Papa em Espanha

Papa aos migrantes: "Não podemos habituar-nos a contar mortos. A dignidade humana não tem passaporte"

11 jun, 2026 - 13:31 • Ana Kotowicz , Aura Miguel, enviada especial a Espanha

Nas Canárias, o Papa falou com migrantes e com as organizações que os recebem. "Aqui, junto ao mar, cada vida que chega nos pergunta o que resta da nossa humanidade", disse Leão XIV no porto de Arguineguín.

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Papa aos migrantes: "Não podemos habituar-nos a contar mortos. A dignidade humana não tem passaporte"
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"Queridos migrantes: antes de vos dizer qualquer outra palavra, quero inclinar-me perante a vossa dignidade." Foi no porto de Arguineguín, na Gran Canaria, que Leão XIV — a quem o rei, a rainha e a rainha mãe de Espanha beijaram a mão nos últimos dias, em sinal de respeito — falou com migrantes e com as associações que os acolhem. As palavras do Papa foram proferidas no penúltimo dos setes dias de visita a Espanha. O local não podia ser mais simbólico para a frase final do discurso: "Não podemos habituar-nos a contar mortos."

Durante a crise migratória de 2020, aquele porto ficou conhecido como o Cais da Vergonha devido às condições precárias em que mais de 3 mil migrantes viveram em plena pandemia de Covid-19. "Não sois números nem processos. Sois pessoas com uma família e uma casa deixadas para trás; com sonhos que ninguém tem o direito de desprezar."

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Leão XVI começou por falar do mar, de como Jesus caminhou sobre as águas e de como disse a Pedro, seu discípulo, que passaria a ser pescador de homens. "Como podem ver, trago na minha mão o Anel do Pescador", disse Leão XIV. "Aqui há pessoas recuperadas do mar e corpos sem vida resgatados das águas. Por isso, o Sucessor de Pedro não pode desinteressar-se deste cais. A Igreja não pode desinteressar-se destas águas nem de nenhum lugar onde a fome, a sede, a violência, o medo ou o exílio continuem a ferir a dignidade humana. Os discípulos de Jesus não podem considerar alheio o clamor daqueles que gritam na noite."

"Onde Cristo manda calar o mar, a Igreja não pode permanecer muda"

O Papa lembrou a seguir que, na Bíblia, o mar pode ser sinal de ameaça, recordando os monstros marinhos Leviatã e Raabe — este último, visto como uma metáfora do Egito e da sua postura perante o êxodo dos milhares de israelitas que seguiram Moisés em busca da Terra Prometida. "Também hoje existem monstros que espreitam estes mares: máfias que traficam com o desespero, traficantes que escravizam mulheres e crianças e a indiferença de muitos que permitem que os pobres sejam engolidos pela exploração ou pelo esquecimento."

E concluiu: "Onde Cristo manda calar o mar, a Igreja não pode permanecer muda perante aqueles que são abandonados às suas águas."

Grato pelos testemunhos que ouviu, Leão XIV defende que o trabalho de quem recebe os migrantes é um ponto de viragem: o momento em que o migrante deixa de ser “mais um”, "deixa de ser uma categoria e um número".

"A misericórdia começa com pequenos gestos: às vezes com algumas bolachas e um pouco de leite; outras vezes, com cinco pães e dois peixes", disse o Papa, recordando o milagre da multiplicação de pães.

Mediterrâneo e Atlântico, cemitérios sem lápides: mensagem para a Europa e para os governos

Falando diretamente para os migrantes, Leão XIV disse que a vida de quem abandona o seu pais deve ser protegida. "Não entregueis a vossa existência àqueles que fazem dela um negócio. Não acrediteis naqueles que prometem paraísos fáceis em troca do vosso corpo, do vosso dinheiro, do vosso silêncio ou da vossa liberdade. Essas falsas promessas são 'cantos de sereia', são indústrias de morte."

Em seguida, a mensagem do Papa passa a ser para os governos, tanto dos países de onde saem migrantes, como para os Estados que os recebem. "Este drama deve transformar-se num exame de consciência: para as nações de origem, que devem criar condições de paz, justiça e desenvolvimento; para as nações de trânsito, chamadas a proteger e não a deixar os mais frágeis nas mãos de redes criminosas."

E fala diretamente para os governos europeus e para a demais comunidade internacional, num momento em crescem as políticas anti-imigração: "Para a Europa, que não pode proclamar a dignidade humana e habituar-se a que o Mediterrâneo e o Atlântico sejam cemitérios sem lápides; para a comunidade internacional, chamada a uma cooperação eficaz e perseverante."

"Que mundo construímos, se tantos irmãos têm de arriscar a morte para procurar vida?"

Leão XIV — depois de falar para dentro da própria Igreja, dizendo que o acolhimento do migrante "não pode ser algo secundário nem delegado apenas a alguns voluntários" — volta a deixar uma mensagem para quem cria políticas de acolhimento,

"Não basta gerir chegadas, distribuir números, reforçar fronteiras ou lamentar as mortes quando elas já aconteceram. Cada embarcação que chega não traz apenas migrantes; traz consigo uma pergunta: que mundo construímos, se tantos irmãos têm de arriscar a morte para procurar vida?"

O Papa defende ainda que "a dignidade humana exige vias legais e seguras, salvamento e assistência, cooperação real contra os traficantes, proteção efetiva das vítimas, processos sérios de acolhimento e integração".

Mas Leão XIV vai ainda mais longe, deixando, de novo, uma mensagem aos países de onde saem migrantes: "Políticas que permitam a cada pessoa viver com dignidade na sua própria terra. Embora exista o direito de procurar refúgio quando a vida está ameaçada, existe também o direito de não ter de migrar: o direito de permanecer na própria casa sem fome, sem guerra, sem perseguição, sem violência, sem que a terra se torne inabitável, sem que a corrupção roube o pão dos pobres, sem que as armas destruam o futuro das crianças."

Já no final do discurso, Leão XIV fala da indiferença: "Não podemos habituar-nos a contar mortos. A dignidade humana não tem passaporte nem perde valor ao atravessar uma fronteira."

E conclui: "E que a história não tenha de nos acusar de termos transformado a dor dos que sofrem numa paisagem habitual das nossas costas. Porque hoje, aqui, junto ao mar, cada vida que chega nos pergunta o que resta da nossa humanidade. Mais cedo ou mais tarde, saber-se-á se soubemos protegê-la ou se deixámos que a indiferença falasse por nós."

A dor de tantos naufrágios contada na primeira pessoa

Antes do seu discurso, Leão XIV ouviu vários testemunhos de migrantes, voluntários e equipas de salvamento. O comandante Tito Villarmea, que chefia uma dessas equipas marítimas relatou a dor perante tantos naufrágios e noites escuras, marcada por vozes que gritam à espera da chegada dos barcos de salvamento.

Nos últimos anos, a sua equipa resgatou mais de 20.000 pessoas. “É um número doloroso, que nunca será esquecido”, disse o comandante. Todos conhecemos a imagem das Canárias turísticas durante o dia, mas à noite a realidade é outra, com mares revoltos, escuridão absoluta e barcos frágeis carregados de vidas e tantas mortes.

“Nunca me esquecerei de uma mãe que viajava num pequeno barco com o seu filho, no meio de corpos feridos e sem vida. Assim que chegaram em segurança a bordo, a mulher aproximou-se do rapaz, de cerca de 14 anos, tirou-lhe o gorro e o blusão e colocou-lhe uns brincos de ouro. Era uma menina. Ela chorou e eu também, porque sou pai de duas adolescentes. Podiam ser minhas filhas. Em cada resgate, vemos uma pessoa cuja vida depende diretamente de nós”, testemunhou Villarmea.

Impressionante foi também o doloroso percurso de Blessing, uma mulher nigeriana vítima de tráfico humano que, por motivos de segurança, não leu pessoalmente seu testemunho. Aos 22 anos, procurou um futuro melhor para as duas filhas que deixou na Nigéria. Acabou vítima da máfia que a levou para a Europa e a obrigou a prostituir-se. Foi resgatada por uma equipa da Igreja que apoia vítimas de tráfico humano.

Um elemento da Cáritas também testemunhou ter aprendido “a olhar além do medo e dos discursos de desumanização: compreendemos que cada pessoa que chega tem um valor e não é um problema a resolver, mas uma história a abraçar e acompanhar”.

No final, da sessão, Leão XIV aproximou-se do cais e lançou uma coroa de flores ao mar, em memória das vítimas migrantes que naufragaram nestas águas. Depois, houve um minuto de silêncio e abençoou uma cruz feita com tábuas de uma rudimentar barcaça utilizada pelos africanos para atravessar os mares do atlântico.

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