Crónica de Aura Miguel
Visita do Papa a Espanha: Madrid marcou um golaço, mas Barcelona e as Canárias também
12 jun, 2026 - 20:56 • Aura Miguel, enviada da Renascença a Espanha
Leão XIV arrastou multidões durante a visita de seis dias a Espanha. Das migrações, aos problemas de saúde mental e violência doméstica, abordou temas difíceis e de grande atualidade, respondeu a questões sensíveis e mostrou-se sempre sereno, atento e disponível. O Papa não só foi a Espanha confirmar na fé os batizados, como apontou caminhos de conversão e unidade para toda a sociedade.
O que se passou em Espanha nestes dias? Que fenómeno foi este, que deixou tanta gente estupefacta? Começou logo o primeiro dia em Madrid quando, sábado à noite, à mesma hora do concerto de Bad Bunny, Leão XIV juntou 600 mil jovens na Plaza Lima para um encontro com momentos de diálogo e oração. No final, rezaram todos de joelhos e em silêncio diante do Santíssimo e receberem a bênção papal.
No dia seguinte, uma multidão com mais de um milhão e 300 mil pessoas, invadiu a Plaza Cibeles e as grandes avenidas centrais, para participarem na missa do Corpo de Deus celebrada por Leão XIV, seguida de procissão com o Papa a levar a custódia do Santíssimo Sacramento, com toda aquela gente, novos e velhos, em silêncio e oração. No final da missa, alguém comentou: “Se eu não tivesse visto, não acreditava ser possível” e outro madrileno acrescentou: “Afinal somos muitos! De onde saiu toda esta gente?”.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Ao princípio, ainda se pensou que o entusiasmo era devido à prolongada ausência de um Papa em terras de Espanha. Talvez fosse, mas as multidões continuaram a aderir, ininterruptamente, até ao fim da visita.
Momentos inesquecíveis não faltaram com a festa no Estádio Santiago Bernabéu, os testemunhos e música na Arena “Movistar” e também no Estádio Olímpico de Barcelona. Outro ponto alto de grande interesse e vanguarda, foi também o que se passou na Basílica da Sagrada FamíliaBasílica da Sagrada Família, com a missa solene e a inauguração da Torre de Jesus Cristo, a última que faltava completar e a mais alta de todas. Dentro e fora da basílica, as autoridades contaram 130 mil pessoas.
E o Papa? Sempre sereno, atento e disponível. No final da homilia, dentro da basílica de Gaudí, antes do grandioso espetáculo de luz e som a que também assistiu, deixou uma indicação de caminho: “Ao elevarmos o olhar para Ele, o Crucificado e Ressuscitado, comprometamo-nos a levantar os rostos dos que jazem no pó. E demonstramos, assim, que a Sagrada Família é a Igreja mais alta do mundo, não para se destacar nos rankings mundanos, mas para guiar os passos do povo de Deus que caminha em Espanha, com a cruz que ilumina o caminho”. Ou seja, em Barcelona, como nos outros lugares por onde passou, incluindo o Palácio Real as Cortes espanholas, ou no campo de refugiados e migrantes na Canárias, Leão XIV falou de Cristo de uma forma atrativa e realista.
Com uma linguagem moderna e acessível, usou palavras certeiras e muita serenidade, quer perante as autoridades e poderosos, quer nas homilias e encontros. Sorridente e discreto, aproximou-se das pessoas que esperaram horas ao sol para o saudar, estendeu a mão a todos, incluindo bebés que carinhosamente sempre abençoa e pega ao colo.
Vale a pena vê-lo em ação: a sua simplicidade, ao mesmo tempo descontraída e carregada de certeza, não tem sombra de vaidade. A sua postura quando o aplaudem, é um belo exemplo disto. Basta observá-lo como aguentou, “manso e humilde de coração”, a ovação de oito minutos, no parlamento espanhol, com todos os deputados de pé, após um histórico discurso sobre a dignidade humana, o fenómeno religioso e a boa política.
Papa em Espanha
Papa aos migrantes: "Não podemos habituar-nos a contar mortos. A dignidade humana não tem passaporte"
Nas Canárias, o Papa falou com migrantes e com as (...)
Leão XIV também incluiu na sua agenda visitas aos que sofrem. Foi uma prisão, ouviu testemunhos de sofrimento e, nas Canárias, em frente ao mar, rezou, abraçou migrantes e refugiados, declarando que “não podemos habituar-nos a contar mortos e que a dignidade humana não perde valor ao atravessar uma fronteira”.
Ao longo destes dias, Leão XIV também revelou o seu lado mais descontraído. Falou de futebol para explicar que, em Espanha, o Papa é por todas as equipas, mas não escondeu que Robert Prevost torce pelo Real Madrid. E ficou famosa a sua reação quando, em clima de festa no Estádio Bernabéu, após uma divertida caricatura de um jogo com pénaltis, Leão XIV comentou: “O sonho de qualquer jogador é meter um golo neste estádio, mas Madrid hoje fez um golaço!”.
Prevost também mostrou o seu lado tecnológico ao sentar-se duas vezes no cockpit do Airbus da Ibéria, para apreciar as manobras de descolagem e aterragem do avião. Entre vários episódios descontraídos destes dias, fica na memória a resposta que deu a Renzo, uma criança de 7 anos, dizendo que agora jogava ténis mas quando era novo preferia o futebol americano. Renzo também lhe perguntou se quando era pequeno queria ser Papa. “Não queria ser Papa, nem como jovem, nem como velho (risos); mas quando o Senhor chama, devemos dizer sim”, respondeu-lhe Leão XIV.
Leão XIV em Barcelona
Papa ouve jovens e alerta para crise de saúde mental e feminicídio
Em Barcelona, um rapaz e duas raparigas abriram o (...)
Enfim, o “sim” de Pedro faz milagres e o que aconteceu nesta viagem é a prova disso. No contexto secularizado da Europa “cansada da fé”, como alertou Bento XIV, onde a Espanha se inclui, as anunciadas manifestações contra a presença do Papa esmoreceram, enquanto o entusiasmo de milhões se reforçou continuamente, em todas as etapas da visita.
De olhar fixo em Cristo, o Sucessor de Pedro, não só foi a Espanha confirmar na fé os batizados, como apontou caminhos de conversão e unidade para toda a sociedade, sem cancelar os desafios que a modernidade coloca hoje Igreja, na Europa e no mundo.
Em Espanha foi um sucesso. Daqui a três meses, o Papa visita a França, cuja secularização é conhecida. Será que Leão vai conseguir, também ali, despertar a fé adormecida e, assim, rejuvenescer a "velha" Europa?










