Papa em Espanha
Papa no Parlamento espanhol: Defesa da vida humana não é uma questão confessional, é objetivo da civilização
08 jun, 2026 - 12:55 • Aura Miguel
Num discurso histórico, Leão XIV defendeu que o segredo sacramental da confissão assume especial importância para a Igreja Católica. Sobre a guerra, lembrou que as armas impõe silêncio temporário, mas não a paz duradoura.
"Uma lei não atinge sua verdadeira grandeza simplesmente por ser formalmente aprovada", disse o Papa na manhã desta segunda-feira no Parlamente espanhol. "Mas atinge-a quando, além de ser válida formalmente, pode apresentar-se diante da dignidade da pessoa e emergir desse exame sem vergonha.”
“Convido-vos, portanto, a elevar o olhar: não a distanciarem-se da realidade, mas a lembrarem que toda a decisão das autoridades públicas afeta pessoas reais, especialmente aquelas com menos poder de se fazerem ouvir. É por isso que, além das soluções técnicas e das reformas legais, uma renovação moral também se faz necessária", continuou Leão XIV, durante o discurso histórico. Nunca um Papa tinha discurso no parlamento espanhol.
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“Que conceção da pessoa humana inspira as leis, e que tipo de sociedade constroem essas leis?” — esta questão crucial, levantada por Leão XIV, foi o motor de todo o seu discurso.
Papa em Espanha
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O Papa lembrou que, ao longo da história, a Espanha “soube ver o ser humano como algo mais do que uma mera engrenagem na máquina social, económica ou política, reconhecendo-o como uma criatura aberta à verdade, dotada de liberdade e movida por uma sede de eternidade que nenhuma realidade temporal pode extinguir”.
E sublinhou que um dos grandes legados de Espanha é “ter unido a ação histórica à clareza da razão moral”.
Como construir a paz?
A paz esteve, como habitualmente, presente no discurso de Leão XIV. O grande desafio, disse, é “como construir a paz no reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana e não na imposição da força".
Para o Papa, "tal dignidade precede qualquer concessão do Estado e não pode ser subordinada a consensos sociais voláteis ou aos caprichos das maiorias num determinado momento”.
Num discurso de quase meia-hora, o Papa sublinhou que a defesa da vida humana não é uma questão partidária nem um interesse confessional, mas um objetivo da civilização.
“Toda a vida humana deve ser reconhecida e protegida desde a conceção até à morte natural, em todas as circunstâncias da sua existência" defendeu. "Quando esta certeza é obscurecida, os mais vulneráveis são as primeiras vítimas, e a lei perde o seu significado mais profundo de servir e proteger cada pessoa. Por conseguinte, a grandeza moral de uma nação manifesta-se, sobretudo, na sua capacidade de acompanhar, proteger e amar as vidas que vivem a maior fragilidade”.
Respeitar o direito dos pais de escolherem a educação dos filhos
A família será sempre a primeira escola de humanidade onde se aprende “a gramática elementar da convivência: receber a vida, cuidar do outro, perdoar, servir e pertencer”.
Por isso, disse o Papa, deve-se respeitar sempre “o direito primordial e inalienável dos pais de escolherem o tipo de educação e formação que os seus filhos recebem, de acordo com as suas próprias convicções morais, culturais e religiosas”.
Para Leão XIV, o drama trágico da migração desafia também a consciência das nações e o fundamento ético da ordem internacional. “Esta realidade transcende qualquer interpretação puramente demográfica ou económica: constitui uma questão eminentemente moral e jurídica."
As armas impõe silêncio temporário, não a paz duradoura
Sobre a guerra, o Papa disse que, em última análise, “representa uma dolorosa derrota da capacidade negocial e também daquela consciência partilhada da humanidade que reconhece os laços de justiça entre as nações. As armas podem impor um silêncio temporário, mas nunca poderão construir uma paz genuína e duradoura”.
Preocupado com a situação, em várias partes do mundo, incluindo a Europa, o Papa lamenta que o rearmamento esteja a ressurgir como uma resposta quase inevitável à fragilidade do panorama internacional.
"A verdadeira segurança, por outro lado, nasce da justiça, do diálogo paciente, do respeito pelo direito internacional e de uma política capaz de colocar a vida dos povos acima dos interesses que lucram com a guerra.”
Leão XIV recordou ainda que “a legítima autonomia da ordem temporal nunca deve ser interpretada como hostilidade ao fenómeno religioso”.
Aos deputados, o Papa frisou que “a fé não procura impor-se através de privilégios ou coação; contudo, também não pode ser relegada ao silêncio como se fosse irrelevante para a vida pública”.
E acrescentou: “Neste contexto, o segredo sacramental da confissão assume especial importância para a Igreja Católica. Insere-se na esfera mais vasta da liberdade religiosa, que garante às comunidades de fiéis o seu próprio espaço de vida, organização e disciplina interna.”










