele é.

Sei que, na última viagem de um Papa a Espanha, fez algumas propostas mais criativas aquando da elaboração do programa. Sugeriu, por exemplo, que o piloto de Fórmula 1 Fernando Alonso conduzisse o papamóvel, o que acabou por não acontecer. Que ideias apresentou desta vez?

Se queremos que as surpresas sejam surpresas, é preciso esperar até que aconteçam. É como contar o final de um filme. É preciso esperar [risos].

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