Romper o Silêncio
Cortisol, dopamina e ocitocina. Estão lá todos na relação agressiva
06 abr, 2026 - 07:00 • Liliana Monteiro
No podcast Romper o Silêncio, a psicóloga Ana Conduto considera que falta ouvir mais a psicologia e as neurociências quando toca à violência doméstica, que não se pode tentar encaixar a vítima num modelo processual de violência, mas vice-versa, e não se consegue combater o fenómeno se não olharmos atentamente para os agressores.
Compreender as consequências e razões da violência doméstica “é ter em conta a psicologia e as neurociências, ter em conta o cérebro e perceber o que vai na cabeça de alguém sujeito a um processo de agressão”, explica Ana Conduto, psicóloga clínica e especialista em psicologia da justiça, no podcast Romper o Silêncio.
Quando se fala em violência doméstica, a especialista não tem dúvidas de que “não se pode tentar encaixar a pessoa [vítima] no modelo do processo judicial de violência doméstica, mas vice-versa”.
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Convidada desta semana do podcast Romper o Silêncio, onde se fala sobre porque é que a vítima não sai logo da relação abusiva, a psicóloga Ana Conduto revela que a resposta está na vida hormonal que uma relação de violência doméstica cria.
“Com o abuso temos o aumento do cortisol e o medo. A reconciliação cria picos de dopamina que gera dependência e vicia, reforçando o vínculo com o agressor. Aquele que agride é também quem salva. É assim este vínculo tóxico. Este ciclo produz ainda ao mesmo tempo ocitocina. E a par disto tudo temos o agressor a destruir ao mesmo tempo a autoestima da vítima”, explica.
Vítima deve procurar uma instituição antes de ir à polícia
Quando uma mulher ou um homem se conseguem libertar de tudo isto, e são vários os motivos abordados neste podcast para tal acontecer, devem procurar uma associação, recomenda Ana Conduto.
“Aconselharia sempre uma vítima a procurar primeiro uma associação de apoio à vítima, porque eu percebo que numa primeira linha a procura das autoridades possa gerar insegurança: 'e se eu chego lá e não acreditam em mim?' Procurar primeiro uma associação de apoio à vítima, porque estão preparadíssimas para a escutar e para encaminhar. O primeiro passo é a segurança daquela pessoa.”
Teresa Féria, juíza conselheira e presidente da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas (APMJ), parceira da Renascença neste podcast, sublinha que antigamente “toda a gente dizia vai e apresenta queixa, hoje em dia é diferente, diz-se primeiro vamos garantir a segurança e depois sim vamos ao processo judicial”.
Há lesões que condicionam para o resto da vida
Ana Conduto assinala que, ainda hoje, a justiça não tem muito em conta todas as lesões da vítima, em particular as que não se veem e produzem efeitos ao longo da vida.
“São lesões que a vítima tem decorrentes de ter sido agredida e mete-se em causa as declarações desta, dizendo que são incongruentes, que não se lembra, tem a memória afetada, claro que está! Teve um traumatismo craniano que não se foi investigar e que se espera que seja a própria vítima a mostrar esses exames”, indica a psicóloga.
Após a violência doméstica, são novamente vítimas, mas do sistema que lhe diz, muitas vezes, que “desenvolveu doença mental, depressão, PTSD, usando isso contra ela num processo de regulação de responsabilidades para lhe ser dito que não tem capacidade, por exemplo, para ser boa mãe”, lamenta Ana Conduto.
Sem olhar para o arguido não se combate o problema
Teresa Féria refere, por seu lado, que o sistema “na sua maioria não requer perícias de personalidade ao arguido, não o faz nem o Ministério Público, nem os juízes”, garantindo que “é algo necessário e relevante no processo”.
Na mesma linha, a psicóloga Ana Conduto identifica como uma das "maiores falhas não começarmos por olhar para uma avaliação de personalidade dos agressores, sem isso não sabemos quem temos à nossa frente”.
E continua: “há uma necessidade de avaliação dos agressores e de trabalho importantíssimo junto deles. Não vamos conseguir combater o fenómeno se não olharmos atentamente para os agressores”.
Neste episódio do podcast Romper o Silêncio fala-se sobre as várias fases que a vítima atravessa numa relação abusiva, os receios que tem, o que a faz querer acabar com o que vive, o medo pelos filhos e o receio de não ser credível, as incapacidades físicas que são subvalorizadas e os jogos de agressão que continuam depois já num processo de regulação parental com a alegação de alienadora.
















