Reportagem
Clericus Cup: "Fui ordenado sacerdote ontem e hoje já entrei em campo"
08 jul, 2026 - 22:51 • Liliana Carona
Quase uma centena de padres estiveram esta semana, na Guarda, para a XIX edição da Clericus Cup, o Torneio Nacional de Futsal de Padres Católicos. Algumas equipas são formadas por padres que nunca treinaram juntos nem se conhecem. Assistimos ao jogo que lançou para a ribalta o recém ordenado sacerdote da diocese de Lamego, o padre Tiago Fonseca.
O som chega antes dos prognósticos: a bola a bater no piso do pavilhão, as sapatilhas a chiar na madeira, o apito a cortar o ar, vozes que se atropelam no banco e uma ordem repetida com a urgência de quem acredita pouco em milagres sem remates: “Chutem, chutem”. Rola a bola na XIX Clericus Cup, na Guarda.
A exigência vem de Paulo Figueiró, 48 anos, padre da Diocese da Guarda, colocado naquele lugar ambíguo onde ninguém sabe muito bem se está a jogar, a orientar, a incentivar ou a improvisar uma tática possível para uma equipa que mal se conhece.
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Chamam-lhe treinador, mas ele recusa o cargo com insistência quase teológica. “Não sou treinador nenhum”, protesta, como se a palavra lhe pesasse mais do que uma derrota. Quando muito, aceita ser “treinador-jogador”. E mesmo isso parece demasiado formal para uma formação nascida da soma improvável de padres da Guarda, Lamego, Portalegre e Lisboa.
A equipa chama-se GLPL, sigla prática para juntar dioceses, sotaques, idades, paróquias, agendas pastorais e pernas com diferentes graus de resistência. Do outro lado está a Augusta de Braga, uma das equipas bracarenses em competição, com mais fama a decidir resultados. Braga começa melhor, marca primeiro e obriga os adversários a descobrir, em tempo real, quem corre para onde, quem fecha atrás, quem remata, quem aguenta e quem precisa de se sentar.
O recém ordenado é a estrela do torneio
No banco, Tiago Fonseca parece ainda a ajustar-se a duas realidades muito distintas: a ordenação sacerdotal do dia anterior e a pressão de entrar em campo. Tem 26 anos, é da Diocese de Lamego, nasceu em Santiago de Piães, no concelho de Cinfães, e foi ordenado sacerdote no domingo à tarde. Na segunda-feira, já está de camisola vestida, convocado para dar “o contributo à equipa”.
A brincadeira nasce logo à volta dele. Alguém nota que está cansado. Paulo Figueiró não concede piedade a quem tem juventude no bilhete de identidade. “É impossível que um padre tão novo, de 26 anos, se canse”, provoca. Os de 50, esses, “têm razões”. “Tiago volta a entrar, vai lá para dentro”, orienta o "mister" que não quer ser treinador, argumentando que “ele estava apenas a fingir-se cansado, estratégia, claro”.
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Tiago sorri, respira e aceita o paradoxo com serenidade. “Fui ordenado sacerdote ontem e hoje já entrei em campo”. Ser ordenado e, horas depois, disputar uma Clericus Cup não lhe parece um desvio à missão. Pelo contrário, explica que a vocação nasceu de uma “entrega total a Jesus Cristo e às pessoas”, sobretudo “aos jovens, aos idosos e a quem mais precisa”. Entrar naquele torneio, logo no primeiro dia de vida sacerdotal, é para ele “uma alegria”. Não apenas pelo jogo, mas por essa palavra que atravessa toda a reportagem: fraternidade.
No seminário já jogava. Nunca deixou esse gosto para trás. Agora, no pavilhão São Miguel da Guarda, percebe que a primeira parte serviu também para outra aprendizagem: antes de ganhar, era preciso conhecer os colegas. “Ainda nos estamos a conhecer uns aos outros”, reconhece. Quanto à vitória, deixa-a em suspenso: “A ganhar, lá se verá”.
Basílio Firmino, 52 anos, padre da paróquia de Mêda, olha para Tiago Fonseca e diz-lhe: “ainda trazes o Espírito Santo contigo” e “fazes bem em aproveitá-lo também para jogar à bola”.
Basílio é sacerdote há 28 anos, sempre na mesma paróquia. Sabe que a vocação não permanece igual todos os dias. “Cada dia é um chamamento”, afirma. Em alguns, responde-se com fulgor. Noutros, com cansaço, stress e menos brilho. Ainda assim, insiste, continua a ser “um sim”. A conversa sai do campo e entra na região, “onde os jovens partem depois do 12.º ano para estudar, trabalhar, namorar, fixar vida junto do litoral. Regressam de longe a longe. Ficam muitas pessoas idosas, comunidades rarefeitas, paróquias onde a presença do padre é, tantas vezes, companhia, escuta e último fio de pertença. A pandemia agravou medos, perturbou rotinas, afastou pessoas da prática religiosa e deixou marcas na missão”, conta o padre Basílio.
Por isso, quando pensa no conselho que deixaria ao padre recém ordenado, Basílio não fala de prudência excessiva nem de autoridade distante. Fala de abertura. O sacerdote não pode fechar-se “numa redoma”, porque é uma pessoa como as outras, com virtudes, defeitos, qualidades, erros e falhas. O pastor tem de andar “no meio do povo”, mas, “também precisa dos colegas, porque há dores que só se compreendem entre quem vive o mesmo ofício, a tal fraternidade sacerdotal”.
Uma equipa que conhece os jogadores no dia do jogo
Rafael Neves, 41 anos, é daqueles padres que parecem acumular funções como quem acrescenta peças a uma liturgia prática: organiza, joga, ajuda, explica, hidrata, regressa ao campo. Tem 18 comunidades e 13 paróquias no arciprestado de Seia e Gouveia. Mesmo assim, quase todas as segundas-feiras, ao fim do dia, consegue arranjar uma hora para o futsal. Depois, repõe forças ao jantar.
A fórmula é simples, mas revela uma disciplina de bastidores: entre missas, funerais, catequeses, visitas, reuniões e urgências de aldeia, há uma bola que continua a pedir espaço. Na pausa para hidratação, Rafael descreve uma equipa feita de várias geografias e pouca rotina comum. O resultado ainda era desfavorável, Braga vencia por 1-0, mas ele não dramatiza. O jogo está “bastante equilibrado”, diz, e no fim se verá (a frase é repetida por todos).
O padre Paulo Figueiró, porém, olha para o mesmo jogo com outra preocupação. Garante que “não há tática especial, apenas incentivo”. Mas, logo a seguir identifica o problema com a precisão de quem, não sendo treinador, parece demasiado atento para escapar ao título: “a equipa troca bem a bola, mas falta rematar, senão não há golos”. Também admite a dificuldade maior: “há jogadores que nunca tinham jogado juntos”. Alguns, confessa, nem sequer sabe como se chamam. “Somos uma equipa original”, resume, “nem treinador temos”.
Quanto mais nega a função de treinador, mais se comporta como quem a exerce. Dá ordens, chama jogadores, comenta substituições, pede remates, lê o cansaço adversário e, no fim, analisa o jogo com vocabulário de banco. “Pouco a pouco vai havendo entrosamento”, observa, já depois da reviravolta. A equipa da Guarda, Lamego, Portalegre e Lisboa venceu por 2-1. Paulo fala em “vitória merecida” e reconhece que "vibra com estas coisas" e, ainda assim, volta ao refrão: “Nem treinador sou”. Mas alguém lhe atira a evidência. “Pareces mesmo um treinador a falar. Ele assume apenas que “no futebol, transforma-se”.
A tática antiga de começar o jogo a perder
Diamantino Duarte, 47 anos, padre de Moimenta da Beira e Cabaços, na Diocese de Lamego, não falha o Clericus Cup. Tem quatro paróquias sob a sua responsabilidade e ainda encontra tempo para “trabalhar, jogar e conviver” com os colegas. Para ele, o torneio faz sentido dentro e fora do campo, porque também ali passa “um bocadinho da evangelização”.
Quando a equipa ainda está em desvantagem, Diamantino não se aflige. Esclarece que costumam dar vantagem ao adversário para oferecer “mais intensidade ao jogo”. É uma tática antiga, diz, e continua “a dominar”. A piada funciona porque ninguém no pavilhão parece verdadeiramente disposto a abdicar da vitória, mesmo quando todos repetem que o convívio é o essencial. E insiste que “mesmo entre padres, ninguém gosta de perder”.
Do lado da Augusta de Braga, o padre Miguel Quissola, 41 anos, não entrou para brincar. Vem cansado, quase sem ar, mas com clareza competitiva: “Tenho de correr, quero ganhar”. Tem cinco paróquias no concelho de Barcelos e é sacerdote há 11 anos. Na Clericus Cup encontra uma experiência “muito boa” e “enriquecedora”, sobretudo porque permite confraternizar com colegas que habitualmente não estão juntos.
À volta dele, os companheiros não disfarçam a expectativa. Querem que regresse depressa ao campo. Chamam-lhe “arma secreta”. Ricardo Costa, treinador ligado à equipa de Braga, recusa a ideia de maus jogadores, mas concede ao número 33 um lugar especial: é o “criativo” da equipa.
A assistir aos jogos e a fotografar tudo para as redes sociais do torneio, está Rodrigo Loureiro, 18 anos. Veio ajudar “porque é ativo na Igreja, amigo de alguns padres e jogador de futebol”. Admitiu que subestimou o torneio “pela idade” e por outros fatores. Depois viu os padres correrem, disputarem lances, aproximarem-se do golo, sofrerem com o resultado e viverem o jogo como qualquer equipa que entra para ganhar.
A surpresa de Rodrigo é talvez a surpresa de muita gente: a ideia de que os padres fariam tudo “na tranquilidade” cai ao fim de poucos minutos. "Eles protestam, incentivam, cansam-se, pedem água, querem entrar, querem marcar, querem virar o resultado", conclui.
Uma camisola da Roménia e uma paixão portuguesa
Num corredor do pavilhão, já longe do centro do jogo, Cristiano Pedro segura uma maçã e sorri com a camisola da Roménia. Vai fazer 46 anos, “se Deus quiser”, e é sacerdote há 17. Nunca tinha participado num torneio destes, embora jogue futsal nas paróquias onde serve, com leigos e paroquianos, uma vez por mês. Tem cinco paróquias na diocese de Portalegre e Castelo Branco.
Veio para Portugal depois da ordenação, em 2009, a pedido do reitor. Aceitou. O país tornou-se uma paixão, embora o início tenha sido duro. A língua, recorda, “parecia chinês”. A frase tem humor, mas abre outra realidade: a falta de clero, as dioceses que se apoiam em padres vindos de outros países, a adaptação silenciosa de quem aprende uma nova língua para poder celebrar, acompanhar, confessar, consolar e pertencer.
No fim, Cristiano arrisca uma frase em romeno para resumir o jogo. Não é preciso tradução perfeita para se perceber o essencial. “Foi bom. Houve bola, esforço, encontro, alegria, foi um bom jogo".
Na primeira partida ganhou a equipa que não se conhecia. GLPL começou a perder, sobreviveu à falta de entrosamento, descobriu nomes pelo caminho e virou o marcador. Venceu, neste jogo, a Augusta de Braga por 2-1 e tal como na vida sacerdotal com poucos intervalos para refrescar.
Na terça-feira, dia 7 de julho, a equipa de Braga conquistou a 19ª edição do campeonato de futsal para padres portugueses, depois de vencer a Diocese de Vila Real, anterior campeã da competição, por 3-2.
O torneio reuniu um total de 80 sacerdotes, divididos por seis equipas representativas de 11 dioceses e da Congregação da Missão (Vicentinos).













