25 nov, 2025 - 09:00 • Teresa Almeida
A porta abre-se para mais um dia de cuidados na casa de D. Esperança, 88 anos, acamada e dependente.
A enfermeira Filomena Sousa trata uma úlcera de pressão grave, “formada em apenas dez minutos”. Este é um tipo de escara - também conhecida assim - que pode surgir em idosos, pessoas com mobilidade reduzida, doentes acamados ou mesmo após uma cirurgia. Para Filomena Sousa, enfermeira no Hospital da Prelada e da Associação Portuguesa de Tratamento de Feridas, “qualquer um pode ser afetado por estas feridas, basta termos de estar sem mobilidade”.
A filha de D. Esperança, Maria Jacó, divide o tempo entre a profissão de professora e o cuidado dos pais e dos dois irmãos com deficiência. A maior dificuldade é tratar da mãe acamada. O desgaste é visível: “É sobretudo cansaço físico e perceber que há coisas que eu não consigo fazer”, admite.
Os custos destes cuidados são avultados. Entre profissionais, pensos, material esterilizado e equipamentos essenciais, como colchões ou máquinas de pressão alternada, as despesas podem atingir “centenas ou milhares de euros”, diz Maria Jacó. Só a máquina que está a ser usada pela mãe para tratar a úlcera de pressão custa, por mês, cerca de 500 euros e "a isto tem de se acrescentar todos os outros materiais e o pagamento à enfermeira, sem qualquer ajuda por parte do estado”. Tal como a sua, muitas famílias têm de suportar sozinhas o tratamento porque o apoio do Estado “chega tarde ou não chega”.
De acordo com Filomena Sousa, esta realidade está longe de ser excepcional: cerca de 7% dos doentes hospitalizados têm úlceras de pressão, mas o número real é muito maior, sobretudo em contexto domiciliário, onde não existem dados oficiais fiáveis. A falta de uma plataforma nacional impede o conhecimento exato da dimensão do problema e, por isso, também não se sabe quanto se gasta em Portugal no tratamento desta condição.
Nos hospitais, estas feridas prolongam internamentos, consomem recursos e impedem a rotação de camas. A enfermeira-chefe Ester Malcato, do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, lembra que o doente permanece internado mais tempo “porque não há resposta na comunidade”, bloqueando vagas para outros utentes.
No domicílio, são os enfermeiros que tentam dar resposta a situações complexas e dolorosas. Paulo Ramos, da ULS de Póvoa de Varzim/Vila do Conde, alerta para o impacto físico e emocional: “Há dor, há infeção, há cheiro, há perda total de qualidade de vida.” E os cuidadores, quase sempre familiares, recebem em 30 minutos informação e conhecimento que um enfermeiro aprende “em quatro anos de curso”.
Os especialistas são unânimes: a prevenção custa dez a vinte vezes menos do que o tratamento. Filomena Sousa explica que prevenir uma úlcera é bem mais barato: “Pode custar até 500 euros por doente, mas se formos tratar dessa úlcera, dependendo da sua gravidade, pode custar até 10 mil euros por doente. E se a isso acrescentarmos outros recursos, o valor aumenta significativamente.”
A mesma opinião tem o enfermeiro Paulo Ramos. “Um colchão de apoio, ainda que dispendioso, evita dezenas de tratamentos e é um investimento - não um gasto”, adianta.
Já Pedro Sardo, professor da Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro, defende que Portugal tem de abandonar a “visão excessivamente hospitalar e compete às universidades ajudar a desmistificar este conceito, porque na realidade nós precisamos de desfocar da visão de que o tratamento é prioritário e apostar cada vez mais na prevenção”. Para este professor universitário, a prevenção deveria começar cedo, até nas escolas, desde os primeiros anos do percruso, ensinando cuidados básicos e hábitos de saúde.
Presidente da Associação Nacional de Cuidados Cont(...)
Sem dados completos, sem respostas suficientes e com uma população cada vez mais envelhecida, as úlceras de pressão tornam-se, como descrevem os profissionais, numa “epidemia escondida” que continua a crescer longe dos olhares dos serviços públicos - mas bem real para famílias como a de D. Esperança.
A batalha dos poucos profissionais que existem nesta área está focada na prevenção e é por isso que todos os anos a Associação Portuguesa de Tratamento de Feridas participa na campanha internacional STOP UP, no âmbito do dia internacional contra as úlceras de pressão. Durante o mês de novembro, o objetivo da iniciativa é lembrar que este é um problema de saúde que, além do sofrimento e do risco de morte, aumenta os custos para o erário público.