Leão XIV em Barcelona

Papa ouve jovens e alerta para crise de saúde mental e feminicídio

09 jun, 2026 - 20:24 • Aura Miguel, enviada especial a Barcelona

Em Barcelona, um rapaz e duas raparigas abriram o coração ao Papa e partilharam os seus problemas com o mundo. Leão XIV pediu medidas para a saúde mental e também alertou para o flagelo da violência doméstica e das mulheres assassinadas pelos companheiros. "Todos somos chamados a enfrentar esta realidade dramática", declarou.

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Depressão profunda, tentativa de suícídio, sentido da vida, conflitos familiares, perdão e pressão social. O Papa respondeu esta terça-feira a perguntas sobre temas difíceis colocadas por jovens no Estádio Olímpico "Lluís Companys", em Barcelona.

Ao quarto dia de visita a Espanha, Leão XIV escutou as inquietações das novas gerações, durante uma vigília com momentos de grande emoção, e apontou alguns caminhos de luz em tempos sombrios.

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Uma jovem que tentou o suicídio após uma depressão profunda disse que recebeu uma segunda oportunidade na vida. Perguntou ao Papa onde encontrar Deus “quando a escuridão é total” e quando nada parece ter valor ou sentido.

Outro caso partilhado no Estádio Olímpico envolveu um drama familiar. Uma jovem relatou que o pai tentou assassinar a mãe. Acabou por matar um rapaz que tentou intervir e foi preso. A mãe caiu no mundo da droga. A jovem foi institucionalizada e pergunta como pode perdoar o pai e onde estava Deus.

Num terceiro testemunho, um jovem falou da pressão da sociedade para o sucesso e a obsessão com a imagem. Recentemente batizado, perguntou ao Papa como pode uma pessoa manter o foco no que verdadeiramente interessa na vida e como cada um pode descobrir a sua vocação.

De seguida, transcrevemos um excerto das perguntas dos três jovens e das respostas do Papa Leão XIV:


A sociedade pressiona para ter sucesso mas só encontrei um vazio imenso. Como manter o olhar fixo no que realmente importa?

Pergunta:

Crescemos a ouvir que o único objetivo na vida é produzir, ter sucesso e cultivar a nossa imagem. Eu tentei, mas só encontrei um vazio imenso. Em busca de respostas, a minha vida deu uma reviravolta e, na Páscoa passada, recebi o Batismo. Agora que este caminho é novo para mim, pergunto: como podemos manter o olhar fixo no que realmente importa quando a sociedade nos pressiona a olhar constantemente para baixo ou apenas para nós próprios? Como podemos descobrir a nossa verdadeira vocação no meio desta corrente?

Papa Leão:

Muitos jovens e adultos estão a redescobrir a fé cristã, talvez depois de uma fase da vida em que se afastaram um pouco de Deus. Este é um passo realmente importante.

O nosso desejo de verdade e felicidade exige um horizonte mais amplo. E esta inquietação é um dom que o próprio Deus nos deu: somos feitos para o infinito e, por isso, cada horizonte finito, cada passo, cada conquista, embora nos satisfaça, é, ao mesmo tempo, um impulso para a frente e convida-nos a continuar a procurar e a procurar avançar, mas sobretudo, a procurar «descendo interiormente», ou seja, entrar no mais profundo.

É neste mundo que devemos cultivar a inquietação, não é noutro. Devemos cultivar esta inquietação e dar-lhe espaço. Mas precisamos de cultivar essa inquietação e abrir espaço para ela, “olhar para dentro”, tentando não nos deixarmos dominar pelos ritmos e seduções exteriores, cultivando espaços de silêncio, talvez parando alguns minutos por dia para ler o Evangelho e falar com Deus. E tentar também fazer esta viagem interior juntamente com os outros, interagindo com sacerdotes, religiosos e pessoas que, como nós, embarcaram neste caminho.

Perdi a batalha contra a depressão e tentei acabar com a minha vida. Onde podemos ver Deus quando já não aguentamos mais?

Pergunta:

Num mundo onde tudo grita, há aspetos da vida que permanecem calados, com vergonha; como a depressão, uma doença silenciosa que afeta muitas pessoas, jovens e adultos, e traz consigo escuridão, isolamento e uma dor incomensurável. Por vezes, essa dor é tão avassaladora que a ideia de desaparecer parece a única saída. Eu própria lutei para superar esta doença, em silêncio durante anos, e numa sexta-feira à noite perdi a batalha e tentei tirar a minha própria vida. Estou aqui porque Deus me deu uma segunda oportunidade, e ser-Lhe-ei sempre eternamente grata, mas há muitos outros que continuam a enfrentar essa escuridão. Por isso, pergunto-lhe de todo o coração: Onde podemos ver Deus quando a escuridão é absoluta e já não aguentamos mais? Como podemos confiar em Deus quando parece que nada, nem eu mesma, vale a pena?

Papa Leão:

Antes de mais, agradeço-te por teres partilhado a tua experiência de sofrimento hoje. Fico comovido por poderes falar sobre isto, por estares aqui entre nós e por teres encontrado forças para abraçar esta segunda oportunidade que o Senhor te deu. Levantaste-te e retomaste o caminho e isso é um milagre maravilhoso.

Na tua pergunta, falaste primeiro na “doença silenciosa” que é a depressão, e é importante tomar consciência de como a saúde mental está cada vez mais ameaçada no contexto de sociedades que se consideram avançadas. É um sinal de que há algo de profundamente errado numa certa ideia de crescimento que submete as pessoas a pressões, expectativas e tensões que comprometem equilíbrios fundamentais. Por isso, precisamos de um sistema de saúde que inclua entre as suas prioridades este mal-estar invisível e generalizado, que também afeta os jovens.

As tuas palavras, no entanto, também nos mostraram que a dor põe à prova a nossa fé e o significado que damos à vida. Isto é verdade para todos, não só para aqueles que em algum momento passam pela provação da doença.

Há momentos de escuridão e sofrimento que a nossa sociedade silencia, porque precisamente alguns os modelos culturais querem que sejamos sempre vitoriosos e perfeitos e, por isso, os limites, a fragilidade e a dor devem ser eliminados, confinados ao silêncio ensurdecedor da solidão ou mesmo da vergonha.

Nas horas de dor, pelo menos na medida do possível, devemos abrir-nos a alguém que nos ajude a expressar uma oração simples, que nos acompanhe discretamente sem pressa de explicar-nos essa dor, que nos pegue na mão e nos conduza para fora desse grito.

Às vezes, olho para o céu e pergunto: Onde estavas quando eu era criança?. Santo Padre, como posso perdoar ao meu pai, que quase me deixou sem mãe? Como posso reconciliar-me com Deus?

Pergunta:

Venho de uma família de um bairro muito humilde de Barcelona. Quando eu era pequena, o meu pai tentou matar a minha mãe e ela foi salva porque um rapaz interveio e morreu. O meu pai foi preso e a minha mãe entrou no mundo das drogas. Aos dez anos, os serviços sociais tomaram conta de mim e levaram-me para o centro de detenção juvenil San José de la Montaña. No início, foi duro porque tinha construído um muro para me proteger, onde não deixava entrar ninguém. Mas, aos poucos, experimentei o amor familiar pela primeira vez e o meu coração começou a abrir-se. Ali, falaram-me de Jesus, comecei a rezar e fui batizada. Mas, na adolescência, revoltei-me contra Deus muitas vezes. Convidaram-me para um retiro e aí, pela primeira vez, experimentei o amor de Deus. Mas já passaram alguns meses e ainda acho difícil perdoar ao meu pai. E às vezes olho para o céu e pergunto: "Onde estavas quando eu era criança?". Santo Padre, como posso perdoar ao meu pai, que quase me deixou sem mãe? Como posso reconciliar-me verdadeiramente com Deus?

Papa Leão:

Obrigado pelo teu testemunho e também pela pergunta sobre o perdão. É verdadeiramente um sinal da graça de Deus que esta questão surja de um passado tão marcado pelo sofrimento e que, apesar da dor, haja coragem para questionar como é possível perdoar aqueles que nos fizeram mal.

Devemos perguntar-nos “onde estava Deus?” ou devemos interrogar-nos sobre o homem e a humanidade, sobre como somos por vezes prisioneiros do mal ao ponto de nos tornarmos violentos com os outros, sobre como falhamos em cultivar o amor e o respeito pelo próximo na sua dignidade e liberdade?

Tantas crónicas policiais, ainda hoje, relatam uma atmosfera tóxica nas relações familiares, marcada por abusos e opressão e, em particular, pela violência contra as mulheres, que muitas vezes culmina tragicamente no feminicídio. Todos somos chamados a enfrentar esta realidade dramática, quer individualmente, quer enquanto sociedade, porque nos cabe a nós confrontá-la em todas as suas dimensões. Não podemos atribuir a Deus o que estava confiado à nossa responsabilidade; não podemos imaginar que Deus, no alto, responderá automaticamente às nossas necessidades ou impedirá milagrosamente que o mal aconteça.

Precisamos de aprender a ver no perdão, um poderoso remédio contra o mal que cura as nossas feridas interiores, como parte de um processo, de uma viagem.

Acima de tudo, precisamos de invocar o perdão do Senhor; precisamos de continuar a pedir — talvez por toda a vida — que o Senhor expanda o espaço do amor dentro de nós, precisamente onde fomos magoados, que Ele nos ajude a reconciliar-nos connosco mesmos e, com esta parte da nossa história marcada pelo sofrimento, que Ele transforme lentamente o ressentimento em misericórdia e compaixão. É um longo percurso, um processo que exige muita paciência. E é preciso não desanimar: no perdão, avança-se com pequenos passos.


Se precisa de ajuda ou tem dúvidas sobre questões de saúde mental, contacte um médico especialista, ou um dos vários serviços e linhas de apoio gratuitas, como o SNS 24 (808 24 24 24), o SOS Voz Amiga (800 209 899/213 544 545), o SOS Criança (116 111), a Linha Jovem (800 208 020) ou o SOS Adolescente (800 202 484).

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  • António
    10 jun, 2026 Porto 06:35
    Se fosse fácil a porta seria bem larga, assim como Roma não se fez num dia assim o homem espiritual não é, para mim, esta geração espontânea a que assistimos, um ser numa dúzia de anos poder ter uma relação direta com o criador do universo. Assim sejam quais forem as condições adversas a que os humanos nascem sujeitos é sempre uma escolha benigna em troca do limbo merecido pela sua conduta anterior. Mesmo nesses, os desafortunados, ainda recai esperança, mas tudo isto é conversa mole, se não se tiver oferenda nenhuma sobre o altar, benéfico de um outro que não ele, a verdade nunca virá para nos libertar. Todo o espírito tem absoluto respeito à verdade, quem ousar negar a verdade sofre um dos poucos castigo referido por Cristo, todos os outros podem ser perdoados. Assim, dada as nossas características de estarmos sempre a ser aliciados para depois passarmos a viver debaixo de pressão que tem como fim último a nossa própria destruição como objetivo, pouco ou nada podemos fazer se não estivermos dispostos a morrer para este mundo que nos ensinaram e a recriar tudo da forma que melhor lhe convier tendo acima de tudo e todos um Deus que nos olha em silêncio, por mais que sejam cruéis as condições são sempre apostas em nós, pois somos sempre senhores do caminho dos nossos pensamentos, só nos é verdadeiramente pedido é uma direção, pois para mais somos impotentes, nessa direção o próprio caminho se constrói por si, mas nada nos diz que assim é, pelo contrário.
  • António
    10 jun, 2026 Porto 06:33
    Assim, vivendo nestas certezas que nada têm de verdade se encaminham todos para a porta estreita sem nada poder fazer a conjuntura para o bem que se esconde atrás do cenário. Todos lutamos para nos mantermos a tona de água, todos, a opressão ao espírito não carece de meios, ela sempre arranja forma de nos oprimir e guiar para o beco sem saída, seja rico, seja pobre, é um constituinte da nossa natureza, é a causa da nossa disfuncionalidade enquanto humanidade. Carregado é o fardo de quem chega ao beco, uma tigela de sopa e um cocharro de água não é o bastante para se recompor? Que se passa então? Nuvens, raios, trovões, abismos e leões vagueiam livremente no espírito e não há forma de os combater. Na verdade, é uma ilusão, alienação, pois nada disso está no beco, o beco está completamente despido, tudo vem de dentro. Verdade! Verdade! Ajuda-me! O cético dirá, como te posso ajudar se nada mais aqui se vê além de ti? Cruza o teu destino com o meu e diz-me para que lado devo ir, pois sozinho nada posso, para a verdade vir em meu auxílio, pois está escrito dois ou três. (Mantendo o devido respeito às palavras do nosso Papa naturalmente pois não é um assunto a que se poderia responder da forma um tanto ou pouco leviana como o meu texto).

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