Entrevista ao bispo das Canárias

“Há quem defenda o respeito pela vida quando se trata do aborto, mas queira que se corte a cabeça aos imigrantes”

11 jun, 2026 - 06:30 • Ana Catarina André

O bispo das Canárias, arquipélago que por estes dias recebe o Papa, diz que o governo espanhol abandonou o território confrontado, nos últimos anos, com a chegada de milhares de migrantes vindos da costa africana. Com a visita de Leão XIV, D. José Mazuelos Perez espera “pôr fim à rota atlântica, onde morrem mais de 10 mil pessoas por ano”.

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Depois de Madrid e Barcelona, o Papa chega esta quinta-feira às Canárias, onde se vai encontrar com migrantes e organizações que os acolhem. É um dos momentos mais esperados da viagem de sete dias a Espanha, uma vez que o arquipélago é o ponto de chegada de uma das rotas migratórias mais perigosas do mundo. Até maio deste ano, de acordo com um relatório do coletivo Caminando Fronteras, 1.317 pessoas morreram a tentar alcançar as costas espanholas.

Em entrevista à Renascença, D. José Mazuelos Perez, bispo da diocese das Canárias, alerta para o número de migrantes que acabam nas ruas, assim que se tornam maiores de idade. “Muitos deles ficam extremamente vulneráveis e acabam por se tornar uma presa fácil para redes criminosas de tráfico de droga ou pornografia”, diz o prelado que considera que, em matéria de migrações, “o governo de Espanha olha muitas vezes para o lado”.

“Estamos a falar de seres humanos e não podemos utilizá-los como instrumento de disputa eleitoral.”

A poucas horas de receber Leão XIV, D. José Mazuelos Perez diz que, com a visita ao país, iniciada a 6 de junho, o “Papa devolveu a esperança ao povo espanhol”, deixando um convite a que a Europa desperte.

“Não podemos passar a vida a olhar apenas para a China ou para os Estados Unidos. A Europa tem a capacidade de oferecer valores ao mundo e de contribuir para a paz, mas muitas vezes parece estar distraída, a olhar para o lado. É preciso recuperar a autoestima europeia”, sublinha o bispo das Canárias.


O Papa vai às Canárias para chamar a atenção do mundo para a questão das migrações. Para quem não conhece bem a realidade, aí no arquipélago, de que dramas humanos estamos a falar?

Em 2020, em plena pandemia, começaram a chegar ao porto de Arguineguín, [na Gran Canária], um sem número de “cayucos” [embarcações a motor, de madeira ou de fibra de vidro, que fazem a travessia entre a costa de África e este arquipélago espanhol, transportando pessoas]. Chegavam uns atrás dos outros, até ao ponto de se concentrarem ali, no porto, quase 3.000 pessoas. Era assim dia, após dia, em plena pandemia – e ninguém olhava para o que estava a acontecer ali. A Cáritas distribuía roupa e comida, mas como estávamos em pandemia, o problema não se resolvia. Por exemplo, em El Hierro [a ilhas mais ocidental do arquipélago], que também ficou sobrelotada (tem uma população de apenas 3.000 habitantes e recebeu milhares de pessoas) começou-se a agir rapidamente e as pessoas que chegavam foram sendo transferidas para Tenerife e para a Gran Canaria. O Governo organizou essas deslocações, mas, naquela altura, a situação apanhou muita gente desprevenida.Por outro lado, devido à pandemia, acabou por se olhar para o lado e aquilo acabou por se transformar no “porto da vergonha”.

Na ilha de El Hierro a população migrante chegou a ser mais numerosa do que a população local. Como é que se pode enfrentar este problema de integração? A Igreja tem desenvolvido neste campo um vastíssimo trabalho…

Em Arguineguín, [no encontro do Papa com migrantes, esta quinta-feira, dia 11], quisemos incluir o testemunho destes migrantes. Aqui temos, também, uma imigração latino-americana que, muitas vezes, não é tida em conta. Há aqui muita imigração proveniente da Venezuela, de Cuba e da Colômbia, motivada pelos regimes desses países. Muitas dessas pessoas perderam o direito de permanecer na sua terra. Muitos venezuelanos não queriam emigrar, mas, perante a ditadura e o autoritarismo, viram-se obrigados a partir. No caso da Venezuela, existe uma forte ligação histórica e afetiva com as Canárias. Vieram muitos venezuelanos e muitas famílias latino-americanas. Por isso, também queremos olhar para essa realidade migratória. É verdade que não chegaram em “cayucos”; vieram de avião, mas também é verdade que, quando desembarcaram, encontraram-se muitas vezes sem nada. Há muitas famílias que não têm recursos e precisam de ser acolhidas e apoiadas. Ao mesmo tempo, há toda a migração subsaariana que também precisa de acolhimento.

Muitos deles ficam extremamente vulneráveis e acabam por se tornar uma presa fácil para redes criminosas de tráfico de droga ou pornografia

Os protagonistas de uma das rotas migratórias mais perigosas do mundo…

Sim. Estas pessoas chegam em “cayucos” em condições extremamente precárias e é preciso dar-lhes assistência. O objetivo deste encontro [do Papa] em Arguineguín é destacar não apenas o acolhimento, mas também a integração. Por isso, teremos pessoas que chegaram às Canárias, foram acolhidas e estão hoje plenamente integradas, com os seus empregos e projetos de vida, graças ao trabalho desenvolvido pela Cáritas. É essa integração que queremos valorizar.

Ao mesmo tempo, queremos reconhecer a boa vontade de tantos homens e mulheres que estão no terreno e que são verdadeiros anjos dos migrantes e salvadores marítimos: elementos da Guarda Civil, da Polícia Nacional, voluntários e trabalhadores da Cáritas, da Cruz Vermelha e, claro, os pescadores. Os pescadores de Arguineguín e de todas as Ilhas Canárias são, muitas vezes, os primeiros a avistar um “cayuco” e a prestar auxílio às pessoas que neles viajam. Há inúmeras histórias de solidariedade e dedicação. Por isso, este é também um tributo a todas essas pessoas de boa vontade que acolhem e conduzem estas pessoas a um porto seguro, correndo muitas vezes enormes riscos.

Atendendo a todas estas questões, acha que o arquipélago das Canárias se sente abandonado pelo governo central e de certo modo pelos espanhóis que vivem noutras regiões do país e não enfrentam este fluxo migratório à porta de casa?

Quando se deu “a vergonha de Arguineguín”, o porto estava completamente abandonado. Depois, surgiu a questão dos menores que chegavam nos “cayucos”. O governo central dizia que aquele era um problema do governo da comunidade autónoma [das Ilhas Canárias] e que os menores eram da sua responsabilidade. De repente, apareceram 3.000 menores e era preciso acolhê-los, dar-lhes dormida, comida e não havia espaço. Tem sido feito um enorme esforço para os receber. Depois, quando completam18 anos, o governo central limita-se a dizer que a partir dali é com eles, e olha para o lado. Então, o que é que acontece? Temos jovens de 18 anos que vão para a rua e aí permanecem. Quem os apoia? Mais uma vez, aparece a Cáritas que lhes dá comida e roupa. Nas paróquias do sul da Gran Canaria — uma zona marcada pelo forte desenvolvimento turístico, incluindo Vecindario, Playa del Inglés, Maspalomas, Arguineguín e Mogán — as equipas da Cáritas realizam um trabalho muito importante junto destes jovens que deixaram de ser menores e, agora, tentam construir a sua vida. Muitos deles ficam extremamente vulneráveis e acabam por se tornar uma presa fácil para redes criminosas de tráfico de droga ou pornografia. Se nos sentimos abandonados? Claro que sim, porque não havia respostas. Ao mesmo tempo, continuavam a chegar aqui migrantes e a nossa posição sempre foi: vamos dar uma resposta, mas sentemo-nos todos à mesma mesa para procurar soluções.

E isso aconteceu?

Chama-me a atenção e já o denunciei inúmeras vezes: não é possível haver mesas de trabalho sobre migrações, onde participam o Governo, a Cruz Vermelha e outras instituições afins, onde a Cáritas não tenha nem voz, nem voto. Temos muito para dizer. Trabalhamos com as Cáritas dos países de origem dos migrantes.

Esta situação gera um sentimento de frustração: por que razão a Cáritas não está presente nessas mesas de decisão, se esta é uma questão que exige o contributo de todos? Também devo dizer que tanto o Governo das Canárias, como os Cabildos [órgãos administrativos do arquipélago] e representantes de diferentes partidos políticos tiveram uma atitude diferente. Nesse caso, tem havido mais colaboração e comunhão. Mas o Governo de Espanha olha muitas vezes para o lado, e muitas vezes, as Canárias foram abandonadas. Neste momento, os fluxos migratórios diminuíram. Não sabemos exatamente porquê, embora tenham sido realizadas diligências junto do Senegal e da Mauritânia, e isso parece ter contribuído para uma redução significativa das chegadas.
As pessoas não são uma mercadoria que se possa repartir.

Como está a situação neste momento com os menores que chegam às Canárias?

A questão continua a colocar-se: o que fazemos com eles? Não podemos resolver sozinhos um problema desta dimensão, mas podemos lançar luz sobre esta realidade. É por isso que estamos a trabalhar através dos Corredores de Hospitalidade. A nossa Cáritas, em colaboração com as Cáritas da Península [Ibérica], encaminha estes jovens quando atingem os 18 anos para diferentes dioceses e comunidades onde são acolhidos. Desta forma, quando saem daqui, sabem para onde vão, quem os vai receber, se terão oportunidade de trabalhar ou de continuar os estudos. Já temos mais de 60 jovens integrados neste programa e vamos continuar a encaminhar mais, porque todas as Cáritas de Espanha estão dispostas a acolhê-los, e isso é uma verdadeira bênção. Muitos deles viajam acompanhados por membros das nossas equipas até ao destino, onde são recebidos pelas Cáritas locais. São experiências únicas.

Recorda algum caso em particular?

Lembro-me de um relato de uma colaboradora da Cáritas. Quando chegou com três jovens do Mali, a uma casa de acolhimento da Cáritas de Madrid, estavam lá outros jovens do mesmo país, com quem iam viver e procurar trabalho. Ela contava como aqueles três jovens choraram de emoção ao encontrar pessoas da sua terra e um ambiente acolhedor. São experiências que realmente valem a pena. O objetivo é a integração. Não se trata de transferir jovens ou menores como se fossem mercadoria. São pessoas, como disse o Papa.

Aquela ideia defendida por alguns setores políticos de se fazer uma distribuição equitativa destes menores por todas as províncias de Espanha acabou por não se efetivar, correto?

Discordamos dessa abordagem. As pessoas não são uma mercadoria que se possa repartir. Foi por essa razão que criámos os Corredores de Hospitalidade. O objetivo não é distribuir menores, nem impor uma política de imposição. O que pretendemos é encontrar formas de ajudar cada um individualmente. É preciso perceber quem é a pessoa, quais são os seus interesses, se pretende estudar ou trabalhar, quais são as suas necessidades. É necessário regularizar a sua documentação e garantir que sabe para onde vai, quem o vai receber e que será acolhido com dignidade e afeto.

Por vezes aprovam-se leis para ficar bem na fotografia, mas depois não são disponibilizados os recursos necessários para que sejam aplicadas de forma eficaz

Neste momento, está em curso em Espanha um processo de regularização de 500 mil migrantes. Acredita que possa ter um impacto significativo na integração de milhares de pessoas que chegam a Espanha?

A Igreja tem vindo a defender essa regularização há dois anos. Porquê? Porque existem muitas pessoas — latino-americanas, por exemplo— que não conseguem aceder ao mercado de trabalho legal, apesar de estarem dispostas a desempenhar funções que muitas vezes ninguém quer fazer. Refiro-me a setores como a construção civil, a agricultura ou outros trabalhos essenciais. O que acontece atualmente é que muitos destes migrantes acabam por trabalhar na economia informal, sem proteção legal. Isso é um perigo para todos: para os trabalhadores e também para os empregadores. Há empresários, sobretudo pequenos empresários, que precisariam de mão de obra para as colheitas agrícolas ou para determinadas obras, mas não se atrevem a contratar porque a situação legal dos trabalhadores não está regularizada. Estamos a falar de pessoas que vivem connosco há anos, muitas delas com família constituída, perfeitamente integradas na sociedade. É necessário encontrar uma solução para estas pessoas. Outra questão é a forma como a regularização se faz.

Nessa matéria, qual é a sua opinião?

Se for utilizada como instrumento político e sem consenso, há problemas. Há dois anos existia um entendimento entre a Cáritas, o Partido Popular e o PSOE sobre esta matéria, e o PSOE disse que não. Na altura, a proposta não avançou. Agora, de repente, pretende-se fazê-lo de forma acelerada e sem diálogo suficiente, gerando desconfiança e arrastando também a extrema-direita. O que defendemos é que as coisas sejam feitas de forma séria e responsável. Estamos a falar de seres humanos e não podemos utilizá-los como instrumento de disputa eleitoral. É precisamente aí que manifestamos a nossa discordância: quando a imigração é utilizada para obter vantagens políticas.

Quanto à regularização, acreditamos que deve ser feita. Há muitas pessoas que já trabalham e que precisam de uma situação laboral clara e legal. Devemos facilitar a integração daqueles que já contribuem para a sociedade e ocupam postos de trabalho para os quais frequentemente não encontramos trabalhadores. Por isso, devemos sentar-nos à mesa e encontrar soluções. Se uma pessoa está há dois anos a trabalhar e o empregador pode comprovar essa relação laboral, devem existir mecanismos para regularizar a sua situação e garantir-lhe um trabalho digno. Acho graça, quando se aprovam leis que não se conseguem cumprir…

Falando da regularização massiva: há funcionários suficientes para tratar todos esses processos? Não. O que é aconteceu com a “lei dos avós” que permitiu a muitos descendentes de espanhóis em Cuba e na Venezuela solicitar a nacionalidade espanhola? Acabámos por ter de reforçar equipas para localizar documentos de batismo, certidões e registos históricos que comprovassem a origem espanhola das famílias. O governo não deu nada e o trabalho acabou por recair sobre a Igreja. E porquê? Por amor a essas pessoas, procurámos documentos, emitimos certidões e apoiámos milhares de processos. Ao mesmo tempo, surgiram também negócios paralelos de pessoas que cobravam quantias elevadas para tratar dessas burocracias. São situações que demonstram um problema recorrente: por vezes aprovam-se leis para ficar bem na fotografia, mas depois não são disponibilizados os recursos necessários para que sejam aplicadas de forma eficaz, justa e de acordo com os objetivos para que foram criadas.

O discurso político em torno das migrações continua a gerar posições cada vez mais polarizadas. Como é que analisa esta questão?

A realidade da migração tem muitas dimensões, muitos ângulos diferentes. Nesse sentido, é muito ambígua e, por isso, facilmente manipulável. Surgem discursos de todos os lados. Há quem diga que estamos a ser invadidos e que é preciso impedir uma invasão à nossa cultura por parte daqueles que vêm de fora. Mas, graças a Deus, há muito que não nos invadem. Tanto Portugal como Espanha têm a sorte de partilhar a língua com muitos povos e de possuir fortes laços históricos e culturais com diversas regiões do mundo. Por isso, muitas das pessoas que chegam aos nossos países acabam por se integrar plenamente na terceira geração. Por isso, não devemos falar simplesmente de “invasão”.

Outra coisa é quando se utiliza a chegada de migrantes de determinadas origens para alimentar esse discurso. Se a Europa não soube integrar certos grupos migrantes, então a questão que devemos colocar é: como podemos melhorar a integração? A solução não é falar de invasões, nem promover discursos de exclusão. A solução é procurar formas eficazes de integração. Temos de defender os nossos valores. Os valores democráticos devem ser protegidos. O respeito pelas mulheres deve ser protegido. A igualdade de todos os seres humanos deve ser protegida e é precisamente nesse quadro que procuramos a integração.

Mas também existe o outro extremo. Há quem diga: “Deixemos entrar toda a gente, porque assim somos mais progressistas.” Também não é assim.

Pode explicar?

A Igreja trabalha a partir de alguns princípios fundamentais. O primeiro é o bem comum.

Não pode entrar toda a gente sem qualquer critério. Os sistemas públicos têm limites. Os hospitais têm de continuar a funcionar, as infraestruturas têm de responder às necessidades da população, os serviços de segurança têm de continuar a cumprir a sua missão. As políticas migratórias não podem ignorar o bem comum. Como diz o Papa, não se pode abrir indiscriminadamente as portas a tudo e a todos.

Ao mesmo tempo, existe um segundo princípio fundamental: a dignidade da pessoa humana. Cada pessoa que chega deve ser vista como um ser humano com dignidade própria. Deve ser acolhida e a sua situação deve ser analisada. Se vem de uma guerra ou de uma situação de perseguição, temos o dever de avaliar o seu pedido de asilo e garantir proteção.

Existe ainda um terceiro elemento muito importante: promover o direito a não migrar, ou seja, um venezuelano que emigra muitas vezes fá-lo porque lhe foi retirado o direito de permanecer no seu próprio país. A maioria dessas pessoas preferiria continuar a viver na sua terra. Da mesma forma, quando pensamos em países da África Subsaariana, como o Mali, devemos refletir sobre as causas profundas da migração. Se esses países estão em guerra, se esgotamos os seus recursos naturais, estamos também a contribuir para que as pessoas percam o direito de permanecer nas suas comunidades. Depois, revoltamo-nos porque migram. Por isso, é necessário atuar também nos países de origem. É preciso enfrentar as causas da migração forçada, combater as redes criminosas, o tráfico de seres humanos e as máfias que lucram com o sofrimento das pessoas. Será possível combater essas máfias? Eu acredito que sim.

É preciso recuperar a autoestima europeia.

E a União Europeia? Faz a sua parte para enfrentar a questão?

Gostei muito de uma mensagem num dos discursos do Papa [desta visita a Espanha] em que ele diz aos espanhóis algo como: “Olhem para a vossa história. Foram uma luz e uma referência mundial em matéria de ética, de respeito e de valores humanos.” Essa mensagem serve também para os portugueses. Basta olhar para os países onde Portugal esteve presente ao longo da história e para a marca que deixou em muitos lugares através de uma cultura de respeito pelas pessoas. No fundo, tanto Portugal como Espanha transportam uma herança comum, ligada à tradição católica, ao humanismo cristão e à influência da Escola de Salamanca, que contribuiu para difundir essa visão humanista da pessoa. O Papa dizia: “Olhem para trás e vejam. Vocês foram uma luz.” E acrescentava, em síntese: “Despertem. Libertem-se dessa falta de autoestima. Têm muito valor.” Depois, acrescentou: “Europa, é o teu tempo.”

Eu acredito que a Europa precisa de tomar consciência disso. Porquê? Porque não podemos passar a vida a olhar apenas para a China ou para os Estados Unidos. A Europa tem a capacidade de oferecer valores ao mundo e contribuir para a paz, mas muitas vezes parece estar distraída, a olhar para o lado. É preciso recuperar a autoestima europeia. É preciso recordar o espírito dos fundadores da Comunidade Económica Europeia e recuperar os ideais que estiveram na origem do projeto europeu. Seria importante voltar a olhar para essas referências, para que a Europa possa voltar a ser uma luz num mundo que tanto precisa dela, sobretudo agora, numa época marcada pelos desafios da inteligência artificial.

Creio que essa é também uma das mensagens que o Papa nos deixou. É isso que penso. A Europa precisa de agir, de assumir as suas responsabilidades. Deixemo-nos de histórias e tragamos luz para os desafios do presente. Não podemos fechar-nos sobre nós próprios. Somos uma sociedade cada vez mais envelhecida e que necessita cada vez mais de pessoas. Por isso, pensar que a solução passa simplesmente por fechar as portas ao mundo é uma falsa solução.

Como é que analisa o discurso inédito do Papa no parlamento espanhol, um parlamento fragmentado politicamente, com setores hostis à Igreja?

Para mim foi impecável. O discurso do Papa foi magistral. De facto, quando o aplaudiram, não o aplaudiram durante 7 minutos, porque são todos cínicos — o que até poderia ser, mas não. Aquele aplauso aconteceu porque o Papa tocou precisamente naquilo de que estava a falar: devolveu a autoestima e, sobretudo, colocou uma questão que já tinha levantado antes. Que sociedade querem construir para os vossos filhos? Isso despertou a consciência de todos. Vivemos confortavelmente, com leis muito progressistas, mas isso leva-nos onde? O que vão deixar aos vossos filhos? Essa foi a primeira pergunta.

Em segundo lugar, o Papa disse no parlamento que o respeito pela pessoa humana é fundamental, mas em todos os campos; não apenas numa parte. Costumo dizer que a pílula do respeito pela vida tem de ser engolida inteira, e não apenas um pedaço. O Papa disse: “Ou engolimos a pílula completa do respeito pela vida, ou acabaremos por fracassar e não iremos a lado nenhum”.

Há quem defenda o respeito pela vida quando se trata do aborto, mas depois queira que se corte a cabeça aos imigrantes. Não. Outros são muito bons para defender os imigrantes, mas depois apoiam o aborto, a eutanásia e outras práticas semelhantes. O que o Papa defendeu que uma sociedade democrática que olha para o futuro e fala de humanidade tem de respeitar o direito à vida de todo o ser humano.

Mas fê-lo com uma enorme delicadeza, sem violentar ninguém, sem impor nada a ninguém, iluminando um tema em relação ao qual muitos podem concordar apenas parcialmente. Apresentou-o com tal elegância que o mundo inteiro pôde perceber que essa verdade e essa razão são precisamente aquilo que nos interpela e aquilo que desejamos: poder viver assentes numa verdade racional, deixando para trás as ideologias que anulam a realidade e manipulam a verdade.

Parece-lhe que a sociedade espanhola e os políticos em particular estão preparados para caminhar nessa direção?

Leão XIV devolveu a esperança ao povo espanhol. A quantidade de jovens, de famílias e de crianças que estiveram em Madrid: um milhão e duzentas mil pessoas ao sol, ao calor. Muitos mal conseguiram ver o Papa, mas estavam ali para celebrar, para estar com ele. Havia nas ruas uma alegria e um entusiasmo extraordinários. E eu digo: este Papa devolveu a esperança ao nosso povo. Por isso, retomando aqueles os dois pontos de que falava: que sociedade queremos deixar? Mas, acima de tudo, lembrem-se de que foram um grande povo na história da humanidade. Costumo dizer que Portugal e Espanha foram povos muito importantes na história da humanidade. E o que dizer de Itália? Onde está o mundo mediterrânico? Onde está? Temos de voltar a erguer-nos, porque temos os valores. Estudei bioética e havia muitos especialistas e académicos dos Estados Unidos: eles podem trazer-nos tecnologia, mas no mundo anglo-saxónico sabem pouco sobre ética. Portanto, não precisamos de importar isso. Temos uma herança greco-romana sobre dignidade humana e um humanismo cristão que não precisa de lições de ninguém. Mas ganhámos complexos de inferioridade e acabámos por adotar as suas ideologias.

Recentemente, a Cáritas Diocesana das Canárias apresentou um relatório em que dá conta de um aumento de 2% das pessoas que assiste só na província de Las Palmas. D. José, na altura alertou para a situação das famílias no arquipélago e para a pobreza entre as pessoas migrantes que representam 54% das pessoas apoiadas. Como é que lhe parece que se pode contribuir para tirar estas pessoas desta situação de vulnerabilidade?

Há duas realidades que os políticos terão de enfrentar. Uma delas é a da habitação que está extremamente cara. É preciso liberalizar um pouco o mercado e facilitar a colocação de mais casas para arrendamento, mas muitas pessoas têm receio de arrendar os seus imóveis devido à legislação existente que consideram proteger mais os inquilinos do que os proprietários. Isso faz com que muitas habitações não sejam colocadas no mercado. Ao mesmo tempo, não se constroem novas casas. Todos prometem, mas ninguém as constrói. Antes das eleições, anunciam-se milhares e milhares de habitações; depois das eleições, as obras ficam paradas. Infelizmente, os preços continuam muito elevados.

A outra questão é a inflação. Dizia há dias que quem vai às compras vê que, com 50 euros, já não consegue comprar quase nada. Os preços dispararam. E porquê? Porque tudo aumenta (a eletricidade, os combustíveis, os transportes), mas os salários não acompanham essas subidas. Como consequência, temos muitas pessoas que trabalham e que, ainda assim, continuam a ser pobres. Pergunto: porque não atribuir apoios de outra forma? Em vez de subsidiar apenas quem está sem trabalhar, poderíamos, por exemplo, apoiar as pessoas no pagamento da renda de casa. Acredito que isso ajudaria a resolver parte do problema da habitação. Além disso, será também necessário encontrar soluções para a inflação dos bens essenciais e dos produtos alimentares, cujos preços atingiram níveis tão elevados que muitas famílias já não conseguem suportá-los.

O que espera da viagem do Papa Canárias? Que impacto pode ter na Igreja local e nos problemas sociais que afetam o arquipélago?

Espero duas coisas. Em primeiro lugar, espero que consigamos pôr fim à rota atlântica, onde morrem mais de 10 mil pessoas por ano. Se conseguirmos despertar a consciência da Europa e pomos fim a isso, bendita seja a vinda de Leão XIV. Ao mesmo tempo, penso que dará um impulso à nossa Igreja. Estamos a começar a ter aquela força que o Papa Francisco trouxe de uma Igreja em saída, voltada para as periferias, de portas abertas, marcada pela misericórdia e pela procura da ovelha perdida. Estamos nesse caminho porque as Canárias são uma sociedade muito secularizada. Com todo o boom turístico vindo da Europa, a secularização é muito forte. Imagino que os Açores sejam mais ou menos parecidos. Ao mesmo tempo, há uma Igreja que quer despertar e que percebe que existe uma procura crescente, uma grande sede de eternidade, também entre os jovens, à qual temos de responder. Não podemos continuar presos aos esquemas antigos. É preciso evangelizar, sair ao encontro das pessoas, seguindo um pouco as linhas traçadas pelo Papa Francisco. Penso que Leão XIV nos dará força para esta Igreja que começámos a construir e virá fortalecer-nos para que possamos ser verdadeiramente uma Igreja em saída.

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  • Thomas More
    11 jun, 2026 Ponta Delgada 14:02
    Sou da ilha de São Miguel, nos Açores, e posso comprovar que os Açores e a Madeira não são nada como as Canárias. São regiões muito conservadoras e aqui a influência da Igreja ainda é muito grande.

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